seg, 23 fevereiro 2026 15:19
Entrevista Nota 10: Edson Oliveira, do Nubex ao reconhecimento internacional na pesquisa científica
Pesquisador do Núcleo de Biologia Experimental da Unifor fala sobre a importância da pesquisa interdisciplinar para a sociedade e comenta sobre seu trabalho premiado no VI Congreso Colombiano de Bioquímica y Biología Molecular

A pesquisa científica da Universidade de Fortaleza (Unifor), instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz, tem ganhado cada vez mais destaque e reconhecimento na comunidade acadêmica nacional e internacional. O estudo do biólogo Antonio Edson Rocha Oliveira, pesquisador do Núcleo de Biologia Experimental (Nubex) da Unifor, é uma prova disso.
Seu trabalho “Tripanotiona Reductasa como Diana Terapêutica en Tripanosomatídeos: Análisis Genómico y Transcriptómico” foi premiado como Melhor Apresentação na modalidade Pôster durante o VI Congreso Colombiano de Bioquímica y Biología Molecular (C2B2), realizado no final de novembro de 2025, em Medellín, na Colômbia.
“Para mim, essa conquista representa não apenas um reconhecimento individual, mas o resultado de um trabalho coletivo que envolve estudantes, colaboradores e a estrutura institucional que sustenta a pesquisa. Além disso, evidencia a capacidade da ciência produzida no Ceará, especialmente na Universidade de Fortaleza, de dialogar em alto nível com a comunidade científica internacional”, declara Edson.
Desenvolvido no Nubex e financiado pelo edital Edital R nº 66 do Programa de Apoio a Equipes de Pesquisa, o estudo buscou caracterizar (em nível genômico, filogenético e transcriptômico) o gene responsável pela produção da enzima tripanotiona redutase em diferentes espécies e cepas de parasitas causadores da Doença de Chagas e da leishmaniose.
A pesquisa — desenvolvida em colaboração com Aila Maria Melo Correia, aluna do curso de Farmácia e bolsista de iniciação científica, e outros pesquisadores brasileiros — reforça a relevância do Nubex na investigação de novas estratégias terapêuticas e na compreensão de doenças negligenciadas.
Mestre em Bioquímica e Biologia Molecular pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e doutor em Bioinformática pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Edson realizou doutorado-sanduíche na Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, e pós-doutorado em Biologia de Sistemas na Universidade de São Paulo (USP).
Hoje, ele atua como pesquisador no Laboratório de Bioinformática do Nubex, onde desenvolve projetos de pesquisa, orienta estudantes de iniciação científica e integra a coordenação da Liga Acadêmica de Bioinformática e Biologia Molecular (LABB).
Na Entrevista Nota 10 desta semana, o biólogo fala sobre a importância da pesquisa científica interdisciplinar para a sociedade, o seu trabalho premiado no C2B2 e a sua conexão com o Nubex.
Confira a entrevista na íntegra a seguir.
Entrevista Nota 10 — A pesquisa científica possui papel essencial no desenvolvimento de soluções e conhecimento para a área da saúde, como descobrir novas medicações e tratamentos eficazes para diversas enfermidades. De que forma os estudos em bioquímica e em bioinformática tem transformado a qualidade de vida da população, especialmente quando falamos de doenças parasitárias?
Edson Oliveira — A pesquisa em bioquímica, biologia molecular e bioinformática tem papel fundamental na melhoria da qualidade de vida da população, pois permite compreender como as doenças se desenvolvem em nível celular e molecular e, a partir disso, propor novas estratégias de diagnóstico e tratamento. Enquanto a bioquímica e a biologia molecular investigam o funcionamento dos microrganismos e sua interação com o organismo humano, a bioinformática possibilita a análise de grandes volumes de dados genéticos, acelerando a identificação de genes e proteínas que podem se tornar alvos terapêuticos.
No caso das doenças parasitárias, o estudo tanto do parasito quanto da resposta do hospedeiro é essencial para identificar novos alvos farmacológicos e biomarcadores. Esse conhecimento contribui para o desenvolvimento de tratamentos mais eficazes e seguros, além de fortalecer estratégias de controle e prevenção, especialmente em populações mais vulneráveis.
Entrevista Nota 10 — No doutorado em Bioinformática, você direcionou seu foco para o estudo comparativo do transcriptoma do Trypanosoma cruzi e de células humanas infectadas. Qual a importância de investigações como essa para a saúde pública no Brasil e no mundo?
Edson Oliveira — Durante o meu doutorado, investiguei como o Trypanosoma cruzi, protozoário causador da Doença de Chagas, e as células humanas infectadas regulam seus genes ao longo da infecção, comparando cepas do parasito com diferentes graus de virulência. Esse tipo de abordagem permite compreender quais mecanismos moleculares estão associados à progressão da doença e à gravidade da infecção.
Ao identificar genes e vias mais ativos nas cepas mais virulentas, torna-se possível propor estratégias para bloquear esses processos e reduzir a capacidade do parasito de causar a doença. Em nosso estudo, observamos que genes da família das trans-sialidases estavam mais expressos na cepa mais agressiva. Posteriormente, utilizando a técnica de edição gênica CRISPR-Cas9, conseguimos reduzir a expressão desses genes, o que resultou na diminuição da virulência do parasito.
Investigações como essa são fundamentais para a saúde pública, pois contribuem para o desenvolvimento de novos alvos terapêuticos e ampliam o conhecimento sobre uma doença ainda considerada negligenciada no Brasil e em diversos países.
Entrevista Nota 10 — Em novembro de 2025, seu trabalho “Tripanotiona Reductasa como Diana Terapêutica em Tripanosomatídeos: Análisis Genómico y Transcriptómico” foi premiado durante o VI Congreso Colombiano de Bioquímica y Biología Molecular (C2B2). Como foi receber esse reconhecimento, tanto a nível profissional quanto pessoal? O que essa conquista representa para você e para a comunidade científica cearense?
Edson Oliveira — Receber essa premiação foi uma grande satisfação, tanto no âmbito profissional quanto pessoal. Ser avaliado por uma banca internacional e conquistar o reconhecimento como melhor pôster na área de Bioinformática e Ciências Ômicas reforça a qualidade e a relevância científica dos projetos que desenvolvemos no Núcleo de Biologia Experimental (Nubex).
Para mim, essa conquista representa não apenas um reconhecimento individual, mas o resultado de um trabalho coletivo que envolve estudantes, colaboradores e a estrutura institucional que sustenta a pesquisa. Além disso, evidencia a capacidade da ciência produzida no Ceará, especialmente na Universidade de Fortaleza, de dialogar em alto nível com a comunidade científica internacional.
Entrevista Nota 10 — De maneira simplificada, explica o trabalho “Tripanotiona Reductasa como Diana Terapêutica em Tripanosomatídeos: Análisis Genómico y Transcriptómico”. Como surgiu a ideia dessa pesquisa e quais foram os resultados alcançados? O que fez ela ser premiada no C2B2?
Antonio Edson Oliveira — O trabalho teve como objetivo caracterizar, em nível genômico, filogenético e transcriptômico, o gene responsável pela produção da enzima tripanotiona redutase em diferentes espécies e cepas de parasitos causadores da doença de Chagas e da leishmaniose. Essa proteína é essencial para proteger o parasito contra o estresse oxidativo durante a infecção, sendo considerada um importante alvo terapêutico.
No entanto, a grande diversidade genética desses organismos pode influenciar a eficácia de estratégias farmacológicas direcionadas a essa enzima. Nosso estudo buscou justamente compreender essa variabilidade e sua relevância biológica, contribuindo para o refinamento de futuras abordagens terapêuticas.
A ideia surgiu a partir de experiências anteriores durante meu doutorado, quando realizei uma caracterização semelhante para outro alvo terapêutico, a cruzipaína. Acredito que o caráter interdisciplinar do estudo, integrando diferentes áreas da bioinformática e das ciências ômicas, aliado à consistência metodológica e à relevância do tema para doenças negligenciadas, foram fatores determinantes para a premiação no congresso.
Entrevista Nota 10 — Você atua como pesquisador no Núcleo de Biologia Experimental (Nubex) da Universidade de Fortaleza. Quais trabalhos você têm desenvolvido no Nubex? E como surgiu a oportunidade de colaborar com o Núcleo?
Edson Oliveira — Atualmente, atuo como pesquisador no Nubex, onde desenvolvo e coordeno projetos em bioinformática, genômica e transcriptômica aplicados ao estudo de parasitos, plantas e doenças humanas. Também oriento estudantes de iniciação científica e colaboro em projetos com pesquisadores da Universidade de Fortaleza e de outras instituições cearenses, como a Universidade Federal do Ceará e a Fiocruz, além de parcerias com instituições nacionais como a Universidade Federal de Minas Gerais, a Universidade de São Paulo e a Universidade Federal de Rondônia.
Minha atuação no Nubex surgiu a partir de uma iniciativa inovadora da Unifor, que criou cargos voltados exclusivamente para pesquisa, aliada à demanda por um pesquisador com expertise em bioinformática e análises ômicas. Esse contexto possibilitou a consolidação de projetos interdisciplinares e a formação de recursos humanos qualificados na área.
Entrevista Nota 10 — De que maneira a Unifor, especialmente por meio do Nubex, tem incentivado a produção científica e a inserção internacional dos seus pesquisadores? Na sua visão, esse reconhecimento no C2B2 reforça o papel da Unifor como polo de pesquisa científica no Brasil?
Edson Oliveira — A Universidade de Fortaleza tem investido de forma consistente na consolidação da pesquisa científica, especialmente por meio do Núcleo de Biologia Experimental. Esses investimentos envolvem a ampliação da infraestrutura física e tecnológica, aquisição de insumos, apoio técnico especializado e contratação de pesquisadores dedicados exclusivamente à produção científica. Esse ambiente favorece o desenvolvimento de projetos interdisciplinares e a formação de estudantes altamente qualificados.
Além disso, a Fundação Edson Queiroz desempenha papel fundamental ao financiar editais internos que concedem bolsas de iniciação científica e recursos para execução e divulgação de projetos, fortalecendo a inserção nacional e internacional dos pesquisadores.
A premiação no C2B2 representa um reflexo direto desse investimento institucional e reforça o papel da Unifor como um polo emergente de pesquisa científica no Brasil, com produção capaz de dialogar em alto nível com a comunidade acadêmica internacional.