Entrevista Nota 10: Wilson Sabóia e a trajetória multicampeã à frente da seleção brasileira feminina de futsal

seg, 5 janeiro 2026 18:21

Entrevista Nota 10: Wilson Sabóia e a trajetória multicampeã à frente da seleção brasileira feminina de futsal

Egresso e professor do curso de Educação Física da Unifor comanda a Amarelinha há dez anos e ampliou sua galeria de títulos ao conquistar a edição inaugural da Copa do Mundo Fifa da modalidade


Wilson Sabóia tem retrospecto irretocável no comando da seleção brasileira, com 72 vitórias, dois empates, uma derrota e dez taças (Foto: Fabio Souza / CBF)
Wilson Sabóia tem retrospecto irretocável no comando da seleção brasileira, com 72 vitórias, dois empates, uma derrota e dez taças (Foto: Fabio Souza / CBF)

Dez anos de uma trajetória marcada por medalhas no peito e troféus erguidos como treinador da seleção brasileira feminina de futsal. Era setembro de 2015 quando Wilson Sabóia foi convidado pela Confederação Brasileira de Futsal (CBFS) para assumir a Amarelinha. O técnico aceitou e, apesar de entusiasmado com a oportunidade, não imaginava que o trabalho seria tão longevo e o faria ser reverenciado em todo o mundo.

A história de Wilson com a seleção brasileira tem relação direta com a Universidade de Fortaleza (Unifor), instituição de ensino vinculada à Fundação Edson Queiroz. Ele é professor do curso de Educação Física desde 2002, ano em que também passou a atuar como treinador da equipe feminina de futsal da própria universidade — e foram os títulos estaduais e nacionais, assim como a capacidade de unir ciência e esporte, que atraíram o interesse da CBFS.

Sob o comando de Wilson, o Brasil possui retrospecto irretocável: 72 vitórias, dois empates, uma derrota e dez títulos. Entre tantas glórias, a mais marcante ocorreu há cerca de um mês, em 7 de dezembro, com a vitória por 3 a 0 sobre Portugal na decisão da primeira Copa do Mundo de Feminina de Futsal da Fifa, disputada nas Filipinas. 

O Brasil encerrou a edição inaugural do Mundial Fifa da modalidade com 100% de aproveitamento nos seis jogos disputados — ao todo, foram 32 gols marcados e quatro sofridos. Uma campanha para colocar Wilson Sabóia como favorito a ser eleito melhor técnico de seleção feminina do mundo pelo terceiro ano consecutivo no prêmio Futsal Planet Awards.

Depois de quase um mês do título, o comandante da Amarelinha ainda celebra, mas já colocou o novo objetivo principal no horizonte: o bicampeonato na Copa do Mundo 2029. Para alcançar o feito novamente, o planejamento visando a temporada 2026 foi traçado antes mesmo da virada do ano. “Teremos de seis a sete convocações nas Datas Fifa deste ano, e a ideia é dar oportunidade a atletas que ainda não representaram o Brasil”, conta.

Na área educacional, ele tem construído uma trajetória tão brilhante quanto no futsal. Graduado em Educação Física pela Unifor, é mestre e doutor em Educação pela Universidade Estadual do Ceará (Uece) e mestre em Educação e Gestão Desportiva pela Universidad SEK, no Chile. Além da Unifor, o educador leciona em escolas. O professor, aliás, uniu as duas paixões — educação e esporte — no livro "Metodologia do ensino do futsal".

Nesta Entrevista Nota 10, Wilson Sabóia fala sobre o trabalho da comissão técnica para afastar o rótulo de favorito da equipe durante o Mundial, a importância do título para a massificação do futsal feminino e o papel do esporte para formação cidadã.

Confira a entrevista na íntegra a seguir.

Entrevista Nota 10 — Por conta do retrospecto de títulos e da liderança no ranking da Fifa, o Brasil iniciou a Copa com a responsabilidade de ser o principal candidato ao título. O que foi conversado internamente para evitar que o favoritismo pudesse afetar a mente da equipe?

Wilson Sabóia — Sabíamos que o Brasil chegava como favorito, mas deixamos claro que não era só a nossa equipe. Tinha Espanha, Portugal, Japão, Itália, Argentina, seleções muito fortes, e isso foi bastante conversado internamente.

Desde o início, entendemos que a Copa teria um peso grande no emocional. Então o trabalho foi tentar tirar a responsabilidade das atletas, para que elas jogassem mais leves, se divertindo, colocando em quadra a dinâmica e o DNA brasileiro, sem a obrigação de ser campeã.

O foco era pensar jogo a jogo. Elas conseguiram controlar bem o racional e o emocional, e a confiança foi aumentando ao longo da competição. Foram 52 dias de treinamento até a final, no dia 7 de dezembro, e todo esse processo acabou resultando em êxito.

Entrevista Nota 10 — Após o apito final no duelo contra Portugal, a transmissão oficial capturou a sua reação — e você parecia extasiado. O que pensou naquele momento?

Wilson Sabóia — Só após o apito final caiu a ficha. Muitas coisas vieram à mente ao mesmo tempo: minha família, tudo o que me levou até ali, o caminho percorrido até a conquista do título mundial e a reflexão sobre merecer essa condição de primeiro campeão mundial Fifa.

Também lembrei de todos os meus alunos, desde a escola até a Unifor. Um título dessa magnitude não se conquista sozinho. Ele resulta do apoio de pessoas que acreditam no trabalho, dos gestores e de diversos outros fatores.

Foi um momento de muita emoção. Deus nos concedeu esse título, mas, ao mesmo tempo, o pensamento já se voltou para o futuro. Agora é seguir trabalhando, pois o próximo objetivo já está definido: buscar o bicampeonato em 2029.

Entrevista Nota 10 — Como se sente ao revisitar sua trajetória e saber que inspira treinadores por todo o mundo?

Wilson Sabóia — Fui considerado, em 2023 e 2024, o melhor técnico de seleções do mundo e, agora, tive a oportunidade de conquistar o título mundial pelo Brasil. Isso me deixa muito feliz, sobretudo pela confiança das pessoas no meu trabalho e no que venho construindo ao longo do tempo.

Para mim, porém, o mais importante é a relação com as atletas. Elas confiam no nosso trabalho, assim como a comissão técnica. A gestão do futsal no Brasil, realizada pela CBF, organiza a modalidade com qualidade e oferece o apoio necessário para o desenvolvimento das atividades.

Nossa comissão tem a ciência como base. Como profissionais de educação física e técnicos, esse aspecto é indispensável. Atuamos com conteúdos inovadores, metodologias ativas e com o propósito de capacitar outros professores, permitindo que cada um, em sua área, desenvolva um trabalho de qualidade para a sociedade.

Entrevista Nota 10 — O quão desafiador é conciliar as atribuições de treinador e professor? E quais são os ensinamentos do Wilson treinador para o Wilson professor e vice-versa?

Wilson Sabóia — É desafiador, sim. Eu costumo dizer que quero ser considerado primeiro um excelente educador e, depois, um bom técnico. Trabalhando tanto na seleção nacional quanto na Unifor, eu tento passar para todos a importância de mergulhar na ciência, nos saberes científicos, para projetar novas metodologias de ensino.

Aqui na Universidade de Fortaleza, o corpo docente trabalha muito com o que chamamos de metodologias ativas. O diálogo e a reflexão entre professores e discentes, técnicos e atletas são ampliados a partir de um refino científico, buscando novas formas de ensinar, não só o esporte, mas para a vida.

É um desafio grande, mas muito gratificante, porque traz resultado. O maior legado é quando as pessoas me encontram na rua e me reconhecem como uma pessoa do bem. É isso que eu procuro levar para a sala de aula, seja teórica ou prática, formando profissionais para servir a sociedade.

Entrevista Nota 10 — Graças ao título, é um momento de ouro para ampliar a prática do futsal feminino. Como avalia o atual cenário e quais ações podem ser adotadas por órgãos e entidades esportivas a fim de popularizar a modalidade?

Wilson Sabóia — Esse título mundial foi muito importante porque permite motivar novos projetos de futsal feminino. A conquista dá visibilidade e força para que mais pessoas acreditem na modalidade. O futsal feminino ainda precisa ser muito mais trabalhado no Brasil.

Esse trabalho precisa começar desde cedo, nas escolas, passando pelos clubes e chegando às universidades. Quanto mais a gente massificar o futsal feminino, mais oportunidades vão surgir. É dessa base que nasce o crescimento da modalidade e a ampliação do número de praticantes.

Com essa massificação, será possível atrair gestores dispostos a investir no futsal feminino. Também é fundamental capacitar mais professores para trabalhar especificamente com o gênero feminino, desde a base até o alto rendimento, pensando sempre na formação integral da atleta, dentro e fora da quadra.

A evolução passa muito pela qualificação dos profissionais de educação física. A conquista foi importante, mas o trabalho precisa continuar. Com novas propostas metodológicas, gestores do bem e profissionais bem capacitados, vamos formar atletas qualificados para representar o país, não só no futsal, mas no esporte brasileiro como um todo.

Entrevista Nota 10 — A sua atuação se dá em três níveis no esporte — escolar, universitário e profissional. Quais são as maiores dificuldades na formação de jovens atletas e as maneiras de superá-las?

Wilson Sabóia — Eu trabalho tanto na escola pública quanto na privada como profissional de educação física e vejo o esporte como meio para educar, não como fim. A ideia é formar lideranças, trabalhar o esporte cooperativo, jogar com o outro e não contra o outro, entendendo limites, respeito, ética, regras e hierarquia.

No esporte universitário, apesar dos títulos conquistados, também trabalho o esporte como participação e como formação. Não é só rendimento. É dar possibilidade para cada profissional de educação física seguir sua carreira e, futuramente, formar novos atletas.

As gerações passam, tanto de atletas quanto de técnicos, e precisamos desenvolver novos educadores a partir da ciência. Profissionais de educação física que estejam aptos a buscar qualificação, melhorar suas aulas e treinos e trabalhar sempre com base no conhecimento científico.

O maior desafio hoje é a questão do gasto. Normalmente a empresa, seja pública ou privada, vê o esporte como gasto, não como investimento. Eu vejo como investimento na sociedade, principalmente nos jovens. A Unifor faz isso muito bem com bolsas de estudo, garantindo formação para atletas, especialmente no feminino, já que a vida de atleta não é para sempre.

Entrevista Nota 10 — Professor, se pudesse escolher uma palavra para definir a sua relação com o esporte qual seria e por quê?

Wilson Sabóia — Uma palavra define minha relação com o esporte: amor. Joguei futsal, trabalho com futsal e sustento minha família por meio do futsal. Tudo isso, porém, só faz sentido quando existe amor pelo exercício da profissão e entrega verdadeira ao que se faz.

Para sair de casa e conduzir uma aula — seja na universidade, na escola ou na seleção brasileira —, é indispensável carinho e respeito pela atuação como educador físico. Esse respeito se expressa no compromisso diário e na postura adotada diante dos alunos e das atletas.

O futsal é o espaço para mergulhamos as nossas propostas de ensino. Nele foram construídas metodologias, caminhos e resultados ao longo dos anos. Trata-se de uma relação de dedicação contínua, marcada por envolvimento e responsabilidade com o ensino proposto.

Ter conteúdo, metodologia e propostas inovadoras é fundamental. Ainda assim, sem amor genuíno pela atividade exercida, o trabalho fica incompleto. É o amor que dá sentido a tudo isso e consolida, de fato, a relação com o esporte.

 


Esta notícia está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), contribuindo para o alcance dos ODSs 3 – Saúde e Bem-Estar, 4 – Educação de Qualidade, 5 – Igualdade de Gênero e 8 – Trabalho Decente e Crescimento Econômico.

A Universidade de Fortaleza reafirma, assim, seu compromisso com a promoção da saúde e do bem-estar por meio do esporte (ODS 3), com a formação educacional de qualidade, com a valorização e ampliação das oportunidades para mulheres no esporte (ODSs 4 e 5) e com o fortalecimento da atuação profissional e do desenvolvimento social sustentável (ODS 8).