seg, 9 março 2026 19:45
Pesquisa Unifor: estudo desenvolve sistema em realidade aumentada para tratamento de fobias
EXPhobia utiliza da exposição gradual a estímulos virtuais para ajudar pessoas com medos irracionais de situações ou animais, como a aracnofobia

As fobias específicas são transtornos de ansiedade caracterizados por um medo intenso, irracional e persistente de um objeto, situação ou animal específico, desproporcional ao risco real, sendo um dos transtornos mais prevalentes na população mundial. A aracnofobia (fobia de aranhas), por exemplo, é considerada uma das fobias específicas mais comuns do mundo, especialmente no Brasil.
Pensando em novas formas de tratar medos como esses, pesquisadores da Universidade de Fortaleza, instituição da Fundação Edson Queiroz, desenvolveram o sistema EXPhobia, que tem como objetivo o enfrentamento de fobias específicas, em especial a aracnofobia.
O pesquisador e professor do curso de Psicologia da Unifor, Tauily Taunay, explica que o projeto é resultado de um trabalho interdisciplinar que integra conhecimentos das áreas de psicologia, computação e design. De acordo com ele, a pesquisa consiste no desenvolvimento e validação de uma tecnologia em realidade aumentada voltada à redução de sintomas de aracnofobia, fundamentada nos princípios da dessensibilização sistemática e das intervenções baseadas em exposição.
“Trata-se de um estudo aplicado na interface entre Psicologia Clínica, Neurociências e Tecnologias Digitais em Saúde (e-Health), cujo foco central é investigar se a exposição gradual a estímulos fóbicos por meio de realidade aumentada pode promover redução significativa do medo, da evitação e da ativação fisiológica associada à presença de aranhas”, explica.
A pesquisa envolveu diferentes setores da Universidade, como o Laboratório de Investigações em Análise do Comportamento (LiNAC), responsável pela base teórica da dessensibilização sistemática, a Diretoria de Tecnologia (DTec) da Unifor, que contribuiu para o desenvolvimento do protótipo em realidade aumentada, e o Centro de Ciências da Saúde (CCS), por meio do curso de Psicologia, que apoiou os testes iniciais da tecnologia.
Exposição gradual mediada por tecnologia
O funcionamento do EXPhobia baseia-se nos princípios da dessensibilização sistemática, técnica amplamente utilizada no tratamento de fobias. Nesse modelo, o indivíduo é exposto gradualmente ao estímulo que provoca medo, começando por situações menos ansiogênicas até chegar a níveis mais intensos.
No sistema desenvolvido pelos pesquisadores, o usuário utiliza a câmera do smartphone para visualizar elementos virtuais sobrepostos ao ambiente real. A tecnologia possibilita o controle de variáveis importantes para o tratamento como:
- tamanho do estímulo,
- distância em relação ao usuário,
- quantidade de aranhas,
- movimento.
Além disso, durante o uso do sistema são aplicados instrumentos de avaliação psicológica e medidas fisiológicas, como questionários e monitoramento da frequência cardíaca, para acompanhar as respostas emocionais e comportamentais ao longo da intervenção.
Tauily explica que a escolha da aracnofobia como foco inicial foi estratégica e metodologicamente fundamentada. “Trata-se de uma fobia específica com alta prevalência na população, amplamente descrita na literatura científica e com protocolos de exposição bem estabelecidos. As aranhas constituem um estímulo fóbico de relativa facilidade operacional para desenvolvimento digital, permitindo variações graduais de intensidade, tamanho, movimento e contexto”, afirma.
Benefícios para o tratamento psicológico
O tratamento com o EXPhobia, ao unir a Realidade Aumentada (RA) e princípios de mHealth (saúde móvel), promove uma mudança progressiva na relação do indivíduo com o estímulo temido que provoca medo. “Da esquiva para a aproximação regulada, do pânico para o controle, da ameaça percebida para a experiência de segurança”, esclarece o professor.
A mediação tecnológica também pode tornar o processo terapêutico mais acessível e adaptável às necessidades individuais, favorecendo o engajamento no tratamento e possibilitando avanços graduais no controle do medo. Além disso, o docente comenta que intervenções psicológicas baseadas em exposição podem reduzir ou até eliminar a necessidade de medicação, quando clinicamente indicado.
Mesmo com todos os benefícios, Tauily também alerta que o EXPhobia não substitui, de forma alguma, o acompanhamento psicológico, mas potencializa intervenções tradicionais.
“Seu propósito [do EXPhobia] é ampliar os recursos terapêuticos disponíveis, integrando tecnologia baseada em evidências ao processo clínico tradicional. O sistema não opera de forma autônoma nem se propõe a substituir o raciocínio clínico, a formulação de caso ou o vínculo terapêutico.” — Tauily Taunay, doutor em Ciências Médicas, professor do curso de Psicologia e responsável pela pesquisa
O protótipo possibilita a coleta de dados por meio de escalas, inventários e monitoramento da frequência cardíaca. Essas informações auxiliam o psicólogo na avaliação do progresso, na tomada de decisões terapêuticas e na análise da eficácia da intervenção.
Desenvolvimento e próximos passos
O projeto passou por fases de desenvolvimento, validação técnica e testes iniciais após a etapa laboratorial de concepção do protótipo funcional. O EXPhobia já demonstrou viabilidade técnica, aceitabilidade e indícios iniciais de impacto terapêutico. No entanto, o projeto encontra-se em fase de aprofundamento científico, buscando consolidar evidências por meio de metodologias experimentais mais rigorosas.
Além disso, a pesquisa foi apresentada na 12th International Conference on Health Informatics, realizada em Praga em 2019, e publicada em um capítulo do livro “EHealth Technologies in the Context of Health Promotion”, em 2020.
O objetivo futuro da pesquisa, é avançar da validação tecnológica inicial para evidências experimentais mais consistentes sobre eficácia clínica. Atualmente, no entanto, o projeto se encontra suspenso.
Além do professor Tauily Taunay, o estudo contou com a participação dos seguintes pesquisadores:
- Antônio Plínio Feitosa Bastos – Egresso do Programa de Pós-Graduação em Informática Aplicada (PPGIA)
- Fabiana Neiva V. Brasileiro – Professora do curso de Psicologia
- José Eurico de Vasconcelos Filho – Mestre pelo PPGIA
- Manuela Melo Santana – Egressa do curso de Psicologia
Esta notícia está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), contribuindo principalmente para o alcance do ODS 3 – Saúde e Bem-Estar e do ODS 9 – Indústria, Inovação e Infraestrutura.