A indústria do “wellness” e o desafio da suplementação alimentar consciente: armadilha ou solução?
O nutricionista Filipe Brito explica a diferença entre o autocuidado legítimo e o uso indiscriminado de suplementos sem orientação profissional
A busca por qualidade de vida, envelhecimento saudável e estética transformou os hábitos de consumo no Brasil. Dados da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres (ABIAD) revelam que os suplementos alimentares já estão presentes em 59% dos lares brasileiros, impulsionados por promessas de ganho de performance, emagrecimento e melhora no bem-estar.
Gomas para cabelo, canetas emagrecedoras, cápsulas para o sono e potes de whey protein passaram a estrelar vlogs de rotina nas redes sociais. Com uma ampla gama de escolhas e variedades, os suplementos são propagandeados como se fossem benéficos a qualquer pessoa.
A promessa de melhora rápida no desempenho físico, emagrecimento ou ganho de massa muscular atrai grande público. Mas será que as escolhas nesse sentido têm sido conscientes? Em meio a tanta pressão para atingir a sua “melhor versão”, nem sempre é fácil diferenciar a necessidade real da propaganda da vez.
O nutricionista Filipe Brito, docente do curso de Nutrição da Universidade de Fortaleza — instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz —, desmistifica a ideia popular de que produtos ditos “naturais” ou de venda livre são inofensivos. Ele alerta para a adoção de protocolos alimentares disseminados por plataformas como Instagram e TikTok, muitas vezes compartilhadas por influenciadores sem formação na área.
“O principal risco de normalizar o uso diário de suplementos nas redes sociais é transmitir a falsa ideia de que eles são necessários, seguros e benéficos para todas as pessoas”, diz o mestre em Saúde Coletiva.
“Conteúdos curtos e relatos pessoais costumam simplificar
temas complexos e raramente abordam contraindicações, interações,
efeitos adversos ou a qualidade das evidências científicas. Isso
pode estimular a automedicação, o consumo desnecessário e criar
expectativas irreais sobre os resultados.” — Filipe
Brito, nutricionista, docente do curso de Nutrição da Unifor
e mestre em Saúde Coletiva
Mercado de “wellness”: a expansão da indústria do bem-estar
De acordo com um levantamento da Future Market Insights (FMI) , a taxa de crescimento anual projetada para a demanda por suplementos alimentares no Brasil é de 6,5% no período de 2026 a 2036. O mercado nacional já responde por mais de um terço de todas as vendas de suplementos da América Latina, possuindo a maior penetração de consumo nos lares e distribuição avançada nas grandes redes de farmácias.
O avanço da suplementação no país não ocorre de forma isolada. No que diz respeito à saúde, a pandemia da Covid-19 trouxe profundas mudanças nos hábitos de consumo, principalmente na busca por qualidade de vida e envelhecimento saudável.
Esse crescimento consolidou a indústria do “wellness” — termo que abrange práticas voltadas ao bem-estar físico, mental e emocional — e tem levado os brasileiros a adotarem rotinas mais rígidas de autocuidado.
O relatório da FMI ainda destaca que a crescente cultura “wellness” nos centros urbanos brasileiros está impulsionando a procura por produtos de nutrição esportiva, proteínas e suplementos de desempenho, fazendo o mercado expandir para além do segmento tradicional de vitaminas e minerais.
Paralelamente a essa expansão, o setor atravessa um momento de mudanças normativas: a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) prorrogou, em agosto de 2025, o prazo de adequação à Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 843/2024 , que estabelece regras para a regularização de alimentos e suplementos no país. Os fabricantes e importadores de suplementos e alimentos têm até 1º de setembro de 2026 para cumprirem as exigências.
Riscos do uso indiscriminado de suplementos
Uma pesquisa global conduzida pela Tetra Pak aponta que o Brasil é o país onde a população mais associa o uso de suplementos e nutrição funcional ao aumento do bem-estar mental (45%), superando a média mundial de 33%. A melhoria da saúde física também é considerada fator decisivo por 56% dos entrevistados brasileiros.
Para além dos fatores econômicos, a busca por suplementação carrega um forte apelo emocional e conversa diretamente com o que essas pesquisas vêm analisando: a pressão por desempenho e padrões de vida considerados ideais, especialmente entre jovens adultos e trabalhadores urbanos, mais expostos às redes sociais e a conteúdos que incentivam o consumo de produtos sem qualquer prescrição ou consulta prévia com um nutricionista.
Segundo o nutricionista Filipe Brito, a suplementação deve ser individualizada e baseada em evidências científicas, considerando alimentação, estado de saúde, exames laboratoriais e objetivos de cada pessoa.
O professor do curso de Nutrição da Unifor reforça que entidades como a Anvisa orientam que os suplementos não substituem uma alimentação equilibrada e devem ser utilizados, quando indicados, com orientação de profissionais habilitados, como médicos e nutricionistas.
O uso sem orientação profissional pode levar à sobrecarga de órgãos como fígado e rins, além de causar interações medicamentosas perigosas. Brito ressalta que os danos variam conforme a substância.
“Os tipos de riscos vão depender do tipo de suplemento: desde problemas mais ‘simples’, como constipação e gases gerados por excesso de ingestão de suplementos proteicos ou descamação da pele por excesso de vitamina A, ao mais graves, como insuficiência hepática por interação e excesso de fitoterápicos ou infarto pelo excesso de cafeína”, revela.
A solução: quando a suplementação é aliada
Embora o apelo comercial apresente a suplementação como substituta prática de refeições ou solução mágica para problemas de sono, queda de cabelo e fragilidade nas unhas, as carências nutricionais têm múltiplas causas e exigem diagnóstico individualizado.
Filipe Brito explica que a indústria cumpre um papel legítimo ao diversificar os formatos dos produtos — oferecendo opções em gomas, sachês ou xaropes para facilitar a adesão de pacientes —, mas a escolha da apresentação e da dosagem precisa passar por avaliação criteriosa de um profissional da saúde.
“Existem suplementos que melhoram a performance esportiva na faixa de dois a cinco segundos. Para um indivíduo que pratica atividade física apenas por saúde e bem-estar, isso não trará efeito real. Já para um atleta, pode ser a diferença entre estar no pódio ou não”, pondera o nutricionista.
De acordo com ele, os principais benefícios da suplementação são:
- corrigir ou prevenir deficiências,
- contribuir para o funcionamento adequado do organismo,
- auxiliar na melhora de sintomas relacionados à falta de nutrientes.
A prescrição de suplementos é recomendada quando a alimentação habitual não consegue fornecer as quantidades necessárias de nutrientes, em casos de exclusão de grupos alimentares, aumento da demanda metabólica ou quando há deficiência confirmada por exames laboratoriais.
Nem todas as deficiências precisam ser tratadas ao mesmo tempo. Em muitos casos, o profissional pode priorizar os nutrientes mais críticos, ajustar a alimentação e acompanhar a evolução ao longo dos meses. É preciso estabelecer a fronteira entre o consumo impulsionado pelo mercado e o autocuidado legítimo.
O que fazer ao se deparar com propagandas irregulares
Ao ver alguém indicando medicamentos ou suplementos nas redes sociais, desconfie imediatamente, não siga a recomendação e denuncie o conteúdo. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) orienta que propagandas de curas milagrosas ou remédios fora de farmácias podem ser golpes, produtos falsificados ou fraudes por inteligência artificial.
Para verificar se um medicamento ou suplemento alimentar está devidamente registrado na Anvisa, você pode acessar a página de Consulta de Produtos Regulamentados da Anvisa . Também é possível registrar o caso de forma rápida e segura pela plataforma oficial Fala.BR , selecionando a opção de denúncia para a esfera federal.
Suporte nutricional oferecido pela Unifor
O Ambulatório de Nutrição do Núcleo de Atenção Médica Integrada (NAMI) , vinculado à Unifor, oferece atendimento especializado para diversos perfis de saúde e faixas etárias. A unidade utiliza tecnologia avançada para realizar diagnósticos precisos e intervenções personalizadas, abrangendo áreas como nutrição clínica, esportiva e funcional.
O serviço disponibiliza assistência tanto pelo SUS quanto por meio da tarifa social, garantindo um serviço de qualidade, humanizado e voltado para o bem-estar de cada paciente. Além de fornecer acesso à saúde para a população, o espaço serve como prática profissional para alunos de Nutrição da Unifor, sendo sempre orientados por docentes especialistas.
No Ambulatório de Nutrição, os interessados têm acesso a programas que focam na organização da rotina de saúde, no ajuste da dieta e na suplementação alimentar. São eles:
- Nutrição Clínica Geral
- Programa de Reeducação Alimentar
- Nutrição Esportiva
- Nutrição Funcional, Estética e Saúde da Mulher
Serviço
Ambulatório de Nutrição do NAMI
Segunda a sexta: 7h30 às 11h30 | 13h às 17h
Mais informações:
naminutricao@unifor.br
Telefone: (85) 3477-3621
WhatsApp:
(85) 99211-2700
Endereço: Rua Maramaldo Campelo, 50 - Edson
Queiroz (ao lado do Fórum Clóvis Beviláqua)
Esta matéria está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, contribuindo para o alcance do ODS 3 – Saúde e Bem-Estar e do ODS 4 – Educação de Qualidade.
A Universidade de Fortaleza reafirma sua dedicação à promoção de hábitos alimentares saudáveis e ao incentivo de um estilo de vida equilibrado para a comunidade. Assim, a instituição busca integrar o conhecimento acadêmico com práticas cotidianas que favoreçam a qualidade de vida coletiva.