Pesquisa de alunos de Medicina da Unifor reforça importância da informação e do diálogo para a doação de órgãos
qui, 10 setembro 2026 09:36
Pesquisa de alunos de Medicina da Unifor reforça importância da informação e do diálogo para a doação de órgãos
Artigo publicado no Brazilian Journal of Transplantation investigou conhecimento e fatores associados à recusa entre estudantes ingressantes do curso de Medicina e seus pais

A informação e o diálogo familiar podem ser decisivos para transformar a intenção de doar em uma decisão efetiva. É o que evidencia estudo desenvolvido por pesquisadores do curso de Medicina da Universidade de Fortaleza, da Fundação Edson Queiroz, que analisou o conhecimento, as percepções e as atitudes de estudantes ingressantes e seus pais sobre a doação de órgãos.
Intitulado “Doação de Órgãos: Conhecimento e Fatores Associados à Recusa Entre Ingressantes do Curso de Medicina e Seus Pais”, o artigo foi publicado em 2026 no Brazilian Journal of Transplantation. Assinam o trabalho as professoras Silvia Fernandes Ribeiro da Silva e Sônia Leite da Silva e os alunos Ana Luíza Rangel Montenegro, Isabella Siqueira Oliveira, Júlia Machado Maia, Luís Couto Callou Lóssio de Macêdo, Mariana Meneses de Lima Banhos Pinheiro, Maria Clara Silva de Oliveira Lousada e Paulo Gondim Gonçalves, todos vinculados ao Centro de Ciências da Saúde e ao curso de Medicina da Unifor.
A pesquisa envolveu 89 estudantes ingressantes e 70 pais, totalizando 159 participantes. Os questionários investigaram, entre outros aspectos, o conhecimento sobre a legislação brasileira, a compreensão da morte encefálica, a disposição para doar e receber órgãos e os fatores associados à recusa da doação.
Entre ser favorável e efetivamente doar
Um dos resultados que mais chama atenção é a diferença entre a aprovação da doação de órgãos e a disposição concreta para doar. Entre os estudantes, 100% declararam ser favoráveis à doação, mas apenas 11,2% afirmaram que seriam doadores em caso de morte encefálica. Entre os pais, 95,7% eram favoráveis à doação, enquanto 15,7% demonstraram disposição para doar nessa situação.
O estudo também revelou que o tema ainda é pouco discutido no ambiente familiar. Apenas 49,4% dos estudantes e 45,7% dos pais afirmaram já ter conversado sobre doação de órgãos. Entre os estudantes, os principais fatores associados à não aceitação da doação foram o medo (57,3%) e a desinformação (22,5%). Entre os pais, predominou a ausência de reflexão prévia sobre o tema (77,1%).
Outro dado relevante diz respeito à compreensão da morte encefálica. Embora 93,3% dos estudantes tenham afirmado saber o que é morte encefálica, apenas 10,1% a aceitaram como definição de morte. Entre os pais, os índices foram de 100% e 92,9%, respectivamente. Para os pesquisadores, os resultados reforçam a necessidade de ampliar a abordagem do tema durante a formação médica.
A conclusão do estudo aponta para a importância de uma abordagem estruturada e contínua da doação de órgãos nos currículos médicos, associada ao desenvolvimento de habilidades de comunicação e a ações de educação comunitária que estimulem o diálogo familiar. Os autores destacam que a qualificação da formação médica pode contribuir para uma comunicação mais efetiva com pacientes e familiares e, potencialmente, para a redução das taxas de recusa familiar.
Pesquisa dialoga com a Doe de Coração
Os resultados da pesquisa ganham ainda mais relevância durante o mês de setembro, quando a Fundação Edson Queiroz realiza a campanha Doe de Coração, iniciativa anual de conscientização sobre a importância da doação de órgãos e tecidos. Em 2026, a campanha chega à sua 24ª edição com programação ao longo de todo o mês, envolvendo a comunidade acadêmica e a sociedade.
A programação inclui exibição de filmes, ativações no campus e em hospitais, ações de educação em saúde, cadastro de doadores de medula óssea, doação de sangue e atividades de extensão. Entre os dias 8 e 25 de setembro, a campanha promove quiz, roleta de brindes e painel interativo em diferentes espaços da Unifor, além de hospitais e outros locais de Fortaleza.
Um dos destaques será a Jornada Doe de Coração - Conexões pela Vida, realizada no dia 16 de setembro, das 8h30 às 12h, no Auditório da Biblioteca Central da Unifor. A programação reunirá professores e profissionais de saúde para discutir diferentes aspectos da doação e dos transplantes, incluindo a atuação da enfermagem na doação de órgãos, o transplante cardíaco, a doação de córneas e o transplante hepático.
A campanha também contará, de 14 a 18 de setembro, com a carreta do Hemoce no estacionamento do bloco D da Universidade, das 11h às 20h, para cadastro de novos doadores de medula óssea e doação de sangue. No dia 25, uma ação de extensão levará as ligas acadêmicas LISAN — Liga do Sangue, LINETx — Liga de Nefrologia e Transplante Renal e LIVISA — Liga da Visão à Praça do Ferreira.
O encerramento está marcado para 30 de setembro, no Auditório da Biblioteca Central, com apresentação dos resultados da campanha de cadastro de medula óssea e doação de sangue, agradecimento aos parceiros e participantes e entrega da Medalha Medulaion 2026 aos apoiadores da iniciativa. Ao longo de todo o mês, também serão realizadas ações da campanha digital #DoeDeCoração e encontros do Clube de Leitura na Biblioteca Central.
Medicina Unifor amplia estrutura para formação prática
A produção científica dos estudantes ocorre em um curso que vem ampliando sua estrutura acadêmica e de formação prática. Em setembro de 2026, o curso de Medicina da Unifor inaugurou uma nova estrutura no bloco D do campus, dentro do processo de transferência gradual dos laboratórios que anteriormente funcionavam no Núcleo de Atenção Médica Integrada (NAMI).
A primeira etapa, realizada no semestre 2026.2, levou metade dos laboratórios anteriormente localizados no NAMI para o campus. A previsão é que, até 2027.1, toda a estrutura dos Laboratórios de Habilidades Médicas esteja concentrada no bloco D. A expansão contempla 24 novas salas para grupos tutoriais, 10 salas de monitoramento, 2 salas de simulação realística, 15 novos consultórios e um auditório com capacidade para 140 alunos.
A mudança amplia a integração dos estudantes de Medicina com os demais cursos da área da saúde e com a estrutura do campus. O curso dispõe ainda de laboratórios morfofuncionais, laboratórios de informática, além de biblioteca especializada e ambiente virtual de aprendizagem. A formação também está articulada ao Núcleo de Biologia Experimental (Nubex), integrante do Parque Tecnológico da Unifor.
Com 8.532 horas de formação, sendo mais de dois terços dedicados à prática, o curso integra os conteúdos acadêmicos às Redes de Atenção à Saúde do SUS. Os estudantes têm contato com ambientes reais de assistência desde os primeiros semestres, por meio do NAMI e de uma rede conveniada que inclui unidades de Atenção Primária à Saúde e hospitais públicos.
O corpo docente também é parte importante desse processo formativo. De acordo com as informações institucionais do curso, todos os preceptores do internato possuem vínculo trabalhista com a Unifor e participam de um Programa de Desenvolvimento Docente. A instituição também destaca o acompanhamento dos professores nas atividades práticas e o respeito à proporção professor-aluno preconizada pelo Sistema de Acreditação de Escolas Médicas (Saeme), criado pelo Conselho Federal de Medicina para avaliar e certificar a qualidade dos cursos de medicina no Brasil.
A estrutura, a pesquisa e a atuação dos professores e estudantes convergem, assim, para uma formação médica que ultrapassa o domínio técnico e contempla também a comunicação, a responsabilidade social e o cuidado integral. No caso da doação de órgãos, como demonstra o estudo desenvolvido pelos alunos, esse preparo pode contribuir para ampliar o conhecimento sobre o tema e estimular conversas que começam dentro da universidade, mas precisam chegar a toda a sociedade.