seg, 20 abril 2026 12:38
Da fantasia aos tribunais: histórias em quadrinhos transformam o ensino jurídico na Unifor
XI Colóquio Justiça em Quadrinhos mostra como heróis, vilões e cultura pop ajudam estudantes a desenvolver pensamento crítico, ética e visão internacional no curso de Direito

Entre capas, máscaras, tribunais e dilemas morais, o universo das histórias em quadrinhos (HQ) tem se consolidado como uma poderosa ferramenta de aprendizagem no curso de Direito da Universidade de Fortaleza, instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz. Além de ser entretenimento, heróis, vilões, animações, mangás e séries têm funcionado como ponto de partida para reflexões significativas sobre cidadania, ética, criminalidade, relações internacionais e o papel do Estado na sociedade atual.
Essa proposta ganha novo fôlego nos dias 22 e 23 de abril, quando a Unifor realiza o XI Colóquio Justiça em Quadrinhos: cidadania e conquistas profissionais na internacionalização de pessoas, iniciativa que une ensino, pesquisa e extensão em torno de uma abordagem inovadora: pensar o direito a partir da cultura pop.
Idealizado e coordenado pelo historiador Daniel Camurça Correia, docente do curso de Direito e líder do Grupo de Pesquisa Justiça em Quadrinhos, o evento se tornou uma experiência consolidada dentro da Universidade. A proposta é mostrar que personagens fictícios, conflitos narrativos e universos fantásticos ajudam a compreender problemas muito reais.
“Há muitos anos, desde a graduação, eu tenho percebido a importância dos quadrinhos, das animações e das séries para analisar a sociedade do presente, seja no que diz respeito às questões da vida coletiva, seja no que diz respeito ao papel do Estado, seja no que diz respeito à dinâmica das leis”, destaca o mestre em História.
Segundo ele, a iniciativa encontrou no ambiente acadêmico da Unifor o espaço ideal para crescer. “Foi somente no curso de Direito da Unifor que eu tive a oportunidade e o apoio da direção de Centro para criar o grupo de pesquisa, surgindo aí reflexões importantíssimas acerca do papel dos personagens e da maneira como roteiristas têm criado mídias que trazem reflexões poderosas e necessárias sobre o que é certo e errado”, afirma.
O papel de heróis na formação ética
A força pedagógica dos quadrinhos reside na capacidade de traduzir conceitos complexos em experiências simbólicas e emocionais. Nos roteiros, heróis e vilões enfrentam decisões difíceis, testam limites e lidam com consequências — um exercício muito próximo do que os futuros profissionais do Direito vivenciam ao analisar casos reais. Para Daniel Camurça, esse paralelo é um dos grandes diferenciais do projeto.
“No mundo jurídico, o profissional precisa desses elementos. Enquanto delegado, desembargador, juiz ou advogado, ele vai se encontrar com casos complexos, com dramas de pessoas reais, e por isso vai precisar ter calma, paciência, bom senso, informação e conhecimento das leis. É exatamente o processo de aprendizado do herói durante a saga.” — Daniel Camurça, docente do curso de Direito da Unifor e coordenador do Grupo de Pesquisa Justiça em Quadrinhos
Ao trazer essas narrativas para a sala de aula, o curso amplia a identificação dos estudantes com os conteúdos. Questões como ética, responsabilidade, cidadania e convivência social deixam de ser apenas conceitos teóricos e passam a ser percebidas em situações concretas, ainda que ficcionais.
Esse aspecto também é ressaltado pelo psicólogo Márcio Gondim, mestre em Psicologia e palestrante convidado para o diálogo interdisciplinar promovido pelo XI Colóquio. “Os quadrinhos têm uma força muito particular porque colocam a ética no campo da experiência vivida. Eles não falam só de regras, mas de pessoas em conflito, fazendo escolhas, lidando com consequências. Isso aproxima temas como cidadania e justiça da realidade concreta”, observa.
Muito além do fã: o exercício da leitura crítica
Outro ponto central do projeto é ensinar os estudantes a irem além do olhar de fã. Se, em um primeiro momento, muitos chegam ao grupo de pesquisa profundamente conectados emocionalmente aos personagens, o trabalho acadêmico os convida a questionar discursos, símbolos e ideologias presentes nas obras.
“O nosso grupo de pesquisa [Justiça em Quadrinhos] estimula o estudante a tentar analisar o que tem por trás da roteirização: os interesses políticos, os discursos nacionais, a maneira como se critica o papel do Estado e da polícia”, explica Daniel Camurça.
Ele cita como exemplo personagens consagrados. “O Batman não é apenas o herói nobre. Ele também toma decisões baseadas no fato de que tem dinheiro e poder aquisitivo, o que muitas vezes faz com que desrespeite a lei. Ou seja, ele não é o herói, ele é o justiceiro”, pontua. Essa mudança de perspectiva fortalece a formação crítica do estudante, que passa a observar textos, imagens e narrativas com mais profundidade.
Segundo o professor, o impacto aparece diretamente na escrita acadêmica, na leitura de jurisprudências e na interpretação de tratados internacionais. Esse exercício, de acordo com ele, reflete diretamente na leitura de jurisprudências e na análise de leis, já que os alunos conseguem perceber com mais clareza os interesses e disputas que atravessam esses documentos.
Interdisciplinaridade que aproxima direito, psicologia e cultura pop
O colóquio também se destaca por reunir diferentes áreas do conhecimento, como direito, psicologia, história e geografia, ampliando a compreensão dos fenômenos sociais representados nas obras. Para o psicólogo Márcio Gondim, essa troca entre saberes é um dos pontos mais ricos do evento.
“Os quadrinhos criam um ponto de encontro entre diferentes áreas porque partem da experiência, não de conceitos fechados. No colóquio, isso aparece como um diálogo mais vivo, onde os saberes não ficam isolados, eles se atravessam.” — Márcio Gondim, psicólogo e palestrante convidado do XI Colóquio Justiça em Quadrinhos
Na prática, isso significa analisar um mesmo personagem ou conflito narrativo por múltiplas lentes: a jurídica, a psicológica, a social, a política e a cultural. O resultado é uma leitura mais ampla das tensões que atravessam a sociedade.
A internacionalização, tema central desta edição, também se conecta naturalmente a esse universo. Para o historiador Daniel Camurça, personagens globais como Homem de Ferro, Thor e Super-Homem ajudam a discutir fronteiras, soberania, tratados internacionais e conflitos entre países.
“Nós temos um filme do Homem de Ferro em que ele sai dos Estados Unidos, vai a um país do Oriente Médio e começa a atirar em várias pessoas. Independentemente do motivo, ele não tem autorização para fazer isso. Está posta aí uma questão de Direito Internacional, de fronteira e de soberania”, exemplifica o docente.
A história em quadrinhos do Homem de Ferro não se trata exatamente de uma narrativa de super-heróis, mas de um drama envolvendo um homem que se vê preso em sua própria criação (Imagem: hqrock/Marvel Comics)
Além disso, o contato com mangás, animações e produções de diferentes países amplia repertórios culturais e cria pontes acadêmicas. “Temos jovens na Universidade que falam coreano, leem japonês e, por isso, têm contato com outras culturas. Isso facilita a construção de elos acadêmicos e profissionais com outros países por meio da troca cultural”, reforça.
Da pesquisa à prática
Se a ideia do colóquio surge em sala de aula e se consolida na pesquisa, seus impactos também se refletem na carreira profissional de quem participou do evento. É o caso do professor universitário e advogado Ikaro Grangeiro Ferreira, egresso do curso de Direito que participou do Grupo de Pesquisa Justiça em Quadrinhos e hoje leva essa formação crítica para sua atuação jurídica.
Segundo ele, o contato com a iniciativa transformou profundamente sua maneira de compreender a realidade jurídica e social. “A participação no Grupo de Pesquisa Justiça em Quadrinhos me permitiu entender que a realidade jurídica é muito viva, mais complexa do que foi idealizada e com reflexos que extrapolam as discussões formais que acobertaram a sua criação”, afirma.
Para Ikaro, que é conciliador judicial, a experiência ajudou a romper com uma visão excessivamente formalista do direito, permitindo enxergar questões sociais que muitas vezes ficam invisíveis dentro das estruturas tradicionais de ensino.
“Esse contato com a cultura pop abriu meus olhos para enxergar que, muitas vezes, o formalismo, necessário para o rigor jurídico, invisibiliza questões sociais que deveriam ser o ponto de partida das discussões que o direito porta.” — Ikaro Grangeiro, professor universitário, conciliador Judicial, advogado e egresso do curso de Direito da Unifor
A relação entre narrativas ficcionais e temas sociais também teve impacto direto em sua pesquisa. Um dos exemplos mais marcantes foi a leitura da história em quadrinhos “Super Choque”, personagem conhecido por abordar racismo, desigualdade e direitos sociais de forma acessível para diferentes públicos.
“O contato com a HQ do Super Choque me remeteu a memórias de infância, de situações em que presenciei cenas latentes de discriminação étnica contra grandes amigos meus. Tenho um grande respeito por essa HQ porque ela aborda pontos importantes dos direitos sociais, tema muito próximo do meu objeto de estudo”, relata o professor.
Por fim, o depoimento de Ikaro reforça um dos principais legados do Colóquio Justiça em Quadrinhos: tornar o Direito mais acessível, conectado à realidade e aberto a diferentes públicos. “Essas iniciativas facilitam a compreensão da dinâmica jurídica porque aproximam o conhecimento do funcionamento dessas tramas. Isso desfaz a ideia de que esses campos são inalcançáveis para quem quer entender melhor, mas não possui um arcabouço prévio”, conclui.
Estude Direito na Unifor em 2026.2
Com egressos em cargos de alta relevância no Judiciário, Ministério Público, Defensoria e advocacia, o curso de Direito da Unifor é amplamente reconhecido no Ceará e no Nordeste. Também conta com nota máxima (5) no MEC, a graduação consolida-se como referência nacional em ensino jurídico.
Seu alto índice de aprovação na OAB e em concursos públicos reflete a qualidade da formação. A reputação institucional abre portas, mas é a combinação de técnica, empatia e visão crítica — cultivadas ao longo do curso — que diferencia os profissionais formados na Unifor.
Serviço
XI Colóquio Justiça em Quadrinhos: cidadania e conquistas profissionais na internacionalização de pessoas
Data: 22 e 23 de abril de 2026
Local: campus da Universidade de Fortaleza
Confira a programação completa aqui.
Esta notícia está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas, contribuindo para o ODS 4 – Educação de Qualidade e o ODS 16 – Paz, Justiça e Instituições Eficazes.
Ao unir direito e cultura pop, a Universidade de Fortaleza promove aprendizagem inovadora, pensamento crítico e formação cidadã, ao mesmo tempo em que amplia o acesso ao conhecimento jurídico e fortalece reflexões sobre justiça e cidadania.