É seguro doar órgãos e tecidos em meio à pandemia de Covid-19?

sex, 18 setembro 2020 12:02

É seguro doar órgãos e tecidos em meio à pandemia de Covid-19?

Pesquisas cearenses levantam números relacionados às taxas de infecção e mortalidade de pacientes transplantados, com foco em medula óssea.


Números obtidos durante a pandemia revelam risco baixo de contaminação por transplantes (Imagem: Getty Images)
Números obtidos durante a pandemia revelam risco baixo de contaminação por transplantes (Imagem: Getty Images)

O “Setembro Verde” desperta a atenção de instituições em todo o país para as questões de doação de órgãos e tecidos, direitos das pessoas com deficiência e prevenção do câncer de intestino. A sensibilidade do primeiro tema abre espaço para muitas discussões, o que reafirma a importância de campanhas como a Doe de Coração, realizada pela Fundação Edson Queiroz. Entretanto, em meio à pandemia, dúvidas sobre o tema foram intensificadas; existe alguma relação entre a doação de órgãos e as possibilidades de se contrair Covid-19?

No intuito de coletar insumos que pudessem prover respostas a essa e outras perguntas, o Dr. Fernando Barroso, chefe de Hematologia e Transplante de Medula Óssea no Hospital Universitário Walter Cantídio e coordenador de processamento celular do Centro de Hematologia e Hemoterapia do Ceará (Hemoce), acaba de compartilhar duas pesquisas que partiram do estado do Ceará e contribuem de forma pertinente para o cenário acadêmico em torno do setor de transplantes.

A primeira pesquisa, realizada em maio, avaliou o impacto da pandemia no transplante de medula óssea e nos protocolos adotados no Brasil. Ela contou com a participação de 52 dos 86 centros qualificados no Brasil para doação de medula óssea  frente à pandemia do Covid-19, o que representa aproximadamente 85% de todos os transplantes de adultos e pediátricos realizados no país.

A partir de um questionário com 14 perguntas, publicado no site da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO), do qual Dr. Barroso é líder, foi possível constatar a baixa percentagem de infectados pelo novo coronavírus a partir da doação de medula, embora haja maior vulnerabilidade entre pacientes com doenças onco-hematológicas.

“A testagem foi algo muito importante e necessário para dar segurança aos pacientes e profissionais de saúde envolvidos no transplante”, afirma o médico, que ressalta que o cumprimento de todos os requisitos prévios de testagem do doador e do paciente para infecção por SARS-CoV-2 foi um fator que contribuiu para a obtenção dos números. Os dados são valiosos para o planejamento de medidas políticas e de saúde nos níveis regional e federal.

Desenvolvida a partir de junho, a segunda pesquisa possui amplitude local e considera os transplantes realizados no Hospital Walter Cantídio, tidos como os mais complexos da região Nordeste. Seu objetivo foi comparar a evolução dos pacientes transplantados infectados com Covid-19 a outros pacientes também infectados, mas não transplantados.

Foram observadas 77 pessoas, em que 17 eram pacientes receptores de órgãos ou tecidos sólidos e 3 eram receptores de medula óssea. A conclusão obtida revelou uma tendência inflamatória menor em pacientes transplantados, embora os números sejam desprezíveis em termos estatísticos e a taxa de mortalidade seja semelhante à de pessoas não transplantadas. Isso proporcionou aprendizados no manejo de doentes durante o tratamento.

“Eu acredito que se faz necessário um melhor conhecimento do potencial dessa doença causada pelo vírus, para que nós possamos conduzir melhor os pacientes que têm a necessidade de um transplante. Isso alinha de maneira diferente os paradigmas que tínhamos antes da pandemia”, declara Dr. Fernando Barroso. “Quando você se depara com algo assim, desconhecido, é preciso saber lidar para descobrir como continuar cuidando das pessoas. É necessário ter humildade, capacidade de estudo e observar o nosso redor para que possamos progredir. É assim que a ciência caminha, e sempre foi assim na história da humanidade”.

Campanha Doe de Coração 2020

A campanha Doe de Coração está na 18ª edição. Além de promover lives nas terças-feiras de setembro, o movimento vai distribuir ao longo do mês 5 mil blusas e máscaras entre alunos e professores da Universidade de Fortaleza, funcionários do grupo Edson Queiroz, profissionais da saúde e pacientes de hospitais públicos e privados parceiros.

As atividades educativas presenciais tiveram início no dia 12 de setembro, no shopping Iguatemi Fortaleza, com a instalação de um “selfiepoint” (espaço “instagramável” para fotos) e a disponibilização de informações sobre como ser doador de órgãos, de 16h às 21h. Os visitantes que postam fotos nas redes sociais com a marca da campanha, destacando três amigos, concorrem a blusas e máscaras. A ação acontece no Iguatemi até 20 de setembro. Em seguida, será realizada no shopping Rio Mar Fortaleza, entre 21 e 31 deste mês.

Também foi instalada uma estrutura de “selfiepoint” no hospital Instituto Doutor José Frota (IJF), com reforço na disponibilização de informações e sensibilização de famílias sobre a importância da doação de órgãos e tecidos para salvar vidas. A ação no IJF será realizada até 18 de setembro e depois segue para o Hospital Infantil Albert Sabin, com atividades entre os dias 21 e 30 deste mês.

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