Entenda como as novas tarifas dos Estados Unidos afetam as relações comerciais com o Brasil

seg, 24 fevereiro 2025 14:56

Entenda como as novas tarifas dos Estados Unidos afetam as relações comerciais com o Brasil

Proposta de Donald Trump estabelece taxa de 25% sobre importações de aço e alumínio, gerando impactos no comércio internacional


O Brasil foi o segundo maior exportador de aço para os EUA em 2024 (Foto: Getty Images)
O Brasil foi o segundo maior exportador de aço para os EUA em 2024 (Foto: Getty Images)

As eleições nos Estados Unidos são um evento crucial tanto no âmbito político quanto comercial para o Brasil, refletindo a longa e sólida relação entre os dois países. Um exemplo disso é que, em 2023, as exportações brasileiras para o mercado norte-americano atingiram impressionantes US$36,9 bilhões

Contudo, a política comercial do presidente Donald Trump, que assumiu o cargo em janeiro, trouxe incertezas. Uma de suas primeiras medidas foi anunciar a imposição de uma tarifa de 25% sobre todas as importações de aço e alumínio, justificada como uma resposta à “inundação” de aço barato da China no mercado global, que estaria prejudicando a produção estadunidense. 

O Brasil, segundo maior exportador de aço para os Estados Unidos em 2024 (US$ 4,677 bilhões), pode ser um dos mais afetados pela medida. Luis Haroldo Santos, doutor em Estudos Estratégicos Internacionais e professor do curso de Comércio Exterior da Universidade de Fortaleza — instituição da Fundação Edson Queiroz —, alerta para os impactos negativos, principalmente sobre a redução das exportações desses produtos para os EUA.

“Com o aumento nos preços devido às tarifas, o aço brasileiro perderia competitividade no mercado norte-americano, resultando em perdas econômicas consideráveis para o setor. Isso afetaria milhares de empregos diretos e indiretos nas usinas siderúrgicas brasileiras”, explica o docente.

Cenário global incerto


A recente decisão de Donald Trump de impor novas tarifas sobre aço e alumínio se insere na política comercial agressiva do governo norte-americano (Foto: Nic Antaya/Getty Images)

Além da tarifa geral de 10% e das ameaças à União Europeia, Trump chegou a sugerir, em uma coletiva de imprensa, o uso de tarifas para forçar a Dinamarca a ceder o controle da Groenlândia aos Estados Unidos. 

No entanto, o presidente não detalhou a extensão ou o cronograma das novas tarifas, o que contribui para um cenário comercial global ainda mais incerto e imprevisível. Ele também indicou planos para anunciar novas tarifas recíprocas, visando igualar os impostos que outros países impõem sobre produtos americanos.

Em resposta às ações do presidente, diversas empresas americanas intensificaram suas atividades de lobby — atividade de pressão de um grupo organizado, buscando influenciar a decisão pública. Enquanto isso, economistas tradicionais alertam que o plano tarifário pode reacender a inflação e desacelerar o crescimento econômico nos Estados Unidos.

Os editores do Wall Street Journal, que normalmente apoiam as políticas do presidente, criticaram sua estratégia, descrevendo-a como “a guerra comercial mais idiota da história”. Em resposta, Trump justificou e prometeu expandir as tarifas com três objetivos principais: aumentar a receita, equilibrar o comércio e submeter países rivais.


A postura dos Estados Unidos pode gerar uma série de repercussões no cenário global, como um aumento da incerteza no comércio internacional e mesmo uma guerra comercial, com prejuízos para o multilateralismo. Nesse contexto, o Brasil acelera uma tendência histórica de sua tradição diplomática, que é a diversificação de suas parcerias comerciais com outros países. Um dos exemplos mais notáveis foi a criação do Brics” — Luis Haroldo Pereira, professor do curso de Comércio Exterior da Unifor

Novo contexto comercial 

Desde 2009, a China se consolidou como o principal comprador de mercadorias brasileiras, enquanto os Estados Unidos mantiveram uma relação estável, sem um crescimento significativo nas importações de produtos do Brasil.

Com o passar dos anos e os avanços tecnológicos, 2023 marcou um feito histórico, com 9.553 empresas brasileiras exportando para os Estados Unidos, o maior número em 200 anos de relações comerciais. Enquanto essa relação se fortalecia, os EUA expressavam preocupações em relação ao crescimento do bloco Brics, que inclui Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, agora ampliado com novos membros. 

A expansão desse grupo modificou a dinâmica comercial entre Brasil e EUA, especialmente à medida que o Brics ganhava relevância geopolítica e econômica, gerando incertezas sobre o futuro das relações bilaterais.

A diversificação das parcerias comerciais dentro do grupo tem contribuído para reduzir a dependência do Brasil em relação ao mercado americano, mas essa estratégia enfrenta desafios significativos. O principal deles é que o mercado norte-americano ainda representa uma fonte crucial de investimentos e inovação tecnológica, essenciais para a modernização da economia brasileira.

Luis Haroldo Pereira explica que os impactos na relação entre Brasil e Estados Unidos ainda são incertos, devido à imprevisibilidade de Trump e ao fato de que as medidas ainda não entraram em vigor. “Esse prazo permite que eventuais acordos sejam firmados e que as tarifas possam não ser aplicadas. Portanto, pode ser que nada mude”, enfatiza.

Impacto na indústria siderúrgica brasileira

As medidas anunciadas por Trump, ao entrarem em vigor, têm o potencial de impactar significativamente a cadeia global de suprimentos da indústria siderúrgica, e o cenário não seria diferente para as usinas cearenses.

“De fato, as siderúrgicas no Ceará podem enfrentar efeitos adversos, sobretudo nos seus níveis de venda, na sua produção e no mercado de trabalho. Com a imposição de tarifas e a retração desse mercado, essas empresas podem presenciar um declínio de suas vendas, com prejuízos milionários”, explica o docente.

Com a nova taxação sobre as exportações de aço e alumínio, o Brasil enfrentará um período desafiador, especialmente por ser um grande exportador de produtos semi acabados para os Estados Unidos. O impacto financeiro pode alcançar US$5,7 bilhões, afetando diretamente a economia nacional e levantando preocupações sobre a competitividade do setor.

Em 2024, as exportações de aço do Brasil totalizaram 4,3 milhões de toneladas, o que corresponde a 1,58% das exportações totais do país. O cenário se torna ainda mais preocupante considerando que 48% das exportações brasileiras do setor de ferro e aço têm como destino os EUA, um mercado que depende fortemente do fornecimento brasileiro para abastecer suas siderúrgicas.

Outro setor que pode ser impactado é o sucroalcooleiro, responsável pela produção de açúcar e etanol a partir da cana-de-açúcar. Com a expectativa de que as tarifas entrem em vigor apenas em abril, as empresas brasileiras estão adotando uma postura cautelosa, avaliando estratégias para minimizar os impactos potenciais nas operações e na competitividade.

Relação entre o Brasil e os Estados Unidos


As relações comerciais entre Brasil e EUA, marcadas por mais de 200 anos de parceria, enfrentam novos desafios com tarifas e políticas recentes (Foto: Getty Images) 

Ao ser questionado sobre a relação comercial com o Brasil, Donald Trump afirmou que o país e outras nações latino-americanas são mais dependentes da economia americana do que o contrário. “Eles precisam de nós muito mais do que precisamos deles. Não precisamos deles. Eles precisam de nós. Todo mundo precisa de nós”, declarou em coletiva de imprensa no primeiro dia de seu governo.

Por outro lado, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva manifestou a intenção de manter relações de cooperação com os EUA, destacando a “trajetória de cooperação fundamentada no respeito mútuo e numa amizade histórica”. 

Durante uma reunião ministerial na Granja do Torto, Lula defendeu a paz com os Estados Unidos e outras nações, afirmando: “Da nossa parte, não queremos briga. Nem com a Venezuela, nem com os americanos, nem com a China, nem com a Índia e nem com a Rússia”.

No entanto, ações como a retirada dos EUA do Acordo de Paris, que visa limitar o aumento da temperatura global, levantam preocupações. O desinteresse americano em compromissos climáticos pode reverberar negativamente, especialmente considerando que o Brasil sediará a COP 30 em Belém, em 2025.

Embora Trump não admita, os Estados Unidos precisam do Brasil, que é o nono maior importador de produtos americanos e o 18º maior exportador para os EUA. Em 2024, o Brasil importou US$40,5 bilhões e exportou US$40,3 bilhões, evidenciando que a balança comercial é favorável aos americanos. 

No que diz respeito ao alumínio, o Brasil ocupa a posição de 14º maior fornecedor dos EUA, conforme dados do Departamento de Comércio americano. Essa interdependência comercial ressalta a importância das relações entre os dois países. 

“Os laços entre o Brasil e os EUA são muito sólidos, tanto no âmbito político quanto no econômico. Já são mais de 200 anos de relações diplomáticas, com um contínuo aprofundamento dos mecanismos de diálogo para tratar da vasta agenda bilateral, e esse bom histórico deve prevalecer”, afirma Luiz Haroldo Pereira.