Entrevista Nota 10: Leonardo Bernardi e o megaprojeto que une inovação construtiva com sustentabilidade ambiental

seg, 1 junho 2026 12:31

Entrevista Nota 10: Leonardo Bernardi e o megaprojeto que une inovação construtiva com sustentabilidade ambiental

Diretor técnico e comercial da BubbleDeck Brasil fala sobre a tecnologia dinamarquesa utilizada na construção do Complexo Cultural Yolanda e Edson Queiroz como promotora de sustentabilidade, além de comentar o impacto do contato dos alunos da Unifor com o canteiro de obras


Pós-graduado em Gestão Empresarial e em Estruturas de Concreto Armado, Leonardo é engenheiro civil com mais de 20 anos de experiência em obras de infra estrutura, residencial, comercial e industrial (Foto: Marjorie Zaranza)
Pós-graduado em Gestão Empresarial e em Estruturas de Concreto Armado, Leonardo é engenheiro civil com mais de 20 anos de experiência em obras de infra estrutura, residencial, comercial e industrial (Foto: Marjorie Zaranza)

Quando a arte se junta à tecnologia para criar um projeto grandioso e criativo, a inovação inteligente vira protagonista na construção de um futuro cada vez mais sustentável. É possível testemunhar esse cenário transformador nas obras do Complexo Cultural Yolanda e Edson Queiroz, onde a estética e a responsabilidade ambiental andam de mãos dadas com as soluções arquitetônicas e de engenharia.

Voltado à arte, à cultura e à memória, o espaço vem sendo erguido com tecnologias que reduzem impactos ambientais e estimulam novas formas de pensar o futuro das cidades e das instituições. O uso do método BubbleDeck, um sistema construtivo inovador que utiliza esferas plásticas recicladas no interior da laje de concreto, se consolida como exemplo dessa conexão entre eficiência, sustentabilidade, funcionalidade e beleza.

Dessa forma, o Complexo se torna não apenas um espaço para exposições e espetáculos, mas também um símbolo de compromisso com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Para o engenheiro civil Leonardo Kleiner Bernardi, diretor técnico e comercial na Bubbledeck Brasil, a tecnologia dinamarquesa que vem sendo usada na obra contribui fortemente para que esses objetivos sejam concretamente atingidos.

“Esse projeto é um sucesso não apenas para a Universidade de Fortaleza e a BubbleDeck Brasil, mas para o setor [da construção civil] como um todo, pois estamos liderando pelo exemplo na construção de uma forma mais inteligente, mais verde e mais rápida, demonstrando que a inteligência em construir deve ir além dos desenhos e das simulações”, declara.

Leonardo possui mais de 20 anos de experiência em obras de infra estrutura, residencial, comercial e industrial, atuando diretamente na execução como na gestão de contratos. Possui MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e é pós-graduado em Estruturas de Concreto Armado pela Unifor.

Na Entrevista Nota 10 desta semana, ele fala sobre a tecnologia dinamarquesa utilizada na construção do Complexo Cultural Yolanda e Edson Queiroz como promotora de sustentabilidade, além de comentar o impacto do contato dos alunos da Unifor com o canteiro de obras na formação profissional em Engenharia Civil.

Confira a entrevista na íntegra a seguir.

Entrevista Nota 10 — O Complexo Cultural Yolanda e Edson Queiroz surge para fortalecer a arte e a memória cultural, assim como trazer inovação. Como aconteceu a entrada da BubbleDeck Brasil nesse projeto e qual foi o maior desafio de conciliar as exigências de uma obra monumental com a necessidade de reduzir o impacto ambiental?

Leonardo Bernardi — Podemos dizer que a entrada da BubbleDeck Brasil nesse icônico projeto aconteceu de forma natural: de um lado, você tinha uma equipe de profissionais altamente capacitados, verdadeiramente inspirados e comprometidos a construir de forma mais inteligente e realmente sustentável; do outro, uma tecnologia construtiva inovadora, otimizada e que realmente proporcionaria uma significativa construção otimizada, com redução de materiais, equipamentos e impactos negativos ao meio ambiente. 

Na entrada de nossa fábrica, temos um exemplo dos ganhos de sustentabilidade que a tecnologia trouxe para o empreendimento, quando comparado com uma laje de mesma característica estrutural dentro do sistema convencional. O painel mostra os seguintes dados:

  • 540 toneladas de plástico retirado do meio ambiente
  • Redução de 6.582 toneladas de CO2  
  • Preservação de 1.488 árvores
  • Economia de 61.329GJ de energia

Bastou um encontro entre as partes para que se transformasse em um momento inspirador, com intensa troca de insights entre profissionais que compartilhavam a mesma visão de redefinir os padrões de velocidade, qualidade e estética do setor.

Restando, então, o desafio de colocarmos em prática nosso planejamento de alcançar ganhos significativos de produtividade, adotando abordagens inteligentes durante a produção das peças e construção do empreendimento por meio de: escalonamento, pré-fabricação e metodologia de construção industrializada; coordenação digital em tempo real para sequenciamento, logística e gerenciamento de interfaces; mecanização e automação para reduzir a dependência de mão de obra; e fortalecimento do ecossistema e da prontidão para a cadeia de suprimentos.  É aí que os métodos modernos de construção realmente entregam valor.

Entrevista Nota 10 — A construção sustentável do Complexo ganha uma “dimensão artística”, fortalecendo a conexão com o propósito fundamental do prédio. Na sua visão, de que forma a engenharia estrutural dialogou com a arquitetura para garantir que a estética da obra não fosse comprometida, mas sim potencializada? Qual a importância de trazer a sustentabilidade para o centro desse projeto?

Leonardo Bernardi — Inicialmente, é importante ressaltar a beleza do projeto como um todo e a complexidade do design arquitetônico, bem como seu louvável propósito fundamental. E, à medida você que tem esse contexto — que demandaria uma estrutura com espaços mais abertos, flexíveis e que gerassem uma experiência de conforto e agradabilidade, “dialogando com a arquitetura” —, nada melhor do que pensar em uma tecnologia construtiva que possibilitasse a união de grandes vãos e lajes planas, sem vigas, proporcionando ambientes mais fáceis de organizar e decorar de acordo com diferentes necessidades do espaço, deixando-o mais prático e confortável para o uso diário do empreendimento.

E a utilização de sistemas construtivos mais eficazes e sustentáveis, que trazem benefícios ao meio ambiente ao otimizar o uso de recursos naturais, deixou de ser uma tendência e passou a ser o único caminho a se seguir para alcançarmos um futuro melhor para as próximas gerações.

Este projeto é um sucesso não apenas para a Unifor e a BubbleDeck Brasil, mas para o setor [da construção civil] como um todo, pois estamos liderando pelo exemplo na construção de forma mais inteligente, mais verde e mais rápida, demonstrando que a inteligência em construir deve ir além dos desenhos e simulações.

Entrevista Nota 10 — O grande diferencial do sistema BubbleDeck é a substituição de parte do concreto por esferas plásticas recicláveis. Para quem não é da área da engenharia, como isso funciona na prática sem comprometer a segurança e a estabilidade de um edifício que receberá milhares de pessoas? Quais os ganhos ambientais do uso dessa tecnologia na obra?

Leonardo Bernardi — O sistema BubbleDeck apresenta o comportamento de laje maciça plana, muito já utilizado mundialmente a vários anos. O inventor, de origem dinamarquesa, fez uma coisa simples e eficiente, que foi a introdução de esferas plásticas na zona neutra da laje.

No momento de uso destas lajes, ou seja, quando estão em trabalho, as faces superiores e inferiores são acionadas, gerando zonas de momentos negativos e positivos. Dentro do núcleo central há uma zona de acionamento, a qual chamamos de zona neutra.

A grande sacada do inventor foi introduzir as esferas plásticas nesse local para remover o concreto que não desempenha função estrutural. Nada mais como é realizado em outros sistemas de lajes para buscar o mesmo fim: redução do peso próprio ou peso “morto”.

Deste modo, a estrutura ganha leveza, reduzindo um peso adicional que estaria indo descarregar nas fundações. E o elemento esférico faz com que se crie pequenos arcos internos dentro da laje, ganhando eficiência no caminhamento das tensões. É o mesmo princípio dos arcos romanos utilizados em pontes e construções há milhares de anos.

Os ganhos ambientais diretos seriam a utilização de 100% de plástico reciclado nas esferas, ou seja, removendo da natureza e dando um destino correto onde elas ficarão dentro da laje até o fim do edifício. O outro ganho diretamente ligado a utilização das peças pré-moldadas é a não utilização de madeira na obra, evitando assim o corte de muitas árvores. Os ganhos indiretos são aqueles que mencionei na primeira questão.

Entrevista Nota 10 — Um espaço cultural construído com práticas sustentáveis comunica uma mensagem muito forte para a sociedade. Na sua visão, como a tecnologia da Bubbledeck ajuda instituições, como a Fundação Edson Queiroz, a atingirem concretamente os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU em suas infraestruturas?

Leonardo Bernardi — Considerando que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU estão divididos em cinco eixos principais relacionados a pessoas, planeta, prosperidade, paz e parcerias, entendemos que a tecnologia BubbleDeck contribui fortemente para que esses objetivos sejam concretamente atingidos. Isso porque, neste projeto, foi possível demonstrar que esses princípios foram adotados, de forma responsável e trabalhando consistentemente no sentido da excelência da melhoria do ambiente para os colaboradores, da qualidade e, por último mas não menos importante, da otimização de recursos naturais. Alcançando, dessa forma, uma mudança na forma de construir e obtendo dela excelentes resultados e uma melhor adequação aos desafios atuais da atividade

Entrevista Nota 10  — As obras do Complexo também se tornaram um laboratório de aprendizagem para os alunos da Universidade de Fortaleza, especialmente os de Engenharia Civil. Como essa participação transforma tanto a construção em si quanto a aprendizagem desses estudantes? Conta um pouco como acontece essa ponte entre o canteiro de obras e a sala de aula.

Leonardo Bernardi — Entendemos que a escolha pelo uso da tecnologia BubbleDeck no Complexo Cultural foi de grande valia para os alunos de Engenharia Civil, uma vez que possibilitou uma visualização diferenciada da maneira de se construir, ao contrário do que usualmente eles observam nos canteiros de obra da cidade. Semanalmente, recebemos visitas guiadas dos alunos e funcionários da Unifor, podendo explicar a metodologia de construção e aplicação do nosso sistema.

Vimos com bons olhos a iniciativa dos gestores da Unifor em mostrar a sua comunidade acadêmica o que estava acontecendo dentro do campus estudantil e no que seria transformado.

Entrevista Nota 10  — Por que trazer esses futuros profissionais para perto das práticas de mercado e das novas tecnologias sustentáveis durante as obras do Complexo? Como você enxerga o impacto disso na formação desses estudantes e na transformação da engenharia civil, especialmente quando pensamos no desenvolvimento de um perfil de liderança conectado às demandas atuais e futuras?

Leonardo Bernardi — Os estágios e visitas a novas tecnologias, tendências e demais eventos que possam mostrar as transformações dos setores produtivos, é fundamental para que o estudante possa sair da vida acadêmica mais preparado e atualizado ao mercado de trabalho em que está iniciando.

Posso ver bem o engajamento da Unifor neste sentido, começando até mesmo antes do ingresso dos alunos na universidade, buscando abrir horizontes e eliminar dúvidas na escolha do curso durante a Feira de Profissões.

Quando entrei no mercado de trabalho, pude observar algo que não vi durante a faculdade. Dentro da estrutura organizacional de uma construtora podemos dizer que um canteiro de obra funciona como uma “filial” da matriz, onde esta obra terá que gerenciar os recursos humanos, as aquisições de materiais e as receitas, tendo tudo isso que estar equilibrado com o orçamento recebido.

Deste modo, a formação do engenheiro civil, além de técnico para discussões de projeto e da boa prática de execução, deve ter a função de liderança no organograma da obra, visando, assim, o cumprimento das metas estabelecidas.

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