qua, 25 fevereiro 2026 15:38
Filmes de egressos da Unifor são premiados no Festival Internacional de Cinema de Berlim
Premiações em um dos maiores festivais do mundo evidenciam a força do cinema cearense

No último sábado (21), os filmes cearenses “Feito Pipa” e “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha” foram premiados no 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim, um dos mais tradicionais e relevantes eventos do cinema mundial. A conquista reforça a potência do cinema brasileiro, especialmente do que é produzido no Ceará, no cenário internacional.
Reconhecido como um dos principais festivais do mundo, o evento reúne obras autorais, politicamente engajadas e esteticamente inovadoras, funcionando como uma vitrine global para novos olhares e narrativas.
Feito Pipa foi agraciado com duas premiações, o Urso de Cristal e o Grand Prix, enquanto Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha ganhou o Prêmio do Júri de Leitores do Tagesspiegel.
Entre os talentos por trás dessas produções estão egressos da Universidade de Fortaleza, instituição da Fundação Edson Queiroz: Dayse Barreto, diretora de arte de Feito Pipa, e Maurício Macêdo, produtor de Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha e produtor executivo de Feito Pipa. A participação e o reconhecimento dos profissionais formados pela instituição evidenciam a qualidade da formação acadêmica e a contribuição da universidade para o fortalecimento do audiovisual nacional.
Reconhecimento internacional
Para Maurício, o reconhecimento no festival demonstra que é possível produzir um cinema relevante e competitivo fora do eixo tradicional da indústria audiovisual brasileira. Segundo ele, a premiação evidencia a maturidade do cinema no Estado, além de consolidar um cenário cada vez mais sólido e promissor para o setor cinematográfico no Ceará.
“Quando um filme feito a partir do Ceará ocupa esse espaço e ainda recebe o Tagesspiegel Readers’ Jury Award, concedido pelo público, isso deixa de ser apenas uma conquista individual. Esse reconhecimento internacional valida um processo longo, construído com cuidado, escuta e persistência. Representa a confirmação de que é possível produzir cinema relevante fora do eixo tradicional da indústria brasileira”, - Maurício Macêdo, egresso do curso de Cinema da Unifor e produtor audiovisual.
Equipe de Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha no Festival de Berlim (Foto: Arquivo pessoal)
O produtor também enfatiza que as histórias oriundas do Ceará têm potencial estético e político para dialogar com o mundo, preservando características da região, como o sotaque. “É como lançar um foguete artesanal e vê-lo atravessar fronteiras, mantendo intacta sua origem”, ressalta.
Segundo Dayse, o reconhecimento em um grande festival como o de Berlim reafirma a consistência de um trabalho construído ao longo dos anos, sustentado tanto por políticas de incentivo fiscal quanto por processos formativos.
Ela destaca, ainda, que o histórico de premiações do cinema nordestino em festivais internacionais demonstra sua relevância já consolidada e defende que o debate deve se concentrar no cumprimento das responsabilidades fiscais do poder público com a cultura cearense.
Os bastidores da produção
Para desenvolver o processo criativo na direção de arte de Feito Pipa, Dayse conta que realizou pesquisas que transitavam por diversas expressões artísticas, como livros infantis, filmes, pinturas e fotografias. Ela também destaca outro repertório fundamental para a construção do seu trabalho: a vida real, a partir da visita à casa das pessoas.
“(...) Comecei a imaginar a dialética estética do filme a partir do ponto de vista de uma criança e em qual imaginário estão ancorados os conhecimentos de mundo dela e de sua avó, quais imagens poderiam construir esse ponto de vista, quais cores, texturas, janelas e materiais utilizar, e como elaborar as locações a partir disso. O espaço e a relação que se criou tornaram-se o território fértil para essas respostas e para as conexões que precisávamos estabelecer no filme. Criar esse universo, fabular essa história, passou pela construção de muitas camadas — camadas vivas que abrem temporalidades na relação entre avó e neto e no mundo ao redor” - Dayse Barreto, diretora de arte de Feito Pipa.
Ela ressalta que as locações funcionam como um instrumento de liberdade no cotidiano da família, evidenciando os desejos dos personagens, suas condições materiais e as formas de sobrevivência e adaptação.
Dayse com a fotógrafa Luciana Baseggio no set de filmagem do longa Feito Pipa, durante o processo de produção do filme (Foto: Deilson Magalhães)
“Eu, Luciana Baseggio e Daniel Donato, os fotógrafos do filme, desde o início unimos nossos olhares para a construção da imagem. Não há uma desassociação dos trabalhos; minha contribuição foi trazer aspectos mais complexos para a imagem, oferecer ferramentas para nos movimentarmos dentro desse universo simbólico, evocando outras forças e conhecimentos, criando espaços vivos, com cores vibrantes e pulsantes, dando corporeidade ao espaço para essa câmera que passeia e se mostra tão potente no filme”, acentua.
Já Maurício relata o processo intenso e prolongado de Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha, destacando os anos de desenvolvimento e amadurecimento que culminaram no reconhecimento internacional.
“O filme atravessou anos de desenvolvimento, passando por laboratórios, reescritas e amadurecimento artístico. Participamos de espaços como Cena 15, BrLab, First Cut Lab Brasil e Ventana Sur antes de chegar à estreia mundial na Berlinale. Como produtor, minha função envolveu estruturar financeiramente o projeto, articular parcerias, formar a equipe, acompanhar decisões criativas e definir a estratégia de circulação”, enfatiza.
Ele também comenta os desafios enfrentados ao longo da trajetória, como limitações orçamentárias, longos intervalos entre etapas de financiamento e o período da pandemia, que exigiu a reinvenção dos fluxos de trabalho. Ainda assim, destaca que o ato de produzir consiste em “equilibrar planilha e poesia ao mesmo tempo”.
Bastidores do filme Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha (Foto: Arquivo pessoal)
“O maior aprendizado foi compreender que o tempo também é matéria-prima. Alguns filmes precisam de maturação. A produção é, antes de tudo, um exercício de persistência e de construção coletiva”, afirma o produtor.
Cinema é na Unifor!
Os dois egressos do curso de Cinema e Audiovisual da Unifor destacam a importância da formação acadêmica para a prática e o desenvolvimento profissional, ampliando a base de conhecimento e oferecendo um novo olhar sobre a arte cinematográfica.
Maurício destaca que, no curso de Cinema, aprendeu a compreender o cinema como linguagem, processo e responsabilidade coletiva. O produtor acrescenta que a vivência acadêmica possibilita experimentar, errar e testar caminhos, sendo um espaço para construir repertório e aprender a trabalhar em equipe.
“Isso foi decisivo na minha atuação como produtor, que exige escuta, articulação e visão estratégica. O curso também estimulou o pensamento autoral, e produzir cinema autoral exige compreender profundamente o que está sendo dito, por que está sendo dito e para quem”, salienta.
Dayse ressalta que o curso foi fundamental para formar uma base de conhecimento teórico, além de permitir experimentar e vivenciar coletivamente a prática audiovisual.
“Lembro com muito afeto de Bete Jaguaribe, que sempre enxerga o potencial criativo e prático nos estudantes e, particularmente, me incentivou em diversos projetos dentro e fora da graduação. O curso oferece um direcionamento e estímulo não apenas teórico sobre cinema, mas também prático”, realça a diretora.
Esta notícia está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), contribuindo para o alcance do ODS 4 – Educação de Qualidade. A Universidade de Fortaleza, assim, assegura a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, promovendo oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos.