seg, 25 maio 2026 12:45
Entrevista Nota 10: Ivanildo Nunes e o artesanato nordestino como protagonista na alta-costura
Destaque na Semana de Moda de Paris, o estilista explica como transformou o artesanato regional em luxo fashion e compartilha detalhes da masterclass que ministrou para estudantes da Unifor

Entre rendas, bordados, crochês e passarelas, o estilista Ivanildo Nunes construiu sua imagem de criador de moda sobre um princípio singular: mostrar como o luxo pode nascer da técnica manual e da identidade cultural do próprio território. O grande diferencial de seu trabalho é a forma como usa diferentes saberes artesanais, que vão de detalhes ornamentais a protagonistas estruturais nas roupas que cria.
Em suas coleções, o poder cultural do Nordeste exala de cada peça. A escolha por técnicas complexas, que nascem das mãos de artesãs locais, surge não apenas pela beleza dos resultados, mas também pela intenção de manter viva a memória das tradições e de valorizar o trabalho artesanal dessas comunidades.
“A minha maior busca é ter um artesanato e um design totalmente contemporâneos, tirar esse ranço de que artesanato é para ser vendido em feira a preço de banana. O meu objetivo enquanto designer é justamente mostrar as múltiplas possibilidades que o artesanato tem nesse universo da exclusividade e do luxo”, conta Ivanildo, natural de Parnaíba, no Piauí, mas radicado no Ceará, onde deslanchou no mercado de moda.
Seu objetivo vem se cumprindo com louvor, figurando seu nome por anos na Semana de Moda de Paris. Em 2025, ele emocionou o público do evento com a coleção “Manifesto em Prol do Artesanato Cearense” — desenvolvida em parceria com comunidades de mulheres artesãs cearenses, a obra reuniu técnicas como crochê, renda renascença, bordado richelieu e bordado cheio, além de tecidos pintados à mão. Recentemente, um de seus designs exclusivos também apareceu no Festival de Cannes.
Ivanildo já assinou o figurino da Ala da Velha Guarda da Escola União da Ilha do Governador no Carnaval do Rio de Janeiro, em 2019, além de produções para novelas da TV Globo, como “No Rancho Fundo”, “Mar do Sertão” e “Guerreiros do Sol”, e para folhetim “Gênesis”, do SBT.
Formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC), ele é especialista em Criação e Desenvolvimento de Produtos de Moda pela Universidade Católica do Ceará, área na qual atua desde 1989. Desde 2019, desenvolve projetos junto a comunidades artesãs do Ceará, promovendo geração de renda, valorização cultural e remuneração justa.
Neste dia 25 de maio, o designer de moda esteve na Universidade de Fortaleza para conduzir a masterclass “Moda Contemporânea – Da Ideia à Materialização”, promovida pelos cursos de Moda da instituição. Os alunos da Unifor ainda contarão com uma oficina de Design Têxtil, que será ministrada por Ivanildo nos dias 26 e 27 de maio.
Na Entrevista Nota 10 desta semana, o estilista fala sobre sua carreira e o trabalho de luxo desenvolvido com o artesanato local, além de comentar sua participação na masterclass realizada pela Unifor.
Confira a entrevista na íntegra a seguir.
Entrevista Nota 10 — Ivanildo, como surgiu seu interesse pela moda e o que o motivou a construir uma carreira nesse ramo? Houve algum momento específico nessa trajetória que mostrou que você estava no caminho certo ou que o fez se sentir plenamente realizado?
Ivanildo Nunes — Na verdade, desde criança eu já tenho esse contato com as manualidades. A minha mãe sempre gostou de costurar alguma coisa, mas mais no universo das bonecas, cachorrinho de pelúcia e trabalhos manuais mesmo. Em 1985, eu tive outra experiência com a moda, que foi aquela novela Tititi, onde tinha aquela senhorinha que ficava no asilo vestindo bonecas. E aí a minha mãe comprava as bonecas, eu vestia elas, e ela colocava para vender essas bonecas na loja do meu pai, aqueles armarinhos de interior, vendia tecido, vendia tudo de um pouco.
Então, a moda já esteve presente, muito fortemente, na minha infância. Também havia uma banca na calçada da loja do meu pai, na rua, onde eu vendia a bijuteria — na verdade, eu fabricava as bijuterias, aquelas tipo “riponga”. Acaba que as manualidades misturadas com o conceito de moda, apesar de eu não saber nem o que era moda na época, já existiam nessa realidade da minha trajetória.
Eu, na verdade, ainda não estou num processo de realização, tenho objetivos na minha vida profissional. Quando deixei o jornalismo para poder me dedicar à moda, era com o intuito de que eu estava fazendo algo que eu gostava e que tinha um propósito na minha vida. A gente tem muita coisa ainda a realizar, mas eu acredito que seja um instrumento que eu tenho para transformar vidas. Então, é o meu propósito enquanto designer, enquanto empresário e enquanto pessoa.
Entrevista Nota 10 — Seu trabalho traz como marca a junção entre o luxo fashion e diferentes artesanias tradicionais. De onde vem suas inspirações? Conta um pouco do seu processo criativo ao desenvolver novas coleções e como os desafios de criação se tornam oportunidades para trazer algo inovador às passarelas e vitrines.
Ivanildo Nunes — Essa minha relação com o artesanato veio da época onde eu era presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL). Eu já tive essa experiência fazendo bijus artesanais, com conchas e arames, mas uma experiência muito forte que eu tive foi quando fui presidente do CDL lá no Maranhão. Nesse processo, tive muito contato com as comunidades, porque meu melhor parceiro era o Sebrae, então fazíamos essas conexões.
Estive muito presente nas comunidades e percebi que eu precisava fazer algo para mudar um pouco aquela realidade, no sentido de valorização do produto, na valorização do que as pessoas estavam fazendo. Fazíamos feiras e interferências, mas eu não atuava como design. Quando tinha design para ser contratado, não era eu, era outra pessoa que contratávamos para poder fazer essas intervenções. Mas aí, um belo dia, o Sebrae me perguntou se eu gostaria de fazer uma coleção com tecidos tecnológicos e artesanato de crochê com a fibra do Buriti, eu aceitei e, a partir desse momento, me conectei realmente com a moda.
Participei do Dragão Fashion Novos Talentos 2006 com essa coleção que eu fiz pro Sebrae, que foi desfilado na Feira do Empreendedor, no Maranhão. E aí comecei a minha trajetória: fui contratado por uma empresa cearense para poder assumir a parte criativa e colocar dentro dessa empresa a minha criatividade em termos de confecções artesanais.
A minha maior busca é ter um artesanato e um design totalmente contemporâneo, tirar esse ranço de que artesanato é para ser vendido em feira à preço de banana. Então, o meu objetivo enquanto designer é justamente mostrar as múltiplas possibilidades que o artesanato tem nesse universo da exclusividade e do luxo.
Às vezes meu trabalho nem é compreendido porque o que eu faço, como é um pouco fora da curva, as pessoas, os jornalistas e a grande imprensa não conseguem entender que tudo que está ali é artesanato, que tudo que está ali é feito manualmente, que tudo que está ali é exclusivo. Isso porque o olhar da grande imprensa já está muito viciado no que logo de primeira as pessoas já percebem que é feito manual.
Então, eu consigo transformar uma trancinha de crochê em um design totalmente arrojado, totalmente contemporâneo e totalmente exclusivo porque eu acredito que isso é que pode agregar valor aos produtos feitos à mão do Brasil. A minha busca é essa. Você pode ver que, nas minhas coleções, eu preciso dizer “olha, isso aqui é crochê, isso aqui é richelieu, isso aqui é renascença, isso aqui é renda de bilro”, e aí contar essa história.
Entrevista Nota 10 — Recentemente, você levou a coleção “Manifesto em Prol do Artesanato Cearense” para as passarelas da Semana de Moda de Paris, marcando presença no evento pelo segundo ano consecutivo. O que esse momento representou para você enquanto profissional e apaixonado por moda? E como você percebe a reação do público e da crítica internacional ao se depararem com um trabalho feito à mão que representa nosso povo e território?
Ivanildo Nunes — Eu sempre quis fazer o “Manifesto em Prol do Artesanato Cearense” utilizando a linguagem da moda. E quando fizemos no ano passado, eu achava que ia emocionar apenas brasileiros, porque eu trouxe uma linguagem relacionada também à religiosidade. Quando entrei no final do desfile, percebi que o meu objetivo tinha sido cumprido, que era emocionar e trazer uma história. E as pessoas, tanto os brasileiros quanto os estrangeiros, estavam com os olhos lacrimejando com a questão da trilha sonora, do desfile, do impacto e da história que eu fui contar. Eu fico muito feliz que eu tenha conseguido esse propósito.
Nós temos que perceber que o Brasil é um dos grandes criadores. Nós temos muito criativos. Além disso, nós temos toda uma carga cultural muito forte que precisa ser valorizada. Então, quando eu coloco dentro de uma coleção um manifesto para que o olhar das autoridades, o olhar dos designs, o olhar da grande imprensa se volte para aquela coleção, para como ela foi construída e de onde ela veio, isso dá múltiplas possibilidades de conversar sobre isso, de abrir discussões sobre isso, porque não podemos só mostrar o que é belo e o que é maravilhoso. Precisamos entender que aquele belo e aquele maravilhoso produto precisa ser preservado. E para que ele seja preservado, precisamos ter uma relação direta com quem faz e o que essas pessoas que fazem o artesanato estão passando.
É esse o objetivo. Saímos nas revistas internacionais BAZAAR e ELLE, então estamos muito felizes de estarmos construindo aos poucos essa trajetória.
Entrevista Nota 10 — O campo da moda requer não só estudo teórico, mas também bastante experiência concreta. Qual a relevância de futuros profissionais do mundo fashion terem acesso a laboratórios e oportunidades de vivenciar a prática ainda durante a formação? Sendo uma referência na área, como você enxerga o trabalho formativo promovido pela Unifor com os cursos de Moda?
Ivanildo Nunes — Quando a Unifor fez a abertura do curso de Design de Moda, eu fui convidado para fazer o desfile de abertura. Eu fiquei muito honrado, porque a Unifor é uma instituição de ensino que traz, dentro da sua estrutura, a parte de conexão, a parte de ensino, a parte de inovação, a parte de tecnologia. Ela tem todo um aparato de excelência para receber os alunos.
Quando a Unifor se propõe a convidar profissionais que tenham autoridade no mercado para inserir ali novas formas de pensar, novas práticas de mostrar os processos criativos, de como se conectar com outros universos, trazer experiências de fora, tudo isso é de muito valor. Porque eu acho que os alunos precisam ter essa relação, não só com o mundo acadêmico, eles precisam ter essa relação também, antes de se formar, com o que está acontecendo na moda, fora da Universidade.
Claro que os alunos têm as possibilidades de viajar, de buscar, assistir desfile, de se conectar nos congressos e nos universos. Mas quando nos colocamos dentro da própria universidade, utilizando todo o aparato da instituição, todos os laboratórios da universidade e trazendo algo que possa agregar, isso aí é excelente.
Entrevista Nota 10 — Hoje você participou da masterclass “Moda Contemporânea – Da Ideia à Materialização”, evento promovido pelos cursos de Moda da Unifor. Qual a importância de momentos de troca como esse para os futuros profissionais que estão se formando agora?
Ivanildo Nunes — Fizemos uma masterclass que eu acredito que conectou muito, que tirou muitas dúvidas, que promoveu algumas inquietações. Porque o nosso trabalho, a nossa vida é cheia de picos, de descidas, de choro, de alegria, de conexões internacionais, capas de revista, mas, ao mesmo tempo, é um trabalho árduo de construção de marca, é um trabalho de todos os dias construir algo novo para que a gente consiga interagir com o mercado nacional e o mercado internacional.
Então, eu coloquei nesta masterclass toda a minha experiência. E não só a experiência de glamour, mas a experiência realmente de construção de marca, de construção do design, de construção de um cara que se propôs a ser diferente no mercado ao trabalhar o luxo de forma totalmente autoral em um universo onde tudo em torno promove uma certa contradição. O luxo brasileiro ainda precisa ser muito discutido e muito trabalhado.
Eu venho nessa trajetória e acredito que, através das minhas experiências, eu consiga chegar a cada um dos alunos, das pessoas que estão ali que se interessam por moda. Nada na vida é feito da noite para o dia. Temos 15 anos de marca Ivanildo Nunes, mas eu já venho com outras marcas desde os 17 anos, quando me emancipei, tirei um CNPJ e comecei a construir uma carreira de design e de empresário na moda — nessa época, eu fazia moda praia. [De lá para cá], venho construindo uma imagem de valor.
E é isso que quis mostrar na masterclass, que cada um deles precisa apenas entender o que eles querem, identificar dentro de si qual é a verdadeira vocação. É ser stylist, é ser um criador, é ser um produtor de moda, é ser um marketing de moda? Porque nessa escolha é que se faz a construção, é que se permanece gradativamente dentro de uma realidade de mercado até chegar aonde o nosso objetivo está definido. Acredito que foi uma masterclass que mostrou toda essa trajetória.
Além disso, eu quis trazer algo de conexão. Eu queria realmente conectar os alunos, colocá-los dentro de uma realidade prática também para poder entender a questão da escassez, a questão de que a criatividade pode estar muito mais aflorada em épocas de crise.
Trouxemos todo um universo para que as pessoas saiam daquela masterclass com uma visão ampla do mercado e de um mercado concreto, que foi vivido por mim, que está sendo construído com a minha trajetória e que vai se alinhando com meus objetivos que são mais internacionais.
Entrevista Nota 10 — Como suas experiências no mercado fashion podem contribuir para a construção da carreira desses estudantes de Moda da Unifor que vão participar do evento?
Ivanildo Nunes — É importante, porque temos dentro da universidade uma conexão com o mercado antes que os alunos saiam. Pudemos falar sobre gargalos que temos nessa conexão com o mercado, que tipo de mercado vai absorvê-los, quais são as propostas que são colocadas dentro dessa relação aluno e mercado profissional. Trouxemos para dentro da Universidade experiências extras que os estudantes ainda não vivenciaram e que eles podem, através das nossas experiências, decidir que caminhos têm que seguir, quais atitudes devem tomar ou não devem tomar, por conta de uma história, por conta de uma experiência que não foi feita, que não foi vivida por eles. Então, isso é muito importante.