Entrevista Nota 10: Petrúcia Pinheiro e a ciência que transforma vidas no transplante renal

seg, 19 janeiro 2026 11:38

Entrevista Nota 10: Petrúcia Pinheiro e a ciência que transforma vidas no transplante renal

Presidente do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento de Programas de Transplantes (IPDT) fala sobre a área de transplantes renais no Brasil, o livro “O que você precisa saber sobre transplante renal” e a sua experiência no doutorado em Saúde Coletiva na Unifor


Cofundadora do IPDT, Petrúcia é mestre em Ciências Médico-Cirúrgicas e especialista em Regulação em Saúde no SUS (Foto: Ares Soares)
Cofundadora do IPDT, Petrúcia é mestre em Ciências Médico-Cirúrgicas e especialista em Regulação em Saúde no SUS (Foto: Ares Soares)

No Brasil, o transplante de rim é a cirurgia de transplante de órgãos mais realizada, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Em 2025, só no Estado do Ceará, foram registrados 264 procedimentos. O avanço da medicina e das tecnologias em saúde cumprem um papel expressivo nesses números, mas a importância do investimento no âmbito da conscientização e da divulgação sobre o tema também se faz essencial.

“O transplante renal é uma realidade que tem ficado cada vez mais próxima das famílias brasileiras, seja pela necessidade de um transplante em um de seus membros, seja pela abordagem em relação à doação de órgãos. Assim, é importante que a sociedade entenda como se dá o processo doação-transplante”, explica a médica cirurgiã Petrúcia Pinheiro, cofundadora e presidente do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento de Programas de Transplantes (IPDT).

Pensando nisso, ela e o médico Geraldo Bezerra — docente dos Programas de Pós-Graduação em Ciências Médicas e em Saúde Coletiva da Universidade de Fortaleza, instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz — escreveram o livro “O que você precisa saber sobre transplante renal”.

Lançado em 2025 pela editora do Instituto Federal do Ceará (IFCE), onde ambos os autores atuam como médicos peritos, a obra está disponível gratuitamente para download aqui. Seu objetivo é disseminar conhecimentos sobre o transplante de rins, conscientizar a população a respeito da doença renal e da importância da atividade transplantadora para a sociedade, além de incentivar a doação de órgãos.

Pós-graduada em Ciências da Reabilitação – Medicina/Cirurgia Torácica pelo Hospital SARAH de Brasília, Petrúcia é mestre em Ciências Médico-Cirúrgicas pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e especialista em Regulação em Saúde no SUS pelo Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa. Atualmente, é doutoranda em Saúde Coletiva na Pós-Unifor.

Ela realizou residências médicas em Cirurgia Geral, Videolaparoscopia e Transplante Renal, todas no Hospital Geral de Fortaleza, onde hoje é médica cirurgiã do Setor de Transplantes de Órgãos. Desde 2016, trabalha como médica reguladora da Unimed Urgente, na qual também é membro da Comissão de Ética Médica.

Na Entrevista Nota 10 desta semana, Petrúcia fala sobre a área de transplantes renais no Brasil, o livro “O que você precisa saber sobre transplante renal” e a sua experiência no doutorado em Saúde Coletiva na Unifor.

Confira na íntegra a seguir.

Entrevista Nota 10 — Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), o transplante de rim é a cirurgia de transplante de órgãos mais realizada no Brasil. O que esse dado revela sobre a saúde pública do país? De que maneira o investimento em políticas públicas e em pesquisa científica impacta todo o processo de transplante renal, desde a fila de espera até o acompanhamento do paciente?

Petrúcia Pinheiro — Realmente, o rim é o órgão sólido mais transplantado no Brasil, o que revela, de um lado, a elevada prevalência da doença renal crônica no país, frequentemente associada a condições como hipertensão e diabetes mellitus, que configuram importantes desafios para a saúde pública. Por outro lado, o elevado número de transplantes renais realizados no Brasil evidencia a existência de uma política nacional de transplantes bem estruturada, com destaque para o papel do Sistema Único de Saúde (SUS), responsável pela maior parte desses procedimentos e pelo financiamento integral do tratamento, inclusive da terapia imunossupressora.

Nesse contexto, o investimento em políticas públicas e em pesquisa científica impacta de forma decisiva todo o processo do transplante renal. Políticas voltadas à prevenção e ao diagnóstico precoce da doença renal contribuem para reduzir a progressão dos casos e qualificar o encaminhamento dos pacientes à fila de espera, tornando-a mais justa e eficiente.

Paralelamente, investimentos em pesquisa aprimoram critérios de alocação de órgãos, técnicas cirúrgicas, métodos de preservação e melhor aproveitamento de órgãos, além de favorecerem melhores protocolos de imunossupressão para evitar a rejeição do órgão transplantado. Esses avanços refletem-se diretamente nos resultados pós-transplante, com maior sobrevida, menor incidência de complicações e melhor qualidade de vida.

Assim, o fato do Brasil realizar um número expressivo de transplantes renais não apenas expõe um problema estrutural de saúde pública, que se reflete no número crescente de pessoas com doença renal crônica, mas também evidencia a consolidação do Sistema Nacional de Transplantes, que garante o melhor tratamento do estágio final da insuficiência renal crônica, por meio do transplante renal, que é realizado no Brasil de modo efetivo e equitativo.

Entrevista Nota 10 — Quais são os principais avanços da medicina e da tecnologia que têm transformado a área de transplante renal, especialmente quando falamos sobre a qualidade de vida do paciente transplantado? O que podemos esperar de inovações para os próximos anos nessa área?

Petrúcia Pinheiro — Os avanços da medicina têm promovido transformações significativas no transplante renal, especialmente no que se refere à sobrevida do enxerto e à qualidade de vida do paciente transplantado. Entre os principais progressos, destacam-se o aprimoramento das técnicas cirúrgicas, que se tornaram menos invasivas e mais seguras, reduzindo complicações perioperatórias e o tempo de internação. Soma-se a isso a evolução dos esquemas de imunossupressão, com medicamentos mais específicos e eficazes, capazes de diminuir as taxas de rejeição aguda e, ao mesmo tempo, reduzir efeitos colaterais que impactavam negativamente o cotidiano do paciente, como infecções recorrentes e alterações metabólicas.

Outro avanço muito relevante está relacionado às tecnologias de preservação e avaliação de órgãos, como a perfusão hipotérmica de rins provenientes de doadores falecidos, que contribui para melhor qualidade do enxerto, menor incidência de disfunção inicial e, consequentemente, melhores desfechos clínicos a médio e longo prazo. Minha pesquisa de doutorado na Unifor é exatamente sobre isso, sobre o uso de máquinas de perfusão na preservação de rins para transplante. 

Além disso, o uso crescente de exames moleculares, biomarcadores e métodos de monitoramento mais precisos permite a detecção precoce de rejeição e a individualização do tratamento, favorecendo um acompanhamento mais seguro e menos invasivo. 

A incorporação da telemedicina também tem ampliado o acesso ao acompanhamento pós-transplante, facilitando a adesão terapêutica e reduzindo deslocamentos, o que se traduz em maior autonomia e bem-estar para o paciente transplantado.

Na minha opinião, para os próximos anos, espera-se a consolidação de inovações ainda mais impactantes, como a medicina personalizada baseada em dados genômicos e em inteligência artificial, capazes de prever riscos, ajustar esquemas imunossupressores e otimizar a alocação de órgãos. Avanços em bioengenharia, incluindo o desenvolvimento de órgãos bioartificiais e terapias celulares, despontam como perspectivas promissoras para mitigar a escassez de órgãos e reduzir a dependência de imunossupressão crônica. Nesse cenário, a integração entre ciência, tecnologia e políticas públicas tende a não apenas ampliar o acesso ao transplante renal, mas também a promover uma vida mais longa, ativa e saudável para os pacientes transplantados.

Entrevista Nota 10 — Você é cofundadora e presidente do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento de Programas de Transplantes (IPDT). Por que criar um instituto dedicado a pacientes crônicos e transplantados? Quais são as frentes de atuação do instituto hoje e que tipo de impacto vocês conseguem medir na vida desse público?

Petrúcia Pinheiro — O IPDT é uma Organização da Sociedade Civil, cuja importância reside, sobretudo, em sua capacidade de atuar como ponte entre o indivíduo, o sistema de saúde e a formulação de políticas públicas. Dessa forma, desempenha um importante papel na defesa de direitos, na disseminação de informações qualificadas e no fortalecimento do protagonismo do paciente, contribuindo para que o cuidado em saúde ultrapasse o âmbito estritamente clínico e incorpore dimensões sociais, psicológicas e educacionais.

O IPDT busca promover um apoio aos pacientes e seus familiares, auxiliando na adesão ao tratamento, no enfrentamento das limitações impostas pela doença crônica e na redução do estigma social frequentemente associado ao transplante e à insuficiência orgânica. Um de seus objetivos é oferecer um espaço de acolhimento, educação em saúde e orientação sobre acesso a serviços, medicamentos e benefícios legais, contribuindo para melhores desfechos clínicos e para a melhoria da qualidade de vida.

No plano coletivo, o IPDT tem o potencial estratégico de promover articulações com o poder público, universidades e serviços de saúde, colaborando para a construção, o monitoramento e o aprimoramento de políticas públicas baseadas em evidências. Também estimula e apoia a pesquisa científica, a inovação e a formação de redes de cooperação, ampliando a visibilidade das necessidades dos pacientes crônicos e transplantados.

Nesse viés, o IPDT tem atuado como um facilitador na aquisição de equipamentos para o setor de transplantes do Hospital Geral de Fortaleza, por exemplo. Outra iniciativa de destaque do IPDT foi oferecer um curso de especialização em transplantes para profissionais da área da saúde em parceria com a Universidade Estadual do Ceará (UECE), que evoluiu e hoje constitui um curso de mestrado profissionalizante naquela instituição de ensino.

Dessa forma, o IPDT não apenas contribui com a atuação do poder público, mas fortalece a cidadania, a equidade e a sustentabilidade dos programas de transplantes e de atenção às doenças crônicas.

Entrevista Nota 10 — Em 2025, você lançou o livro “O que você precisa saber sobre transplante renal” durante o XIX Congresso Brasileiro de Transplantes, em Fortaleza. Qual foi a importância de lançar a obra nesse ambiente — pensando em alcance, credibilidade e diálogo com a comunidade? Que retornos dos participantes você recebeu ali e que tipo de debate o livro ajudou a puxar?

Petrúcia Pinheiro — O lançamento do livro durante o congresso da ABTO na minha cidade, Fortaleza, foi muito propício, e, de fato, conferiu muita credibilidade e alcance à obra. O retorno que recebi dos congressistas foi muito positivo; muitos estudantes e profissionais da saúde comentaram que havia mesmo a necessidade de uma obra em língua portuguesa que reunisse, de forma didática, o que já se tem cientificamente bem estabelecido no âmbito do transplante renal, no contexto brasileiro.

Mas o livro não foi escrito especificamente para estudantes ou profissionais da saúde; na verdade, pacientes e familiares podem se beneficiar com a leitura do livro para compreender melhor o transplante renal. O transplante renal é uma realidade que tem ficado cada vez mais próxima das famílias brasileiras, seja pela necessidade de um transplante em um de seus membros, seja pela abordagem em relação à doação de órgãos. Assim, é importante que a sociedade entenda como se dá o processo doação-transplante. 

O livro “O que você precisa saber sobre transplante renal”, na versão e-book, está disponível gratuitamente no site da EDIFCE, editora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE).

Entrevista Nota 10 — A obra “O que você precisa saber sobre transplante renal” foi escrita em parceria com o médico Geraldo Bezerra, professor dos programas de pós-graduação em Saúde Coletiva e em Ciências Médicas da Unifor. Como surgiu a colaboração entre vocês? De que forma a junção entre transplante e saúde coletiva impulsionou a realização desse projeto?

Petrúcia Pinheiro — O Dr. Geraldo Bezerra é meu orientador no Doutorado em Saúde Coletiva da Unifor. Quando surgiu um edital da EDIFCE para a publicação de obras em “Ciências da Vida”, tive a ideia de escrever sobre transplante renal, reunindo meus conhecimentos de mais de 20 anos de atuação como médica transplantadora. Assim, busquei a ajuda do Dr. Geraldo, que prontamente se entusiasmou com a proposta e se tornou coautor da obra, contribuindo com sua expertise de escritor, pesquisador e professor, além de médico nefrologista.

O transplante renal constitui muito mais que um procedimento cirúrgico de alta complexidade, pois envolve a doação de órgão humano, situação em que há importantes questões éticas, além de estritas diretrizes de políticas de saúde. Então, o livro aborda essas dimensões inerentes à saúde coletiva, que vão além dos aspectos técnicos e científicos do procedimento cirúrgico.

Entrevista Nota 10 — Hoje como aluna do doutorado em Saúde Coletiva da Unifor, você segue desenvolvendo estudos na área de transplante renal? Poderia contar por que escolheu a Universidade de Fortaleza para sua pós-graduação e como tem sido a experiência?

Petrúcia Pinheiro — Participo de várias pesquisas no âmbito do transplante renal, inclusive de estudos multicêntricos e internacionais. Esse foi exatamente um dos motivos pelos quais escolhi a Unifor para o curso de doutorado: a facilidade de intercâmbio com outros centros universitários de excelência.

Durante o curso, tive a oportunidade de visitar, como estudante de pós-graduação, o serviço de transplante renal de Rouen, na França, e compreender as políticas de saúde envolvendo a captação e a preservação de rins para transplante em máquinas de perfusão. Traçar um paralelo entre o modelo francês e o brasileiro foi importante para ampliar meus horizontes, fomentar questionamentos e possibilitar propostas de melhorias para o Sistema Nacional de Transplantes no Brasil.