seg, 15 junho 2026 15:28
Entrevista Nota 10: Ítalo Andrade e a expansão do empreendedorismo na enfermagem
Enfermeiro intensivista analisa o mercado de trabalho atual e o crescimento de oportunidades para quem empreende na área, além de destacar a formação profissional inovadora promovida pela Unifor

Quando pensamos na figura do enfermeiro, é comum ligarmos sua atuação aos ambientes hospitalares e às unidades básicas de atenção à saúde. No entanto, o mercado de enfermagem segue se expandindo e trazendo oportunidades diferentes para os profissionais da área, como é o caso do empreendedorismo.
Desde 2018, o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) regulamentou a criação e o funcionamento de consultórios e clínicas de enfermagem, segmento que tem crescido por todo o país e trazido uma perspectiva inovadora para a profissão. As possibilidades vão desde atendimento clínico e home care até consultorias, desenvolvimento de produtos e atendimento estético.
Segundo o enfermeiro intensivista Ítalo Andrade, docente do curso de Enfermagem da Universidade de Fortaleza — instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz —, existem desafios para o empreendedor em enfermagem, como as burocracias que envolvem ter um CNPJ e as demandas de gestão. Porém, ele afirma que também existem muitos pontos positivos e vantagens para quem decide abrir uma empresa.
“Os benefícios são que [esse profissional de enfermagem] vai ser dono do seu próprio negócio, vai poder fazer o seu horário, ter a oportunidade de obter ganhos significativos, de ter uma melhor qualidade de vida e ser um empreendedor que faz a diferença no país também”, pontua o coordenador da Liga de Semiologia e Clínica (LISEC) da Unifor.
Graduado em Enfermagem e mestre em Saúde Coletiva pela Unifor, Ítalo é professor do Estágio Supervisionado na Especialização em Enfermagem em Terapia Intensiva da Universidade. Ele atua como facilitador em simulação no Centro de Ensino e Simulação em Saúde - Dra. Julyana Freitas (CESS-JF) e preceptor POCUS (Point of Care Ultrasound) à beira leito. Hoje é doutorando em Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde, com ênfase na Simulação Clínica.
Na Entrevista Nota 10 desta semana, ele fala sobre o mercado de trabalho de enfermagem e a expansão do empreendedorismo na área, além de destacar a formação profissional inovadora promovida pela Unifor.
Leia a entrevista na íntegra a seguir.
Entrevista Nota 10 — Como você avalia o atual cenário do mercado de trabalho para a enfermagem, especialmente com as novas oportunidades de atuação que vão além do ambiente hospitalar e das unidades básicas de saúde? Quais setores estão ganhando mais destaque hoje?
Ítalo Andrade — Hoje, com certeza, podemos afirmar que as unidades básicas do ambiente hospitalar não são mais os únicos lugares de trabalho do enfermeiro. O enfermeiro pode empreender, pode trabalhar na parte de estética, pode trabalhar na parte de gestão, pode trabalhar na parte de estomaterapia. Pode, inclusive nessas áreas que estou citando, empreender, ter seu consultório e fazer o atendimento lá.
Por exemplo, se for um enfermeiro estomaterapeuta, ele faz atendimento no consultório e estende isso até o domicílio. Pode trabalhar planos de atendimento diversos, variar as opções de atendimento, tanto no consultório como a domicílio.
O enfermeiro hoje também pode montar sua empresa de home care, investir no atendimento domiciliar. Sabemos que é uma realidade também que a população brasileira está envelhecendo, e essas são áreas que o enfermeiro pode atuar, dentre outras.
E eu tenho observado, no meu dia a dia como docente, muitos alunos investindo em consultórios. Recentemente, eu me encontrei com uma ex-aluna que faz atendimento estético e trabalha com mulheres que passaram por algum tipo de câncer, especificamente câncer de mama. Essas pacientes realizam mastectomia parcial, às vezes têm que realmente fazer uma abordagem de reestruturação, digamos assim, para que possam ter o seio redefinido, por exemplo, com uma tatuagem. A abordagem estética [realizada pela egressa] faz excelentes trabalhos em relação a isso.
Essa ex-aluna faz sucesso nas redes sociais, faz sucesso com o seu público, com as suas pacientes. E ela faz, acima disso também, um trabalho de estética, trabalhando a autoestima da mulher que foi perdida por algum motivo, como na mutilação, mas, de alguma forma, ela traz uma nova proposta com o tratamento.
Entrevista Nota 10 — Temos observado um movimento forte de enfermeiros abrindo seus próprios consultórios e clínicas. O que tem impulsionado essa virada para o empreendedorismo na enfermagem?
Ítalo Andrade — Eu acredito que o que tem impulsionado essa questão, essa virada de um enfermeiro empreendedor, muito tem sido pelo mercado, que tem aberto portas para isso, e pela formação do enfermeiro. Por exemplo, a Universidade de Fortaleza, se você olhar a matriz curricular e os módulos que os alunos estudam, tem um olhar diferenciado para o mercado. Nós temos vários módulos direcionados para a gestão e o empreendedorismo, que fazem diferença nessa capacitação do acadêmico de enfermagem e futuramente enfermeiro.
Entrevista Nota 10 — Historicamente, a formação em saúde é muito voltada para a assistência direta ao paciente. Quais são os maiores desafios de gestão e regulamentação para o enfermeiro que decide abrir seu próprio CNPJ hoje? E quais os benefícios de ter o próprio negócio na enfermagem?
Ítalo Andrade — De fato, ainda existe muito isso. A formação em saúde é voltada muito para a assistência direta do paciente, voltada muito para a questão da saúde coletiva e hospitalar. Porém, hoje a universidade tem uma proposta diferente. A Universidade de Fortaleza trabalha com uma matriz diferenciada, na qual podemos encontrar módulos e disciplinas de gestão e empreendedorismo.
Então, entendemos que esse paradigma a Unifor vem quebrando, porque ela trabalha muito essa questão do enfermeiro que empreende, o enfermeiro que investe, o enfermeiro empresário, o enfermeiro que vê outras oportunidades. Até porque o mercado na saúde coletiva e na saúde hospitalar é um pouco limitado. Existem alguns concursos, existe o CLT — que, muitas vezes, não é bem remunerado ainda. Apesar do piso salarial ter sido aprovado e ser uma lei, ainda muitos empregos privados não pagam o piso, que é um direito adquirido por lei.
E quando o aluno trabalha essa questão dos desafios de empreender, ele vai se deparar com as leis trabalhistas, com as regras, com os impostos. Vai haver essa dificuldade no dia a dia dele: ele vai ter tudo aquilo que envolve gestão e empreender, vai ter dificuldade de aplicar. Porém, os benefícios são que ele vai ser dono do seu próprio negócio, vai poder fazer o seu horário, ter a oportunidade de obter ganhos significativos, de ter uma melhor qualidade de vida e ser um empreendedor que faz a diferença no país também.
Entrevista Nota 10 — Toda essa expansão do mercado para consultórios, home care e atendimentos domiciliares exige um novo tipo de profissional. Como essa transformação tem impactado o perfil do estudante de enfermagem hoje? Eles já chegam à graduação com uma mentalidade mais voltada para o empreendedorismo e a gestão?
Ítalo Andrade — Com certeza, a formação do enfermeiro atualmente não pode ser uma formação só voltada para o que historicamente observamos, que ainda muitas universidades e faculdades abordam, nessa limitação, muitas vezes, a um ensino hospitalar e a uma saúde coletiva, que hoje sabemos que tem mercado, mas é mais restrito. Esses alunos ainda não chegam com essa visão — alguns sim, mas a grande maioria não — de empreender.
Tentamos, com a nossa nova matriz, trabalhar exatamente isso no aluno: que ele não se limite a um tipo só de assistência, a um tipo só de trabalho, a apenas uma área específica. A não ser que ele opte por isso, que ele goste, que ele vai em frente, vai ajudar para o concurso e vai encarar um CLT muitas vezes difícil. Mas nós trabalhamos abrindo a cabeça do aluno nesse sentido, porque são várias as competências que ele pode desenvolver, entre elas essa capacidade de gestão.
Por si só, o enfermeiro é nato [para a gestão]. Se você pegar todas as formações, todos os cursos da saúde, há muito tempo o enfermeiro é formada para gerir. Obviamente que, ao longo dos anos, observamos esse crescimento e essa mudança de postura, não a gestão pela gestão, por ser um diretor de um hospital, por ser um diretor de alguma coisa voltada para a saúde, mas por saber gerir e empreender. Esse é o diferencial que a Universidade de Fortaleza coloca.
Entrevista Nota 10 — Diante dessa mudança, como o curso de Enfermagem da Unifor tem adaptado a sua proposta pedagógica para formar profissionais que sejam não apenas excelentes na assistência, mas também gestores e empreendedores visionários?
Ítalo Andrade — O diferencial na proposta de ensino da Universidade de Fortaleza é trazer para o acadêmico uma visão mais geral de tecnologia também. Inserimos muito o aluno nas tecnologias voltadas para a saúde, na questão da simulação clínica, que hoje é muito batido, muito comum e que tem ajudado na questão da formação de novos enfermeiros, novos profissionais da saúde como todos. Então, trabalhamos esse profissional também envolvido com tecnologias que hoje agregam.
Por exemplo, a Universidade ainda promove oficinas dos mais diversos tipos, mais de uma vez ao ano. Nessas oficinas, trazemos, por exemplo, cuidados paliativos, que hoje é uma realidade que cada vez mais cresce no mercado. Trabalhamos tecnologias específicas duras, como o uso do ultrassom já na universidade. O enfermeiro é respaldado por uma resolução do COFEN para usar o ultrassom, não para laudar, ele não vai dar diagnóstico médico. Esse ultrassom vai servir para conduzir e garantir a segurança do cuidado do enfermeiro. Percebendo que o paciente não tem condições de acesso venoso periférico, por exemplo, eu vou usar o ultrassom e fazer uma punção guiada. Então, eu vou trazer menos transtorno e menos dor para o paciente e vou fazer uma intervenção assertiva, o que me ajuda a ser mais assertivo.
Trabalhamos muito para essa questão visionária de competência, a gestão do cuidado também. Esse enfermeiro não só vai ser preparado para gerir grandes empresas, para gerir o seu negócio, ele vai gerir o cuidado. Trabalhamos muito na gestão do cuidado, do que a enfermagem tem de trabalho e como [o profissional] vai gerir esse cuidado, como ele vai implementar o processo de enfermagem, que é uma ferramenta fundamental para o trabalho de enfermeiro. Então, esse é o enfermeiro que tentamos formar, esse enfermeiro visionário também, além de empreendedor.
Entrevista Nota 10 — Falando em infraestrutura e vivência prática, quais diferenciais a Unifor oferece durante a graduação para que os alunos saiam seguros para desbravar esses novos nichos? Como se dá esse contato dos estudantes com as demandas reais do mercado durante o curso de Enfermagem?
Ítalo Andrade — Nós trabalhamos com uma infraestrutura de prática muito diferenciada. Nossos laboratórios têm manequins, bonecos, simuladores. Recentemente, nós recebemos um simulador de ventilação mecânica que faz exatamente o papel da ventilação mecânica. Ensinamos ao nosso aluno à beira leito, no laboratório de enfermagem, como manusear esse tipo equipamento, pois sabemos que a equipe de enfermagem é a única que fica 24 horas com o paciente. Então, o enfermeiro tem essa demanda.
Ele vai trabalhar muito a questão, que eu já citei na resposta anterior, de tecnologias, como o uso do ultrassom e de aplicativos que facilitem o seu acesso ao conhecimento, ao aprimoramento da sua prática e à simulação clínica. Preparamos esse enfermeiro para ter um olhar transcendente, que vai trabalhar um cuidado diferenciado, porque ele não vai ficar preso somente a nichos, aquilo que já é batido no mercado. Ele vai transbordar, vai extra-muros, vai trabalhar as demandas reais do mercado. Preparamos esse futuro profissional de enfermagem para as demandas que o mercado tem exigido e que, muitas vezes, ele não chega [no curso] com essa maturidade. Então, essa é uma proposta da Universidade de Fortaleza, que tem esse diferencial de colocar o enfermeiro em vários aspectos que envolvem a sua assistência.
Uma outra coisa muito interessante: a Unifor também trabalha com a pesquisa. Nós trabalhamos muito com ligas acadêmicas. Temos um diferencial do aluno, quando ele está envolvido na liga e no grupo de pesquisa, que é um acadêmico. Antes dele estar inserido numa liga, percebemos um aluno mais restrito, sem muita visão do que está acontecendo no mundo, e a liga acadêmica traz esse entendimento, sobretudo, da ação social que ele desenvolve e se insere, ele observa as deficiências da comunidade. Além da pesquisa, onde ele acaba intervindo de uma forma muito importante para o cuidado de enfermagem nas mais diversas áreas que nós trabalhamos dentro da universidade.
Posso dizer, com certeza, que, dentro da Unifor, nós temos um grande número de profissionais e professores de enfermagem que trabalham nas mais diversas áreas. Um outro diferencial também para esse aluno é que os nossos docentes são profissionais da assistência e professores, porque eles não são dedicados exclusivamente à universidade. Eles se dedicam à universidade, vestem a camisa, mas muitos dão plantão, muitos trabalham na saúde, dividem as aulas com a saúde e o plantão na saúde coletiva, além de muitos serem empreendedores.