seg, 2 março 2026 16:12
Chuvas e caos urbano: como o desmatamento intensifica alagamentos em Fortaleza
Especialista explica como a falta de planejamento urbano e a perda de áreas verdes ampliam os impactos das chuvas na capital cearense

Historicamente, o Ceará passou por longos períodos de seca, como a Seca de 1915, episódio marcado por fome, escassez de água e elevado número de mortes no Nordeste. Mais de um século depois, no entanto, Fortaleza enfrenta uma realidade diferente: em vez da falta de água, o que preocupa são os alagamentos frequentes em ruas, bairros e comunidades da capital.
Nos períodos de chuva mais intensa, diversos pontos da cidade ficam inundados, dificultando a mobilidade, causando prejuízos materiais e colocando moradores em situação de risco. Segundo o arquiteto e urbanista Amando Candeira, professor do Mestrado Profissional em Ciências da Cidade (MPCC) da Universidade de Fortaleza — instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz —, vários fatores contribuem para que a capital cearense viva nesse cenário; entre eles, o crescimento urbano desordenado e a perda de áreas naturais.
De acordo com o especialista, a transformação do ambiente natural em espaço urbano altera diretamente o funcionamento do ciclo da água na cidade. “A cidade é, talvez, o tipo de ambiente mais modificado pelo homem em relação ao que seria um ambiente natural”, explica. Com a expansão urbana, ocorrem mudanças como aterramento de áreas, canalização de rios e impermeabilização do solo, fatores que reduzem a capacidade natural de absorção da água das chuvas.
Quando a cidade interrompe o ciclo natural da água
Em ambientes naturais, a chuva é absorvida pelo solo, pela vegetação e por corpos d’água, mantendo o equilíbrio do chamado ciclo da água. Nas cidades, esse processo é interrompido pela grande quantidade de superfícies impermeáveis como asfalto, concreto e construções.
Segundo o professor, essa mudança interfere diretamente na drenagem urbana e contribui para o surgimento de alagamentos. “Enquanto a chuva cai na área natural e boa parte dessa água se infiltra no solo, na cidade é diferente: predominam áreas impermeáveis. E essa condição afeta bastante o ciclo da água”, afirma.
Além disso, a retirada da vegetação também agrava o problema. Para o docente, a cobertura vegetal tem papel fundamental no equilíbrio ambiental e no controle da água da chuva. “A vegetação retém água na própria planta, mantém a umidade do solo e também contribui para a umidade do ar por meio da evapotranspiração”, destaca. Quando essas áreas são desmatadas e substituídas por pavimentação ou construções, o volume de água que escorre pela superfície aumenta, intensificando o risco de enchentes para a cidade.
+ LEIA MAIS | Entenda por que chuvas intensas continuam a causar alagamentos em Fortaleza
Lagamar revela impacto do crescimento urbano desordenado
Um exemplo recente dessa realidade pode ser observado em comunidades próximas ao Aeroporto Internacional de Fortaleza, especialmente no bairro Lagamar, onde moradores relataram fortes enxurradas após chuvas intensas.
Para o professor Amando Candeira, a situação da região ilustra como o crescimento urbano sem planejamento adequado pode intensificar problemas de drenagem. “O problema maior é a ocupação e como essa ocupação se deu. Boa parte daquela região está situada em uma área de várzea do rio”, explica.
(Foto: OpenEdition Journals)
A várzea é a área natural que pode ser inundada quando o rio recebe um volume maior de água. Segundo o urbanista, muitas vezes, o planejamento urbano considera apenas o leito do rio, ignorando essas áreas naturais de expansão da água. Ele destaca que: “O leito do rio não existe sozinho. Ele está dentro de uma área maior que chamamos de várzea, que são áreas suscetíveis ao alagamento quando o rio recebe mais água”.
Quando essas regiões são ocupadas por moradias ou infraestruturas urbanas irregulares, os impactos das chuvas se tornam praticamente inevitáveis. “Boa parte da ocupação está dentro da várzea do rio. Nesses casos, resolver o problema é muito difícil”, afirma o professor.
Planejamento urbano e preservação ambiental precisam caminhar juntos
Para evitar que situações como essa se repitam, Amando destaca que o planejamento urbano precisa considerar a dinâmica ambiental da cidade. Segundo ele, não é possível separar urbanização e meio ambiente. “Na verdade, é impossível não integrar. Nós estamos dentro do meio ambiente, não há como fugir disso”, pontua.
Rua Mundaú com Rua José do Som, no bairro Aerolândia, em Fortaleza (Foto: João Pedro Ribeiro/TVM)
Ele ressalta que projetos urbanos precisam ser pensados a partir de uma visão ampla do território, considerando rios, bacias hidrográficas, vegetação e características naturais da região. Como exemplo, o professor cita a importância de analisar não apenas um rio isoladamente, mas todo o sistema ao qual ele pertence, como ocorre na bacia do Rio Cocó, um dos principais cursos d’água de Fortaleza.
Além do planejamento técnico, o professor ressalta que a implementação dessas estratégias depende de vontade política, fiscalização e participação da sociedade. “Planos não se colocam em prática sozinhos. Muitas vezes existem bons planos, mas que acabam ficando no fundo da gaveta. É fundamental que haja vontade política, gestão e fiscalização para que eles sejam implementados”, afirma.
O planejamento urbano de Fortaleza é gerido pela Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma), que atua em conjunto com o Instituto de Pesquisa e Planejamento de Fortaleza (Ipplan), responsável por estudos e pesquisas para a melhoria da cidade.
Enquanto as chuvas seguem revelando fragilidades estruturais em Fortaleza, especialistas reforçam que o caminho para reduzir os impactos passa necessariamente pela integração entre planejamento urbano, preservação ambiental e gestão pública eficiente.
Uma solução viável para a capital do Ceará pode ser inspirada nas Cidades Esponjas, conceito desenvolvido pelo arquiteto paisagista Yu Kongjian que propõe a integração da natureza ao planejamento urbano. A ideia do projeto é facilitar a reintegração do ciclo hídrico no ambiente urbano, contribuindo para o controle do nível da água e reduzindo o risco de transbordamentos que possam atingir moradias vizinhas e ruas.
+ SAIBA MAIS | Cidades-esponja: conheça a solução urbana contra enchentes e extremos climáticos
Formação de profissionais é essencial para enfrentar os desafios das cidades
Outro ponto destacado pelo urbanista é a importância da formação de profissionais capacitados para compreender as dinâmicas urbanas e ambientais da cidade. Segundo ele, a complexidade desses ambientes exige uma abordagem multidisciplinar.
Nesse contexto, programas de formação acadêmica, como o Mestrado Profissional em Ciências da Cidade (MPCC) da Universidade de Fortaleza, contribuem para preparar especialistas capazes de analisar e propor soluções para os desafios urbanos.
Segundo o professor Amando Candeira, muitos problemas urbanos podem se transformar em objetos de estudo e pesquisa durante o curso, ajudando o estudante a desenvolver novas ferramentas de planejamento e gestão das cidades.
“Formar profissionais que se capacitem para entender melhor essas realidades, essas dinâmicas [urbanas], é fundamental. No caso do Mestrado Profissional em Ciências da Cidade, isso se torna muito interessante, porque muitas pessoas na nossa cidade estão se capacitando, inclusive nesse sentido” — Amando Candeira, arquiteto, urbanista, docente do Mestrado Profissional em Ciências da Cidade da Unifor e doutor em Arquitetura e Urbanismo
Esta notícia está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), contribuindo para o alcance dos ODS 4 – Educação de Qualidade e ODS 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis.
Ao promover educação inclusiva e de qualidade, ampliando oportunidades de aprendizagem e gerando impacto positivo na comunidade, a Universidade de Fortaleza reafirma seu compromisso com o ODS 4 e o ODS 11, contribuindo para cidades mais inclusivas e sustentáveis por meio da formação profissional de excelência.