Raul Oliveira Freire
A ponte invisível
Caro Chanceler Edson Queiroz,
Escrevo-lhe porque tudo o que hoje vejo carrega, de algum modo, a sua assinatura invisível.
Quando o seu avião caiu, em 1982, o mundo ainda aprendia a respirar fora da sombra da ditadura. O Brasil ensaiava a democracia com medo, as notícias chegavam devagar, o saber ainda era privilégio, e a energia — essa coisa básica e silenciosa — separava quem podia de quem apenas sobrevivia. O senhor partiu num voo interrompido, quando quase tudo ainda era promessa.
Quarenta e três anos depois, escrevo-lhe de um país que fala demais, se conecta demais, sabe demais — e, paradoxalmente, ainda erra o essencial. Quero lhe contar uma cena simples.
Uma jovem atravessa o campus da Universidade de Fortaleza que o senhor fundou em 1973. Ela vem do interior, primeira da família a pisar numa universidade. Carrega um celular barato, onde assiste a aulas gravadas, lê o mundo inteiro, sonha futuros que antes pareciam impossíveis. À noite, volta para casa e encontra a mãe cozinhando sem fumaça, sem fuligem nos pulmões, sem lenha nos olhos — o gás chega regular, como o senhor sonhou ao criar a Nacional Gás. A televisão ligada informa, confunde, alerta.
Nada disso lhe parece extraordinário. Mas tudo isso só existe porque alguém, décadas atrás, decidiu investir onde ninguém via retorno imediato.
O senhor não conheceu essa jovem. Mas ela existe porque o senhor existiu.
Às vezes penso que o senhor não morreu.
Apenas saiu antes para ver se o caminho era seguro.
O mundo mudou depressa demais desde a sua ausência. Hoje, uma criança pergunta ao telefone o que fazer da vida e recebe resposta antes de terminar a frase. Uma escolha de voto é sugerida por um algoritmo que conhece nossos medos melhor que nós mesmos. Durante a pandemia de 2020, escolas fecharam, cidades silenciaram, e foi a tela — fria, luminosa — que manteve pessoas ligadas, quando o toque físico se tornou perigo.
O senhor acreditava em comunicação como serviço público. Hoje, ela tanto ilumina quanto fere. A mesma rede que mobiliza solidariedade também espalha ódio. A mesma voz que educa pode manipular. Sinto, às vezes, que o senhor faria a pergunta certa neste tempo ruidoso: para quê estamos comunicando?
Na educação, seu legado permanece vivo, mas desafiado. O acesso se ampliou, o conhecimento se democratizou, e ainda assim muitos ficaram para trás — não mais por falta de escola, mas por falta de conexão, de tempo, de horizonte. Ensinar nunca foi tão urgente — e nunca pareceu tão insuficiente. A inteligência artificial responde rápido, mas não ensina ética. O senhor entenderia isso. Sempre entendeu que progresso sem humanidade é apenas velocidade.
O Nordeste que o senhor ajudou a transformar cresceu, inovou, exporta energia limpa, sonha grande. Turbinas eólicas giram onde antes só havia vento vazio. Fortaleza se verticalizou; o interior, em muitos lugares, ainda espera. O senhor acreditava em desenvolvimento com raízes.
Essa talvez seja a pergunta que sua ausência nos deixou: estamos crescendo juntos ou apenas crescendo?
Neste ano de seu centenário, seu nome volta a ecoar pelas ruas de Fortaleza — em placas, em conversas, em luzes que se acendem para lembrar o que foi construído.
Escrevo-lhe, Chanceler, não para celebrar números, datas ou feitos — esses já estão nos livros. Escrevo para dizer que, apesar de todas as mudanças, ainda buscamos o que o senhor parecia já saber: que empreender é, antes de tudo, um ato humano. Que construir empresas, fundações e universidades só faz sentido se, no fim, alguém viver melhor por causa disso.
Não sei se estamos honrando o que o senhor começou. Às vezes, temo que estejamos apenas administrando.
E, confesso, há noites em que olho para essa cidade iluminada, para essas telas que não param de piscar, e sinto uma saudade que não explico — saudade de um tempo que nem vivi, mas que o senhor parecia carregar nos olhos: o tempo em que construir significava, antes de tudo, acreditar que o outro também chegaria lá.
Às vezes me pergunto se o senhor ficaria orgulhoso — ou profundamente preocupado — ao ver o que fizemos com as estruturas que nasceram do seu sonho.
Escrevo-lhe defendendo valores que, confesso, nem sempre consigo sustentar no meu próprio cotidiano. Talvez por isso esta carta exista. Como tentativa, não como resposta.
Se o senhor estivesse aqui hoje, talvez se espantasse com a velocidade do mundo.
Talvez se inquietasse com o excesso de ruído.
E certamente insistiria, como sempre, que visão não é apenas antecipar o futuro, mas sustentar valores quando tudo muda.
O senhor não viu este tempo.
Mas este tempo ainda caminha sobre o chão que o senhor ajudou a firmar.
Com respeito, gratidão e consciência do legado, assino esta carta como quem atravessa uma ponte — uma ponte que o senhor construiu sem saber quem, exatamente, passaria por ela.
Com admiração e responsabilidade,
Raul Freire