Entrevista Nota 10: Sara Guerra e a psicologia jurídica como fronteira entre a saúde mental e a garantia de direitos

seg, 31 agosto 2026 18:29

Entrevista Nota 10: Sara Guerra e a psicologia jurídica como fronteira entre a saúde mental e a garantia de direitos

A coordenadora da comunidade Psicologia Jurídica Ceará fala sobre o conceito e o mercado de trabalho da área, além de pontuar a formação necessária para se destacar na profissão e a importância do I Simpósio Cearense de Psicologia Jurídica para fortalecer essa rede profissional


Mestre e doutora em Psicologia, Sara é psicodramatista e professora do curso de Psicologia e da Especialização em Psicologia Jurídica da Unifor (Foto: Arquivo pessoal)
Mestre e doutora em Psicologia, Sara é psicodramatista e professora do curso de Psicologia e da Especialização em Psicologia Jurídica da Unifor (Foto: Arquivo pessoal)

Quando pensamos em psicólogos, é comum imaginá-los nos consultórios e clínicas onde realizam acompanhamento psicoterapêutico. No entanto, existe um ramo da psicologia que não só é amplo como vem crescendo cada vez mais, conectando a saúde mental com o universo do direito: a psicologia jurídica.

Segundo a psicóloga clínica e jurídica Sara Guerra, professora do curso de Psicologia e da Especialização em Psicologia Jurídica da Universidade de Fortaleza — instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz —, o psicólogo que atua nessa área é interdisciplinar, ocupando-se com as relações sociais e a saúde mental tanto das pessoas atendidas nos espaços de garantia de direitos quanto dos demais profissionais que trabalham nesses locais.

“Nós [psicólogos jurídicos] tanto damos assistência a essas pessoas para garantir direitos, para refletir sobre seus direitos, quanto ajudamos nas decisões com os juízes perante as leis, além de ajudarmos no programa de proteção à vítima e à testemunha. A psicologia jurídica é uma grande área que comporta várias subáreas”, explica a coordenadora da comunidade Psicologia Jurídica Ceará e da Comissão de Psicologia Jurídica do Conselho Regional de Psicologia da 11ª Região (CRP11).

Com o intuito de fortalecer essa rede de profissionais, o Grupo de Estudos em Psicologia Jurídica (GEPJ) da Unifor, do qual Sara é orientadora, promove o I Simpósio Cearense de Psicologia Jurídica. O evento acontece no dia 9 de setembro, no campus da Universidade, e reunirá profissionais, pesquisadores e estudantes para discutir a atuação da Psicologia Jurídica em diferentes áreas.

Mestre e doutora em Psicologia, Sara é psicodramatista e membro do Laboratório de Estudos dos Sistemas Complexos: Casal, Família e Comunidade (Lesplexos). Também atua como orientadora da Liga de Gestão de Conflitos (LAGEC), do Núcleo de Estudos em Psicologia Jurídica (Pacífica) e da Liga Acadêmica de Saúde Mental e Dependência Química (LASM), todos da Unifor.

Na Entrevista Nota 10 desta semana, ela explica o que é psicologia jurídica e apresenta um panorama desse mercado de trabalho, além de destacar a importância do I Simpósio Cearense de Psicologia Jurídica para fortalecer essa rede profissional.

Leia a entrevista na íntegra a seguir.

Entrevista Nota 10 — O que faz um psicólogo jurídico e qual a importância desse profissional no sistema de justiça atual?

Sara Guerra — O psicólogo jurídico é um profissional que trabalha interdisciplinarmente — com profissionais do direito, serviço social, pedagogia, ciências sociais —, multidisciplinarmente, frisando tanto as relações sociais, a saúde mental das pessoas que são atendidas dentro dos espaços de garantia de direitos, como também das pessoas que trabalham dentro desses espaços.

[É necessário] pensar a psicologia como uma área que abrange várias áreas, sub-áreas, seja ela forense, seja área de perícia, de avaliação, nas varas de família, civil, na área criminal, prisional, no suporte a vítimas, testemunhas, nas mediações de conflitos, com pessoas com deficiência, idosos, com população indígena, LGBT, enfim.

Nós tanto damos assistência a essas pessoas para garantir direitos, para refletir sobre os seus direitos, quanto ajudamos nas decisões com os juízes, perante as leis, além de ajudarmos no programa de proteção à vítima e testemunha. A psicologia jurídica é uma grande área que comporta várias subáreas.

Então, como eu já falei anteriormente, medidas socioeducativas, com adolescentes que cometem ato infracional, acolhimento institucional, adoção e tantas outras áreas que acabamos atuando junto, tanto na parte de prevenção como na elaboração de normativas, na discussão, na prevenção e também na intervenção quando um direito é violado.

É importante também discutirmos que essa atuação dentro do sistema [jurídico] pode ser na parte de prevenção, na parte de assistência, ajudar a tomada de decisões mais justas em caso de família, infância, criminal, mas também na parte de mediação de conflitos, de acompanhamento desse processo. Uma das mesas que vamos discutir [no I Simpósio Cearense de Psicologia Jurídica] vai ser exatamente sobre o acompanhamento pós, ou no período que ainda está tendo trâmite legal do julgamento, com homens autores de violência. Temos atendimentos individuais, mas também temos muito atendimento grupal.

Então, a psicologia jurídica está abrangendo o antes, o durante e o depois do acompanhamento, a garantia desses direitos, a conscientização — não somente garantir, mas também a conscientizar — de quais são esses direitos, pensar nessa justiça social, na proteção desses direitos humanos, principalmente com pessoas que estão nessa situação de vulnerabilidade.

Entrevista Nota 10 — Temos visto um crescimento da psicologia jurídica no Brasil e, mais especificamente, no Ceará. Como você avalia esse cenário recente?

Sara Guerra — Como eu já falei, a psicologia jurídica é uma área que abrange muitas áreas de atuação. Dentro do mercado de trabalho é possível atuar na parte vitimológica, na parte criminal, na parte de perícia, dentro de instituições de proteção, na prevenção. A nossa área de trabalho é muito abrangente. Quando falamos de psicologia jurídica, o mercado de trabalho é algo que abrange várias áreas e, para entrar nelas, pode ser através de concurso público, através de seleção, através de cargos que são indicados para nossa área.

Então, temos um bom acesso. O mercado de trabalho é algo que acaba dando acesso a muitas pessoas, mas também [exige] que elas tenham qualificação. Tem muitos trabalhos que podemos executar, mas também precisamos dessa qualificação, dessa especialização, de uma formação mais voltada para essa área.

Entrevista Nota 10 — E, pensando no mercado de trabalho de hoje, onde estão as principais oportunidades de atuação para esses profissionais?

Sara Guerra — Eu vou focar aqui em algumas áreas de atuação. Tem a mais conhecida que é a parte de perícia, assistência técnica, mas temos a mediação de conflitos, o apoio familiar, os grupos junto às alternativas penais, dentro do sistema prisional. Tem também o trabalho com as vítimas de violências, tanto na parte de violência doméstica como violência sexual à criança e aos adolescente, tem atuação junto à população LGBTQIAPN+.

Tem ainda acolhimentos institucionais na parte de adoção, os processos burocráticos, acompanhando o antes, o durante e o depois de quem está na adoção, tanto de quem se vincula — como as crianças e os adolescentes — como também quem se propõe a adotar. Tem o trabalho nas medidas socioeducativas, na justiça restaurativa, que está imensa tanto dentro da parte penal como também na parte das medidas socioeducativas, o trabalho na defensoria pública, na parte de direitos humanos da defensoria pública, no Ministério Público.

Temos uma gama de atuações. Tanto podemos trabalhar no CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), na assistência social, como podemos trabalhar dentro da alta complexidade, nas instituições de acolhimento. Então, você vai ver que temos várias áreas de atuação.

Entrevista Nota 10 — A atuação do psicólogo na justiça envolve casos de alta densidade, como disputas de guarda, adoção ou questões penais. Qual é o perfil técnico e emocional necessário para lidar com essa realidade e se destacar na área?

Sara Guerra — A primeira coisa que eu indico é o autocuidado desses profissionais que estão dentro da área da psicologia jurídica. Enquanto psicóloga jurídica, costumo dizer que o psicólogo tem que se cuidar, mas também cuidar da sua rede. Os juízes, promotores, defensores, operadores do direito, assistentes sociais, pessoas interessadas nessa área, elas devem também buscar o seu autocuidado, devem buscar também formação.

Esse Simpósio Cearense de Psicologia Jurídica é um espaço de formação, de debate, de trocas de experiências, de fortalecimento da nossa rede de trabalho. Porque, muitas vezes, nos vemos tão voltados para o nosso trabalho que, quando nos juntamos, vemos outros trabalhos, mas também reiteramos o nosso. Então, acaba que não somente a parte de terapia, não somente a parte de autocuidado, mas também a parte formativa e de supervisão e de estudo é essencial para esse desenvolver das nossas atividades.

Entrevista Nota 10 — Até que ponto o psicólogo precisa “mergulhar” no Direito para fazer um bom trabalho?

Sara Guerra — É interessante essa pergunta. O psicólogo tem que entender quais são os direitos que essas pessoas precisam ter garantidos. O operador do direito sabe do processo burocrático, do processo e da garantia do direito, enquanto profissional do direito. Mas o psicólogo tem que entender, sim, sobre as políticas públicas, sobre como garantir os direitos dessas pessoas que vamos assistir ou que são assistidas, entender de justiça social.

É muito importante entendermos como funciona o sistema de garantia de direitos, as redes, as complexidades do SUS, do SUAS, entender de legislações que amparam a assistência social, a saúde, a educação. Então, o psicólogo jurídico acaba tendo um olhar sistêmico dessa legislação e, principalmente, fazendo um trabalho de conscientização sobre como garantir, como fortalecer essas políticas públicas e a garantia desses direitos.

Entrevista Nota 10 — Para formar profissionais com esse nível de preparo, a graduação e as especializações têm um papel fundamental. Como a Unifor, especialmente por meio do curso de Psicologia e do Grupo de Estudos de Psicologia Jurídica, ajuda a construir esse perfil humanizado e de excelência? Quais são os principais diferenciais dessa formação?

Sara Guerra — Começando pela graduação [em Psicologia da Unifor], nós temos agora uma disciplina que é de Psicologia Jurídica. Ela se tornou obrigatória, antes era optativa. Os alunos têm acesso a uma disciplina que é teórico-prática dentro da graduação. Além disso, nós temos grupos de estudos. Tem o Grupo de Estudos em Psicologia Jurídica e tem também a Liga de Gestão de Conflitos. Então, esses dois espaços são complementares às disciplinas, à sala de aula.

Nós temos uma comunidade, que é a Comunidade de Psicologia Jurídica Ceará. Essa página, que é um perfil também no Instagram, por lá as pessoas acessam essa comunidade e lá compartilham de várias temáticas, sejam elas medidas socioeducativas, grupos de masculinidade, grupos com autores de violência, sobre violência doméstica, sobre violência sexual, justiça restaurativa. Então, dentro dessa Comunidade de Psicologia Jurídica Ceará, que é um grupo complementar de estudos, de formação, nós nos reunimos e montamos essa rede de apoio.

Além disso, temos a nossa pós-graduação na Unifor, a Especialização em Psicologia Jurídica, que é fabulosa. Ela começou esse ano uma nova turma, que traz profissionais maravilhosos, de qualidade. 

Entrevista Nota 10 — É justamente esse Grupo de Estudos em Psicologia Jurídica da Unifor que está promovendo, no dia 9 de setembro, o I Simpósio Cearense de Psicologia Jurídica. Qual a importância de um evento inédito como esse para fortalecer a rede de profissionais e estudantes aqui no nosso estado? O que o Colóquio busca promover ou responder?

Sara Guerra — O nosso Grupo de Estudos em Psicologia Jurídica da Unifor está promovendo esse evento junto com a Comunidade Psicologia Jurídica Ceará e a Liga de Gestão de Conflitos da Unifor. Temos a importância de fortalecer mesmo essa rede com profissionais fabulosos. Nós temos, no Estado do Ceará, profissionais que são referências e trabalhos, atuações dentro das políticas públicas que são referência, e pouco se fala.

Então, neste simpósio, o objetivo vai ser mostrar o rosto da nossa atuação, seja ela com criança, adolescente, com jovens, com população indígena, população LGBTGQIAPN+, com a parte de perícia, a parte de depoimento, escuta e cuidado às vítimas, a parte de acolhimento institucional. Temos muito é que mostrar o nosso trabalho.

Esse simpósio, além de ser um grande encontro entre profissionais, estudantes, pessoas interessadas pelo tema — não só psicólogos, mas também operadores do direito, pessoas do serviço social —, também vai ser um momento de mostrar o que a psicologia jurídica no Ceará está fazendo. Nós somos referência. Várias e várias ações e políticas públicas foram reiteradas. As pessoas vêm de outros estados e até mesmo países para estudar, para entender como é a nossa atuação aqui. Temos que dar importância e dar mais visibilidade a como é a nossa atuação aqui dentro do nosso estado.

Entrevista Nota 10 — O tema do Simpósio é “Psicologia Jurídica no Ceará: interfaces entre clínica, justiça e políticas públicas”. Na prática do dia a dia, como é o desafio de alinhar o olhar clínico e humano para o indivíduo com as exigências rígidas da Justiça e a realidade das nossas políticas públicas? O Ceará se destaca de alguma maneira nessa discussão?

Sara Guerra — Quando falamos de clínica, a clínica também é social: tem pessoas, tem um sistema ali quando estamos atendendo. Então, quando vamos falar de justiça, não falamos de justiça somente para uma certa população, falamos para todos. Tentar alinhar quais são essas ações que vão para além do espaço clínico, dentro das nossas clínicas, mas sair da nossa clínica e trazer a justiça, as políticas públicas, a garantia de direitos para essas pessoas que atendemos — mas não só na clínica, também nos espaços sociais, nas instituições —, é o grande objetivo também deste simpósio.

Além disso, entender como articula e o que tem de efetividade dessas políticas públicas. Porque tem coisas brilhantes que são possíveis de acontecer, que estão acontecendo, mas também mostrarmos as fragilidades, os obstáculos, devido a essa falta de momentos que temos. Não há tantos momentos, não tem tantos encontros, e precisamos falar quais são essas fragilidades para fortalecer. Então, esse encontro vai ser exatamente para fortalecer a nossa rede, para mostrarmos o que tem sido feito e pensar nesses obstáculos como uma forma de nos fortalecer, de melhorar a nossa comunicação e a nossa articulação aqui no Estado.

E, sim, o Ceará é referência em várias políticas públicas, tanto de grupos (como os autores de violência) como no suporte, no atendimento, na oitiva a vítimas de violência, testemunhas de violência. Nós temos redes e programas aqui na nossa prefeitura [de Fortaleza] e no nosso estado também, que faz o acompanhamento da família, das vítimas, temos muitas políticas, temos as oficinas de parentalidade. Tem tantos trabalhos brilhantes que fazemos questão de, nesse simpósio, mostrar o que tem sido feito. Sobre a população indígena, na nossa secretaria de saúde, o que está sendo garantido para os povos originais, para os povos indígenas, dentro do Ser Trans, que é um ambulatório de atendimento às pessoas trans, o que tem sido garantido de direito a essas pessoas. Acabamos sendo referência nisso também.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Mestre e doutora em Psicologia, Sara é psicodramatista e professora do curso de Psicologia e da Especialização em Psicologia Jurídica da Unifor (Foto: Arquivo pessoal)

Entrevista Nota 10: Sara Guerra e a psicologia jurídica como fronteira entre a saúde mental e a garantia de direitos

O sigilo de fonte é um direito garantido na Constituição Federal para o exercício profissional do jornalismo (Foto: Sima Ghaffarzadeh/Pexels)

Sigilo de fonte e o caso Flávio Dino: como um direito jornalístico ajuda a proteger a democracia