Sebastiana Sena de Carvalho
Prezado Dr. Edson Queiroz,
Venho, por meio desta, fazer-lhe, simbolicamente, um convite especial: no dia 18 de julho, espero o senhor para um delicioso almoço, em comemoração à minha formatura.
Espero que goste de galinha caipira — temos muitas no quintal. Mais do que convidá-lo, escrevo para agradecer. A sua universidade me acolheu como se eu fosse parte de um mundo que, durante muito tempo, pareceu não ter sido feito para pessoas como eu.
Não sei se o senhor sabe, mas por muitos anos a Unifor carregou o título informal de “universidade de ricos”. Eu mesma tinha receio até de passar em frente aos seus muros. No início dos anos 2000, quando concluí meus estudos básicos, a universidade particular era sinônimo de um lugar reservado a quem tinha muito dinheiro. Não lhe conto novidade — imagino que o senhor sempre soube disso.
O que talvez o senhor não saiba é que, hoje, aos 40 anos, filha de um agricultor, homem simples, deficiente visual, que lutou contra tudo e contra todos para criar seus três filhos, eu estou, enfim, concluindo uma graduação na sua universidade.
Isso só foi possível porque o tempo, apesar de cruel, também trouxe mudanças. A criação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), no final dos anos 1990, abriu uma nova porta para quem não teve trajetórias escolares perfeitas. Mais adiante, políticas como
o Programa Universidade para Todos (ProUni), instituído em 2004, o Sisu e os sistemas de bolsas ampliaram o acesso ao ensino superior, permitindo que o mérito, a persistência e a história de vida também fossem considerados.
Mas nada disso teria sido suficiente se universidades privadas não tivessem assumido sua responsabilidade social. A Unifor, ao longo dos anos, manteve e ampliou bolsas filantrópicas, programas de inclusão e políticas de acolhimento que transformaram um espaço antes inacessível em um lugar possível para pessoas como eu.
O tempo — e o passado — são cruéis com aqueles que não nascem em berço de ouro. Para nós, o caminho é quase sempre mais longo, mais íngreme e mais solitário. Ainda assim, a sua perseverança em formar cidadãos colaborou para que, quando os governos tornaram a educação mais acessível, a Unifor abrisse as portas para pessoas como eu.
Pessoas que trabalharam cedo, que precisaram escolher o sustento antes do sonho, que aprenderam na prática que estudar, muitas vezes, era um luxo distante. Talvez, nesse ponto, nossas histórias se encontrem: quando empreender, trabalhar no comércio da família e insistir eram os únicos caminhos possíveis.
Eu também trabalhei duro. Quando as oportunidades de estudar estavam fora da minha realidade, segui trabalhando, resistindo, adiando — mas nunca abandonando — o desejo de aprender. E foi graças a uma universidade que acreditou que educação é investimento, e não privilégio, que hoje posso escrever esta carta não como espectadora, mas como formanda.
Preciso, antes de tudo, sentar-me à mesa com o senhor e contar- lhe como ingressei. A Instituição CEBAS, mantida pela Unifor, com suas centenas de bolsas de estudo, possibilitou o meu ingresso, e mais a minha permanência. É bem verdade que fiz minha parte, tirei notas boas, conquistei professores. Mas o que seria de mim sem essa instituição?
Naquela época, eu já estava inscrita em outra instituição, mas sem recursos, pensava diariamente em trancar. Foi quando, numa busca pela internet - ferramenta importantíssima nos dias atuais - que encontrei o edital da instituição, disponibilizando as bolsas de estudo. Logo me inscrevi. A Bolsa institucional foi a luz no fim do túnel. Foi a oportunidade de realizar sonhos e de transformar a realidade daqueles que amo, como um dia o senhor fez, brilhantemente.
A Unifor não me deu apenas um diploma. Deu-me pertencimento, dignidade e a certeza de que o conhecimento pode, sim, atravessar muros sociais quando encontra instituições comprometidas com o futuro.
Por isso, Dr. Edson, este almoço é simples — como minha história —, mas carregado de gratidão. Se hoje celebro uma conquista que parecia improvável, é porque alguém, lá atrás, acreditou que educação é gênero de primeira necessidade. Espero o Senhor e os seus na minha humilde residência, para papear e oferecer o temos de melhor e mais preciso, a nossa atenção.
Com respeito, admiração e gratidão,
Sebastiana Carvalho