Pesquisa Unifor: estudo inovador investiga regeneração cardíaca com modelo de zebrafish

seg, 5 janeiro 2026 17:40

Pesquisa Unifor: estudo inovador investiga regeneração cardíaca com modelo de zebrafish

Desenvolvida no laboratório LabZebra do Núcleo de Biologia Experimental da Unifor, o trabalho avalia a implementação e os primeiros resultados de um modelo de regeneração das células do coração


A mestranda Constance Almeida, o professor Josué Viana e a doutoranda Sacha Aubrey são os três pesquisadores responsáveis pelo estudo (Ilustração: Getty Images)
A mestranda Constance Almeida, o professor Josué Viana e a doutoranda Sacha Aubrey são os três pesquisadores responsáveis pelo estudo (Ilustração: Getty Images)

O Núcleo de Biologia Experimental (Nubex) da Universidade de Fortaleza, instituição vinculada à Fundação Edson Queiroz, está desenvolvendo um projeto de pesquisa sobre regeneração cardíaca com modelo de zebrafish. O modelo vem sendo aplicado progressivamente nos últimos anos em alguns centros científicos no mundo, porém ainda não de forma efetiva no Brasil. 

Desenvolvida no laboratório LabZebra do Nubex — vinculado à linha de estudos translacionais do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas (PPGCM) da Unifor —, a pesquisa tem o intuito de avaliar a implementação e os primeiros resultados de um modelo de regeneração das células do coração.

Josué Viana, docente do PPGCM e coordenador do projeto, explica que a idéia surgiu a partir de uma discussão com a coordenadora do LabZebra, Adriana Rolim, após retornar de uma experiência internacional como professor visitante na The University of Texas Health Science Center (UT Health), nos Estados Unidos.

Ele detalha que os modelos hoje desenvolvidos na pesquisa se concentram em duas linhas: uma por retirada dos cardiomiócitos (células musculares do coração) e outra por inativação/ablação celular (destruição ou inativação de células ou tecidos selecionados). Neste momento, a equipe utiliza o primeiro modelo. Em breve, o grupo pretende expandir as pesquisas para o segundo tipo.


“Ainda há muito a ser desvendado. No início, a hipótese era a de que as células tronco se tornariam as responsáveis pela geração de novos cardiomiócitos. Bancos de armazenamento celulares proliferaram mundo afora. Hoje, na direção oposta, os estudos apontam principalmente para as próprias células localizadas na superfície do coração, através de gatilhos moleculares e reativação de mecanismos genéticos induzidos pela lesão.”Josué Viana, coordenador do projeto e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas da Unifor 

A equipe responsável pelo trabalho é composta por Constance Almeida e Sacha Aubrey, mestranda e doutoranda do PPGCM, respectivamente, além de contar com a participação de Josué Viana, professor do PPGCM e orientador das alunas, e de Adriana Rolim, coordenadora de Pesquisa da Unifor.

Zebrafish e a inovação em regeneração cardíaca

Para alguns, diz Josué, é difícil imaginar que um pequeno peixe tropical de água doce, originário dos principais rios da Índia, iria revolucionar as pesquisas em vários campos da ciência. Da biologia celular e do desenvolvimento, passando por neurociências, biomedicina, medicina experimental, genética, morfologia e chegando à ciência cardiovascular.

O professor explica que isso ocorre justamente em virtude da semelhança celular e orgânica com os mamíferos, que permite “translacionar” os resultados encontrados nos modelos em zebrafish para o tratamento das doenças em humanos.

Constance Almeida, mestranda do PPGCM e pesquisadora responsável pelo projeto, relata que a regeneração cardíaca em zebrafish foi o projeto do seu mestrado. Para ela, investigar a incrível capacidade de regeneração cardíaca em modelo zebrafish permitiu entender mais sobre um dos temas mais fascinantes e promissores da medicina atual. Segundo a pesquisadora, desenvolver este projeto no Nubex foi uma experiência ímpar.


“Pude participar diretamente das etapas de indução e acompanhamento da intervenção e integrei uma equipe extremamente colaborativa. Esta vivência consolidou minha formação e reforçou meu compromisso com a ciência translacional produzida na Unifor. Realizar o meu mestrado com um tema de tanta relevância biomédica é motivo de grande orgulho e um impulso para continuar contribuindo com pesquisas que possam impactar positivamente a saúde das pessoas no futuro”Constance Almeida, mestranda do PPGCM da Unifor e pesquisadora responsável pelo projeto

A pesquisadora Sacha Aubrey, membro da equipe e doutora em Biotecnologia em Saúde, ressalta que a pesquisa de regeneração cardíaca em zebrafish representa um dos esforços científicos mais inovadores e promissores da Universidade. “O zebrafish possui uma habilidade única e fascinante: ele é capaz de regenerar completamente o tecido cardíaco após uma lesão, um processo impossível para mamíferos adultos, incluindo os seres humanos”, elucida.

Para ela, compreender esse fenômeno significa abrir uma porta concreta para o futuro da medicina regenerativa cardíaca, especialmente em um cenário global no qual as doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de mortalidade. 

Sacha relata que sua trajetória se conecta profundamente com essa pesquisa. Pesquisadora da Unifor há mais de uma década, a doutora trabalha há 11 anos com pesquisa científica e, desde 2016, passou a ser uma das pesquisadoras envolvidas no desenvolvimento e na consolidação do modelo zebrafish na Universidade de Fortaleza. 

Ao longo desses nove anos de experiência com o zebrafish, ela adquiriu expertise em manejo avançado, comportamento, farmacologia, análises moleculares e protocolos experimentais complexos. 

Paralelamente, construiu uma linha sólida de atuação em neurociência, dor e descoberta de novos fármacos, áreas que também participa na Unifor. Ela desenvolve modelos pré-clínicos para entender mecanismos neurobiológicos e testar moléculas com potencial terapêutico, incluindo compostos naturais, formulações nanotecnológicas e candidatos a novos analgésicos. 


“Toda essa experiência complementar fortalece meu olhar translacional e amplia minha capacidade de contribuir para projetos multidisciplinares de grande impacto, como a regeneração cardíaca”Sacha Aubrey, pesquisadora e doutora em biotecnologia em saúde

Impactos do estudo

Josué conta que o impacto social destas pesquisas é imensurável, e que, de fato, o cenário das doenças cardiovasculares, apesar de todos os avanços, ainda é preocupante. A nível global mundial, de acordo com o professor, estima-se que 130 milhões de pessoas sejam afetadas por doença arterial coronária e que, todo ano, cerca de 20 milhões de mortes sejam decorrentes de doenças cardiovasculares.

Ele relata que, no Brasil, cerca de 14 milhões de pessoas vivem com doenças do coração e que doenças do sistema cardiovascular são responsáveis por 30% das mortes. Somente na América do Norte, sete milhões vivem com insuficiência cardíaca e a metade destes morrem em cinco anos após o diagnóstico

“O transplante é uma opção de abrangência limitada para as doenças terminais do coração. A regeneração das células do coração pode, no futuro, se tornar uma promissora aliada no tratamento destes pacientes”, comenta.

Resultados e perspectivas

De acordo com Josué, o projeto explora a implementação do modelo com zebrafish nos laboratórios da Unifor. Os resultados alcançados são animadores e estão sendo analisados para serem submetidos à publicação. Outros estudos sucederão este primeiro, um importante passo dado pela equipe de pesquisa.

O docente ressalta que os resultados futuros destas pesquisas podem desvendar os mecanismos necessários para a regeneração das células dos corações humanos, e que isto poderá revolucionar o tratamento das doenças terminais do coração.

Além disso, Josué reforça que a Unifor, como de praxe, imprime padrão único de excelência em suas ações de ensino, de assistência e, mais recentemente, de pesquisa. O Nubex, junto a outros equipamentos do parque de pesquisas da Universidade, celebra mais de 10 anos de atuação, mirando no futuro e impulsionando a pesquisa no nordeste brasileiro.

 


Esta notícia está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), contribuindo para o alcance do ODS 3 – Saúde e Bem-Estar e do ODS 4 – Educação de Qualidade.

A Universidade de Fortaleza reforça, assim, seu compromisso com a promoção da saúde e do bem-estar em diferentes contextos (ODS 3), ao mesmo tempo em que fortalece uma educação inclusiva, equitativa e de excelência, ampliando oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos (ODS 4).