Pesquisa da UECE e Unifor desenvolve extrato de murici com potencial anti-inflamatório

qua, 12 agosto 2026 10:58

Pesquisa da UECE e Unifor desenvolve extrato de murici com potencial anti-inflamatório

Estudo reúne pesquisadores(as) da Universidade Estadual do Ceará e da Universidade de Fortaleza e utiliza o zebrafish adulto para avaliar os efeitos farmacológicos e a segurança de composto obtido a partir das folhas da planta


O estudo resultou no desenvolvimento de uma composição à base do extrato das folhas da planta, que demonstrou efeitos anti-inflamatório, analgésico e antioxidante - Foto: Arquivo Pessoal
O estudo resultou no desenvolvimento de uma composição à base do extrato das folhas da planta, que demonstrou efeitos anti-inflamatório, analgésico e antioxidante - Foto: Arquivo Pessoal

Pesquisadores(as) da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e da Universidade de Fortaleza (Unifor) estão à frente de uma pesquisa que investiga o potencial farmacológico do murici (Byrsonima crassifolia), planta nativa da Caatinga e presente na alimentação e nos saberes tradicionais de comunidades indígenas do Ceará. O estudo resultou no desenvolvimento de uma composição à base do extrato das folhas da planta, que apresentou efeitos anti-inflamatório, analgésico e antioxidante em testes pré-clínicos realizados com zebrafish adultos. O pedido de registro da patente da tecnologia foi protocolado junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e está em análise.

A pesquisa integra competências complementares das duas instituições cearenses. Na UECE, o trabalho envolve pesquisadores do Laboratório de Química de Produtos Naturais (LQPN), responsável pela investigação e caracterização dos compostos presentes no murici. Na Unifor, a participação está relacionada aos estudos farmacológicos e de segurança realizados no Núcleo de Biologia Experimental (Nubex), com o uso do zebrafish como modelo experimental.

De acordo com os resultados obtidos até o momento, o extrato das folhas do murici demonstrou potencial para atuar simultaneamente sobre processos relacionados à dor e à inflamação gastrointestinal. Um dos compostos identificados na planta também apresentou atividade semelhante à da morfina, embora os pesquisadores ressaltem que esse resultado indica potencial farmacológico e não significa que a planta possa substituir o medicamento.

Para o professor e pós-doutorando do Laboratório de Química de Produtos Naturais (LQPN) da UECE, Lucas Frota, um dos principais diferenciais da tecnologia está no seu mecanismo de ação. “Muitos medicamentos tradicionais tentam proteger a mucosa do estômago para tratar a inflamação. No caso da nossa planta, ela combate estresses bacterianos que causam dor. Procuramos desenvolver um material que atua por uma via ainda pouco estudada”, explica.

O pesquisador também destaca os resultados relacionados à segurança do extrato nos estudos realizados até o momento. “Até então, nos estudos pré-clínicos que realizamos, não conhecemos efeitos adversos. É um material que não causa dependência”, salienta. 

Na etapa de avaliação farmacológica e de segurança, a pesquisa contou com a participação da Unifor, por meio de estudos realizados com zebrafish adultos. Para a professora e pesquisadora Adriana Rolim, coordenadora de Pesquisa da Unifor, a utilização desses animais é fundamental para a obtenção de respostas fisiológicas mais precisas:

“O sucesso do estudo com o extrato de murici passa pela precisão dos ensaios com zebrafish adultos. O uso de indivíduos adultos nos fornece respostas fisiológicas maduras sobre a redução do processo inflamatório e a toxicidade, consolidando esse modelo como uma ferramenta eficaz e moderna para a descoberta de novos medicamentos no Brasil.”

Na Unifor, as pesquisas com zebrafish são desenvolvidas no Núcleo de Biologia Experimental (Nubex) e coordenadas, entre outros pesquisadores, por Adriana Rolim. A utilização do modelo começou com investigações voltadas à avaliação de substâncias com potencial analgésico e, posteriormente, foi ampliada para diferentes áreas da farmacologia. Atualmente, os estudos abrangem a investigação dos efeitos de compostos naturais e sintéticos relacionados à dor, ansiedade, depressão, inflamação, convulsões e memória, além do desenvolvimento de novos modelos experimentais.

Entre as pesquisas desenvolvidas pelo grupo estão estudos sobre substâncias com potencial analgésico e anti-inflamatório, como a bromelaína, extraída do abacaxi, e a cis-jasmona, que resultou no desenvolvimento de uma nanoemulsão com efeitos analgésico, ansiolítico, anti-inflamatório e anticonvulsivante. O grupo também desenvolve pesquisas com o zebrafish para investigar mecanismos relacionados à regeneração cardíaca e à proteção neurológica.

A experiência da pesquisadora também inclui estudos com produtos naturais, como a aroeira-do-sertão, investigada por seu potencial neuroprotetor em um modelo experimental de acidente vascular cerebral em zebrafish adulto. O currículo de pesquisa de Adriana Rolim registra ainda uma linha dedicada ao uso do zebrafish como método alternativo aos roedores na investigação do potencial antioxidante, antinociceptivo e ansiolítico de produtos naturais e sintéticos.

Modelo alternativo para a pesquisa biomédica

O zebrafish é um peixe de água doce que pode chegar a cerca de cinco centímetros na fase adulta e apresenta aproximadamente 70% de similaridade genética com o ser humano. Por essas características, tornou-se um modelo complementar para estudos em diferentes áreas da biomedicina. Na Unifor, sua utilização também está alinhada ao princípio dos 3Rs — reduzir, substituir e refinar o uso de animais em pesquisas científicas.

Além de contribuir para a investigação de novos tratamentos, o modelo permite avaliar, em etapas pré-clínicas, tanto a atividade farmacológica de substâncias quanto aspectos relacionados à toxicidade e à segurança. No caso do murici, os testes realizados com zebrafish adultos indicaram baixa toxicidade do extrato e contribuíram para a avaliação de seu potencial anti-inflamatório e analgésico.

Da biodiversidade cearense à inovação

A investigação do murici nasceu do contato dos pesquisadores com o povo Tremembé da Barra do Mundaú, em Itapipoca, onde a planta possui importância cultural e está associada à tradicional Festa do Murici e do Batiputá. A partir dos conhecimentos compartilhados pela comunidade, os pesquisadores passaram a investigar não apenas o fruto, tradicionalmente utilizado na alimentação, mas também outras partes da planta, como as folhas.

O trabalho evidencia o potencial da biodiversidade nordestina para a geração de conhecimento científico e inovação em saúde, aproximando saberes tradicionais, investigação de produtos naturais, farmacologia e novas metodologias experimentais.

Os estudos para o desenvolvimento da tecnologia estão em andamento desde fevereiro de 2025 e incluem a padronização das dosagens, a caracterização química do extrato e outras etapas pré-clínicas. Os resultados obtidos com o zebrafish representam uma etapa inicial do processo de desenvolvimento e deverão ser complementados por novos estudos antes de eventual avaliação clínica em seres humanos.

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