Entrevista Nota 10: Lanza Xavier e a reinvenção do setor audiovisual no Brasil

seg, 24 agosto 2026 15:47

Entrevista Nota 10: Lanza Xavier e a reinvenção do setor audiovisual no Brasil

Presidenta do Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual reflete sobre as transformações do mercado e do ensino da área no país, além de comentar as expectativas para o Congresso FORCINE 2026, que acontecerá na Unifor


Doutora em Educação e mestra em Comunicação Social, Lanza é professora adjunta da Universidade Federal de Pelotas (Foto: Arquivo pessoal)
Doutora em Educação e mestra em Comunicação Social, Lanza é professora adjunta da Universidade Federal de Pelotas (Foto: Arquivo pessoal)

Consolidação das plataformas digitais, novos modelos de produção, circulação e consumo, inteligência artificial e mudanças nas dinâmicas profissionais. Esses e outros fatores têm transformado profundamente o setor audiovisual não só no Brasil, mas no mundo todo, instigando reflexões tanto sobre a situação atual do mercado e o perfil de quem atua nele quanto sobre o próprio conceito desse trabalho.

Para Lanza Xavier — presidenta do Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual (FORCINE) no biênio 2025-2026 e docente dos cursos de Cinema e Audiovisual e de Cinema de Animação da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) —, a prioridade hoje deveria ser juntar duas coisas que às vezes aparecem separadas nas discussões: formação tecnológica e formação crítica.

“Precisamos ensinar IA, streaming, novas linguagens e novos modelos de produção, sim, mas também discutir autoria, ética, direitos, trabalho, diversidade, sustentabilidade e os impactos dessas tecnologias sobre as profissões. É exatamente esse equilíbrio entre inovação e formação crítica que o Congresso FORCINE 2026 coloca no centro do debate”, pontua a doutora em Educação pela UFPEL.

Nos dias 26 a 28 de agosto, o evento reunirá profissionais e acadêmicos da área de cinema e audiovisual do Brasil para discutir o tema central “Que trabalho é esse?! Reinvenção e transformação no audiovisual brasileiro”. Organizada pela diretoria do FORCINE e pelos docentes Bete Jaguaribe e Max Eluard, do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade de Fortaleza (Unifor), a iniciativa será sediada no campus da instituição.

Mais do que discutir profissões ou tendências, a proposta do Congresso é compreender como o audiovisual brasileiro está sendo transformado e quais caminhos podem ser construídos coletivamente para fortalecer a formação, a diversidade, a sustentabilidade e a relevância social do campo.

Na Entrevista Nota 10 desta semana, Lanza Xavier analisa as transformações do mercado e do ensino da área no país, além de comentar as expectativas para o Congresso Forcine 2026, que acontecerá na Unifor.

Leia a entrevista na íntegra a seguir.

Entrevista Nota 10 — As plataformas de streaming e o avanço da inteligência artificial estão reconfigurando a cadeia produtiva do audiovisual. Como as escolas de cinema no Brasil estão (ou deveriam estar) se adaptando para não apenas seguir essas tendências, mas formar profissionais capazes de pensar essas tecnologias de forma crítica? O que você acredita que deveria ser prioridade nesse debate hoje?

Lanza Xavier — Acho que o primeiro cuidado é não transformar as escolas de cinema em espaços que simplesmente correm atrás da última tecnologia. Quando uma tecnologia chega à universidade, muitas vezes o mercado já está discutindo a próxima. Então, para mim, a questão não é formar um estudante para dominar uma determinada plataforma ou ferramenta, mas formar alguém capaz de compreender criticamente as transformações e continuar aprendendo ao longo da vida.

Na minha pesquisa com egressos (tese de doutorado defendida em março de 2025), isso apareceu de maneira muito clara. O campo audiovisual já havia se expandido para cinema, televisão, streaming, produção para mídias sociais e outras formas de consumo, exigindo que o profissional transitasse entre diferentes funções e contextos. Ao mesmo tempo, uma das marcas mais fortes deixadas pela universidade foi justamente a capacidade crítica e reflexiva: pensar o audiovisual para além da técnica.

A inteligência artificial não foi objeto específico da minha tese, mas eu a vejo como uma aceleração dessa transformação que a pesquisa já identificava. Portanto, a prioridade, hoje, deveria ser juntar duas coisas que às vezes aparecem separadas: formação tecnológica e formação crítica. Precisamos ensinar IA, streaming, novas linguagens e novos modelos de produção, sim, mas também discutir autoria, ética, direitos, trabalho, diversidade, sustentabilidade e os impactos dessas tecnologias sobre as profissões. É exatamente esse equilíbrio entre inovação e formação crítica que o Congresso FORCINE 2026 coloca no centro do debate.

Entrevista Nota 10 — O Ceará tem se consolidado como um polo criativo e potente do cinema nacional contemporâneo, com obras circulando em grandes festivais. Qual a sua percepção profissional sobre essa cena local? Na sua visão, qual o papel das escolas e universidades locais para a manutenção e expansão desse protagonismo fora do eixo Rio-São Paulo? 

Lanza Xavier — Eu vejo o Ceará como um exemplo muito significativo de como um ecossistema audiovisual pode se fortalecer quando criação, formação, políticas públicas e circulação começam a se retroalimentar. Não estamos falando apenas de uma produção regional tentando chegar ao centro: estamos falando de uma cinematografia que já circula internacionalmente. 

Isso dialoga muito com algo que encontrei na tese. Um dos egressos relatava a dificuldade de entrar no mercado vindo de uma universidade federal do extremo Sul, fora dos circuitos historicamente mais reconhecidos de formação e produção. Acho que essa lógica de centro e periferia está sendo profundamente tensionada.

E as escolas têm papel fundamental nisso. Elas não apenas formam mão de obra. Elas criam redes, formam repertório, produzem pesquisa, estimulam novas narrativas e fazem com que os estudantes se reconheçam como parte de uma comunidade profissional. Na minha pesquisa, os laços e as redes aparecem como parte importante da inserção profissional, assim como festivais, eventos de mercado, contato com profissionais e networking.

Por isso, fortalecer escolas e universidades no Ceará é também fortalecer a possibilidade de que profissionais permaneçam, criem e consolidem um mercado a partir do próprio território, sem que a validação profissional dependa necessariamente da migração para Rio ou São Paulo.

Entrevista Nota 10 — Em 2026, o tema do Congresso Forcine é “Que trabalho é esse?! Reinvenção e transformação no audiovisual brasileiro”. Sobre o que se trata esse “trabalho” que está emergindo hoje e quais são os maiores gargalos de empregabilidade que o Congresso pretende debater? Conta um pouco sobre os principais objetivos do evento. 

Lanza Xavier — Talvez essa seja justamente a pergunta para a qual não exista mais uma resposta única. Na minha tese, eu comecei tentando compreender quem era o profissional formado em Cinema e Audiovisual e encontrei uma identidade muito mais fluida do que imaginava. Os egressos transitam entre diferentes funções, e o generalismo aparece tanto como possibilidade de atuação quanto como estratégia de sobrevivência no mercado.

Hoje, o profissional pode dirigir, produzir, montar, escrever projetos, trabalhar com publicidade, conteúdo digital, streaming, produção autoral, dar aula — e combinar várias dessas atividades ao mesmo tempo. Então, quando perguntamos “que trabalho é esse?”, estamos falando também dessa dissolução das fronteiras tradicionais da profissão.

E aí aparecem alguns gargalos importantes. Um deles é a passagem entre a universidade e o mundo do trabalho. Os egressos que pesquisei relataram dificuldade em se sentirem “prontos” para o mercado e um choque entre um ambiente acadêmico, no qual experimentação e reflexão são estimuladas, e um mundo profissional orientado por prazos, orçamento e expectativas comerciais. Outro ponto é que a empregabilidade aparece muito relacionada a portfólio, experiência prática e redes de contato, e não apenas ao diploma.

É justamente esse conjunto de questões que o Congresso quer discutir: os impactos das transformações tecnológicas, econômicas e culturais na formação e nas trajetórias profissionais; quais competências o setor está demandando; e como as escolas podem responder sem abandonar uma formação crítica, criativa e cidadã.

Eu diria que o Congresso não pretende responder definitivamente “que trabalho é esse?”. Queremos qualificar essa pergunta coletivamente.

Entrevista Nota 10 — Realizar o congresso deste ano em Fortaleza, sediado na Unifor, traz o centro das discussões nacionais sobre ensino para o Nordeste. Quais são as suas maiores expectativas em relação às trocas entre pesquisadores, gestores e os estudantes, especialmente os locais, durante esses dias?

Lanza Xavier — Para mim, levar o Congresso para Fortaleza tem também um significado político e simbólico: deslocar o centro da discussão. O FORCINE é nacional, então é fundamental que nossos debates circulem pelo país e encontrem diferentes realidades de formação e produção. O Congresso acontece de 26 a 28 de agosto na Unifor justamente reunindo docentes, estudantes, pesquisadores, realizadores, gestores públicos e representantes do setor para discutir formação, inovação, tecnologia, mercado e sociedade.

Tenho uma expectativa muito grande, especialmente em relação aos estudantes. Não gostaria que eles fossem apenas a plateia do Congresso. Quero que percebam que as discussões sobre currículo, mercado, inteligência artificial, trabalho e políticas para o audiovisual dizem respeito diretamente ao futuro profissional deles.

Também acredito muito na troca entre gerações. Uma coisa que apareceu na minha pesquisa foi a distância que pode existir entre o espaço da formação e o mundo profissional. O contato, ainda durante a graduação, com egressos e profissionais do setor pode tornar essa transição mais consciente. Nesse sentido, o Congresso pode funcionar como um espaço onde universidade e mercado deixam de conversar um sobre o outro e passam a conversar um com o outro.

Entrevista Nota 10 — Um ecossistema audiovisual forte não é feito apenas por diretores e técnicos de set, mas também por pareceristas, curadores, gestores públicos e líderes associativos. De que forma o ensino superior pode despertar no estudante esse olhar político, formando lideranças capazes de gerir o setor e negociar com o poder público? Por que esse movimento também é importante para a formação profissional? 

Lanza Xavier — Acho que precisamos ampliar aquilo que entendemos por “profissional do audiovisual”. Quando um estudante entra em um curso de Cinema, é muito comum imaginar seu futuro como diretor, roteirista, produtor, fotógrafo, montador ou técnico. Mas o ecossistema precisa também de pessoas capazes de formular políticas, avaliar projetos, gerir instituições, organizar festivais, participar de associações, atuar em conselhos e dialogar com o poder público.

Minha tese não pesquisou especificamente a formação de lideranças, mas ela aponta para algo que considero fundamental nessa discussão: a universidade deixa como marca uma capacidade de pensar criticamente o próprio campo, e não apenas de executar uma técnica.

Então, para mim, despertar esse olhar político significa fazer com que o estudante compreenda que ele faz parte de um setor. Precisa conhecer como funcionam as políticas públicas, o financiamento, os editais, as entidades representativas, a legislação, os mecanismos de participação e as disputas que constroem esse campo.

Isso também é formação profissional. Porque quem conhece o ecossistema consegue não apenas procurar um lugar dentro dele, mas participar de sua transformação. E precisamos formar profissionais que sejam capazes de disputar e construir os rumos do audiovisual brasileiro, não apenas se adaptar às condições que encontrarem.

Entrevista Nota 10 — Hoje, pensar em cinema é pensar em coproduções e num mercado global. De que forma o ambiente universitário — e podemos usar o ecossistema de pesquisa e inovação da Unifor como exemplo — pode preparar o aluno para transitar no mercado internacional, seja em rodadas de negócios ou festivais? Como você enxerga o impacto da Unifor nesse assunto?

Lanza Xavier — Eu começaria dizendo que internacionalização não significa simplesmente ensinar o estudante a “vender um filme para fora”. Significa formar alguém que compreenda como o audiovisual circula internacionalmente.

Isso envolve idiomas, obviamente, mas envolve também saber apresentar um projeto, construir um pitch, compreender coprodução, conhecer festivais e mercados, preparar um portfólio, estabelecer redes profissionais e, sobretudo, saber reconhecer qual é a identidade do próprio projeto.

Na minha pesquisa, festivais, eventos de mercado, conexões profissionais, estágios e networking aparecem justamente como caminhos capazes de aproximar a formação da realidade profissional. Eu acrescentaria a isso a necessidade de fazer com que o estudante compreenda que sua formação não precisa estar limitada geograficamente.

A universidade tem uma posição privilegiada para criar essas pontes porque reúne ensino, pesquisa, inovação e experimentação. No caso da Unifor, isso ganha ainda mais interesse porque existe um curso consolidado de Cinema e Audiovisual, que obteve novamente conceito máximo do MEC, e já vemos egressos ligados a produções presentes em circuitos internacionais como a Berlinale de 2026.

Então, eu enxergo a internacionalização não como algo que acontece depois da graduação, mas como algo que pode começar dentro da universidade: trazendo profissionais internacionais, estimulando coproduções, aproximando estudantes de laboratórios e mercados, colocando-os em contato com pesquisas de outras áreas e criando situações em que precisem apresentar seus projetos para interlocutores que não pertencem ao seu círculo habitual.

Acho que há um fio que une todas as respostas: não formar o profissional para caber em um mercado que já existe, mas formar alguém capaz de compreender, atravessar e também transformar um mercado em permanente mudança. Isso conversa diretamente com a principal inquietação da minha tese — “formamos cineastas, artistas, realizadores audiovisuais, streamers ou tudo isso junto?”

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