Pesquisa Unifor: pesquisadores criam software para auxiliar monitoramento de pacientes com úlcera venosa

ter, 30 junho 2026 16:35

Pesquisa Unifor: pesquisadores criam software para auxiliar monitoramento de pacientes com úlcera venosa

A ferramenta Ulcer-Care facilita o acompanhamento da evolução das lesões, organiza registros clínicos e fortalece a assistência prestada às pessoas afetadas pelo quadro de saúde


A pesquisa é um encontro entre a saúde digital e a enfermagem tecnológica, integração que traz benefícios diretos para os pacientes, os profissionais de saúde e a gestão dos serviços (Foto: Getty Images)
A pesquisa é um encontro entre a saúde digital e a enfermagem tecnológica, integração que traz benefícios diretos para os pacientes, os profissionais de saúde e a gestão dos serviços (Foto: Getty Images)

Em muitas instituições hospitalares, os registros das atividades realizadas por enfermeiros e demais profissionais de saúde ainda são feitos manualmente. Além de frequentemente apresentarem problemas de legibilidade, esses registros ficam dispersos em fichas e formulários físicos, dificultando a recuperação rápida de informações e o acompanhamento sistemático de pacientes com úlceras venosas (UV) e Úlceras Crônicas de Pernas (UCP).

Diante disso, a criação do Ulcer-Care traz uma transformação importante para esse cenário. O software é voltado ao monitoramento e à gestão do tratamento de pessoas com úlcera venosa, ajudando a sistematizar a assistência de enfermagem. Seu objetivo é padronizar os registros clínicos e facilitar o controle da evolução dos pacientes, contribuindo para uma tomada de decisão mais ágil e qualificada pelos profissionais de saúde.

O surgimento dessa alternativa se deu a partir de uma pesquisa elaborada por Silvéria Lopes Prado durante o Mestrado Profissional em Tecnologia e Inovação em Enfermagem (MPTIE) na Universidade de Fortaleza (Unifor), instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz. A tecnologia foi desenvolvida para monitorar o atendimento de pessoas com UCP desde a admissão clínica e recuperação da cicatrização até os fatores que geram a recaída da doença. 

Com 15 anos de experiência como enfermeira estomaterapeuta — especialidade exclusiva da enfermagem focada no cuidado de pessoas com estomias, feridas agudas ou crônicas e incontinência — em um ambulatório especializado, Silvéria observou um elevado número de pacientes com úlceras venosas de longa permanência, além de dificuldades de adesão ao tratamento e frequentes casos de recorrência após a cicatrização.

Essas observações motivaram os questionamentos “quais são os principais fatores que interferem no tratamento da úlcera venosa?” e “como esses fatores são monitorados e registrados durante o atendimento aos pacientes com úlcera venosa?”. A busca por essas respostas resultou no desenvolvimento do Ulcer-Care.


“Acredita-se que o conhecimento sobre a concepção e o desenvolvimento de um software para monitorar e gerenciar o cuidado das pessoas com Úlceras Crônicas de Perna, em foco as venosas, possa contribuir para organização e qualidade da assistência.”Silvéria Prado, enfermeira estomaterapeuta, preceptora da pós-graduação em Estomaterapia da UECE e UFC e egressa do MPTIE da Unifor

A pesquisa contou com docentes e discentes da Unifor e dos departamentos de Enfermagem da Universidade Regional do Cariri (URCA) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Os membros da equipe de pesquisadores são:

  • Silvéria Lopes Ponte Prado, autora (Unifor) ;
  • Rita Neuma Dantas Cavalcante de Abreu, orientadora (Unifor);
  • Thereza Maria Magalhães Moreira, coorientadora (Uece);
  • Karla Maria Carneiro Rolim, coorientadora (Unifor) ;
  • José Eurico Vasconcelos Filho, orientador  (Unifor);
  • Erick Tomé de Lima, colaborador (Unifor);
  • Luís Rafael Leite Sampaio, coorientador (URCA). 

Importância da pesquisa e impacto social

As Úlceras Crônicas de Pernas (UCP) são feridas de difícil cicatrização que podem ter diferentes causas, como insuficiência venosa, doenças arteriais e diabetes. Entre elas, destacam-se as úlceras venosas (UV), consideradas as mais frequentes e associadas à insuficiência venosa crônica.

Além de provocarem dor, desconforto e limitações na mobilidade, as UV podem comprometer significativamente a qualidade de vida dos pacientes. Embora apresentem cicatrização quando submetidas ao tratamento adequado, essas lesões possuem altas taxas de recorrência, uma vez que a insuficiência venosa crônica, condição que dá origem ao problema, permanece mesmo após o fechamento da ferida.

Diante desse cenário, o monitoramento contínuo dos pacientes torna-se fundamental para prevenir o reaparecimento das lesões e favorecer a adesão ao tratamento, nesse contexto, ferramentas tecnológicas podem auxiliar profissionais de saúde no acompanhamento clínico e na identificação de fatores que interferem na evolução da doença.

Por essa razão, o Ulcer-Care passa a desempenhar um papel fundamental na otimização do trabalho dos profissionais de saúde e do próprio sistema de saúde, facilitando o acesso ao histórico dos pacientes e agilizando a tomada de decisões.

Como funciona o Ulcer-care 

O sistema do Ulcer-Care foi pensado para funcionar como uma plataforma de acompanhamento dos pacientes com Úlceras Crônicas de Pernas (UCP), auxiliando o enfermeiro em todas as etapas do cuidado.

O profissional realiza a primeira consulta no sistema, registrando informações clínicas, características da úlcera e dados do paciente. A partir desses registros, a plataforma cria um “mapa cognitivo”, que reúne as informações essenciais sobre o quadro de saúde e o tratamento.


Os enfermeiros terão acesso à plataforma a partir do seu login do COREN e senha (Imagem: Reprodução/Revista de Enfermagem Referência)

Nas consultas de retorno, o sistema recupera automaticamente esse histórico e orienta a continuidade do atendimento. O enfermeiro precisa apenas atualizar informações como mudanças no comportamento do paciente, novos medicamentos, exames recentes e presença na consulta.

Quando uma úlcera cicatriza, mas volta a aparecer, o sistema identifica esse retorno da doença, solicita informações sobre os cuidados recomendados, como o uso da terapia compressiva, e reintegra o paciente ao acompanhamento. A ferramenta também foi pensada para:

  • emitir alertas quando identifica fatores que podem dificultar a cicatrização,
  • monitorar a evolução das feridas,
  • calcular e registrar as medidas das lesões,
  • gerar relatórios personalizados,
  • sugerir terapias tópicas e compressivas de acordo com as características da lesão.

Todos os dados ficam armazenados na plataforma, permitindo o acompanhamento contínuo do paciente e facilitando o planejamento do cuidado de enfermagem.

Desenvolvimento do software

O desenvolvimento da ferramenta foi fundamentado no Design Participativo, abordagem que envolve ativamente os usuários finais e uma equipe multidisciplinar em todas as etapas de criação do produto. Nesse modelo, profissionais de saúde, pesquisadores e desenvolvedores atuam como coautores do processo, colaborando para a construção de uma solução alinhada às necessidades reais da prática clínica.

Na época do desenvolvimento, as etapas de redesign e construção do protótipo aconteceram no Núcleo de Aplicação em Tecnologia da Informação (NATI), hoje Diretoria de Tecnologia (DTec), que dispôs de infraestrutura tecnológica, recursos de software e hardware, além da participação de pesquisadores e estudantes dos cursos de Ciência da Computação e Engenharia da Computação da Unifor.

Para avaliar a usabilidade do sistema, foi realizado inicialmente um teste-piloto com cinco estudantes vinculados ao então NATI. A avaliação contemplou oito questões relacionadas a:    

  • aspectos estratégicos da interface;
  • visualização da lista de pacientes, 
  • observações e alertas;
  • legibilidade dos textos;
  • facilidade de cadastro de pacientes;
  • organização de menus e ícones.

Após os ajustes decorrentes dessa etapa, o software foi submetido à avaliação de 12 enfermeiros estomaterapeutas, entre eles mestres e doutores, responsáveis por analisar de forma global a funcionalidade, navegabilidade e adequação da ferramenta às demandas da assistência especializada em feridas.

Após seu modelo final, o Ulcer-Care apresentou resultados positivos quanto à validade e usabilidade, demonstrando assim seu potencial para auxiliar estomaterapeutas e enfermeiros no monitoramento de pacientes com úlceras crônicas de pernas e úlceras venosas. 

Ciência de excelência 

O desenvolvimento do software também marcou a trajetória dos profissionais envolvidos, como é o caso de Erick Lima, bacharel em Ciência da Computação pela Unifor, que participou do projeto durante seu período de estágio no então Laboratório de Inovação e Integração da Unifor. 

Atuando no levantamento de requisitos e na construção do protótipo interativo, ele destaca que a experiência permitiu compreender, na prática, o impacto social da tecnologia.


“O projeto me trouxe uma melhor visão de como aquilo que eu estava desenvolvendo ia impactar positivamente alguém. É muito gratificante entender de perto essa sensação ainda durante o curso.” — Erick Lima, egresso do curso de Ciência da Computação da Unifor e membro da equipe de pesquisa

Para a pesquisadora Silvéria Lopes, idealizadora do sistema, o estudo também teve  impacto na sua atuação profissional. Segundo ela, a pesquisa “mudou totalmente a condução no cuidado aos portadores de úlceras de pernas” e “mostrou o caminho para cuidar com eficiência”. 

A expectativa é que os resultados obtidos contribuam para melhorar o cuidado às pessoas com úlceras de pernas, especialmente no fortalecimento da adesão à terapia compressiva, considerada fundamental para o tratamento.

Como perspectiva futura, é esperado que o Ulcer-Care passe por avaliações externas, podendo assim ampliar sua aplicação em diferentes serviços de saúde e fortalecer ainda mais seu uso na prática clínica. 

 


Esta notícia está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, contribuindo para o alcance do ODS 3 – Saúde e Bem-Estar e do ODS 4 – Educação de Qualidade e ODS 9 – Indústria, Inovação e Infraestrutura.

A Universidade de Fortaleza reafirma, assim, seu compromisso com a pesquisa e a extensão ao transformar o ecossistema acadêmico em um motor de soluções tecnológicas com benefício direto e humanizado para a população.


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