Entrevista Nota 10: Soleiman Dias e a educação no crescimento da Coreia do Sul

seg, 8 agosto 2022 10:25

Entrevista Nota 10: Soleiman Dias e a educação no crescimento da Coreia do Sul

Egresso da Unifor e PhD em Relações Internacionais faz um paralelo entre a educação da Coreia do Sul e do Brasil, além de pontuar a importância do ensino no desenvolvimento econômico de um país


Soleiman Dias é membro da Academia de Ciências Sociais do Ceará e preside o Conselho Coreano de Escolas Internacionais (KORCOS). (Foto: Lucas Plutarcho)
Soleiman Dias é membro da Academia de Ciências Sociais do Ceará e preside o Conselho Coreano de Escolas Internacionais (KORCOS). (Foto: Lucas Plutarcho)

De Fortaleza para o mundo. É assim que, resumidamente, aconteceu a trajetória do PhD em Relações Internacionais Soleiman Dias, egresso da Universidade de Fortaleza, instituição de ensino da Fundação Edson Queiroz. O mestre em Educação Internacional é especialista em Estudos Coreanos pela Universidade de Hanyang, na Coreia do Sul, onde já mora há mais de duas décadas.

Tendo lecionado em diversas escolas e universidades internacionais – como a Princeton University, nos Estados Unidos, e a Kyung Hee University, na Coreia do Sul –, hoje Soleiman é o Diretor de Relações Internacionais da Chadwick International School. A instituição é uma escola-modelo para o mundo nas áreas de inovação, formação de líderes globais, desenvolvimento do caráter do indivíduo, aprendizado fora da sala de aula e estudo independente.

O fortalezense carrega um extenso e notável currículo de capacitações e cargos de liderança. Dentre eles, o de presidir o Conselho Coreano de Escolas Internacionais (KORCOS), a associação mais antiga de educadores profissionais internacionais na Coreia. Também é fundador e presidente da Associação Brasil-Coreia e membro da Academia de Ciências Sociais do Ceará.

Em sua dissertação de doutorado, o professor abordou a Cooperação Internacional com um estudo comparativo entre as associações de países do Cone Sul (Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai) com os do Sudeste Asiático. Unindo seus dois principais focos, Soleiman Dias conversa com o Entrevista Nota 10 sobre a educação como fator de desenvolvimento na Coreia do Sul, além da relação internacional entre o país oriental e o Brasil em seus sistemas de ensino.

Confira a entrevista completa a seguir.

Unifor Notícias – Como a Coreia do Sul tornou a educação referência mundial? Quais fatores contribuíram para isso?

Soleiman Dias – A educação tem sido um fator chave no rápido crescimento econômico da Coreia do Sul nas últimas cinco décadas. Desde a década de 1960, os planos de desenvolvimento econômico liderados pelo governo coreano têm sido diretamente na política e no planejamento da educação. O governo (local e federal) tem sido geralmente bem sucedido em fornecer e expandir o sistema de educação com base nas necessidades industriais para recursos humanos.

Como resultado, o sistema educacional se desenvolveu em conjunto com as várias fases do desenvolvimento econômico. Educação sempre foi prioridade para o governo, e o povo, coreano. O plano nacional de educação passou do ensino primário para o secundário e, finalmente, para o nível superior, de acordo com o progresso econômico do país. A rápida expansão da educação em termos de quantidade é a característica mais destacável do desenvolvimento educacional durante a industrialização do país.

O investimento educacional, sem dúvida, desempenhou um papel significativo no rápido crescimento econômico da Coreia do Sul. As estratégias de desenvolvimento tinham que se concentrar em alcançar o crescimento da produtividade aumentando consistentemente o valor agregado da produção. Para alcançar isto, era necessária uma massa de trabalhadores altamente qualificada.

Unifor Notícias – Quais são as principais semelhanças e diferenças entre a educação do Brasil e a da Coreia do Sul?

Soleiman Dias – Algumas semelhanças: 

  • Inglês é ensinado desde o ensino fundamental (na Coreia, a partir da terceira série).
  • Os professores normalmente vão de sala em sala, enquanto os alunos ficam em um só lugar. 
  • Os professores já não têm autoridade legal para administrar castigos corporais nos alunos com problemas de disciplina. 
  • Um grande foco nas provas em vez do aprendizado como um todo, como acontece em alguns outros países. 
  • Após o ensino médio, os alunos devem fazer um exame de admissão para determinar a faculdade que irão frequentar depois.

Algumas diferenças [na Coreia]:

  • Todas as escolas, públicas e privadas, são de tempo integral. Um dia típico para os alunos do ensino médio inicia por volta das 8h. As aulas têm duração de 50 minutos cada, com um pequeno intervalo e 50 minutos de almoço. A parte da tarde recomeça por volta das 13h e as aulas continuam até cerca das 16h e 16h30, seguindo-se a limpeza da sala de aula. 
  • As turmas em muitas escolas de ensino médio ainda são divididas de acordo com o sexo. Existem ainda muitas escolas somente para garotos e outras para meninas. 
  • O currículo primário consiste em nove disciplinas principais: educação moral, língua coreana, estudos sociais, matemática, ciências, educação física, música, artes plásticas e artes práticas. 
  • Normalmente, os alunos regressam à biblioteca da escola para estudar ou frequentar cursinhos e aulas particulares até às 22h, por vezes até meia-noite.
  • O calendário escolar tem dois semestres, sendo o primeiro de março a julho e o segundo de setembro a fevereiro. 
  • Os problemas de disciplina são raros e é evidente um grande respeito pelos professores. 
  • Os pais desempenham um papel enorme na educação de seus filhos na Coreia. Há uma expectativa que os pais venham à escola para ajudar a preparar o almoço (que é gratuito), limpar as salas de aula e atuar como guardas de cruzamento de trânsito em frente à escola.

Unifor Notícias – O que o Brasil tem a aprender com a Coreia do Sul na área da educação?

Soleiman Dias – Envolver os pais na educação de seus filhos. A primeira coisa que os sul-coreanos estão fazendo certo é envolver os pais na educação de seus filhos, sempre presentes na escola, voluntariando nos eventos, em permanente contato com os professores e administradores. 

Investimentos financeiros pesados do governo local e federal no setor de educação. A educação sempre foi prioridade nas políticas governamentais.

Empregar tecnologia de ponta em nosso sistema escolar. Livros didáticos não são mais necessários. O conteúdo educacional pode ser encontrado em material disponível online que é acessado de qualquer lugar. 

Incutindo uma cultura de sucesso acadêmico. Na verdade, todo o país faz um grande esforço para ajustar suas atividades diárias para acomodar momentos cruciais na vida do estudante, como o dia do vestibular. Motivar continuamente as crianças para se saírem melhor na escola também pode ajudar. Essa atitude sul-coreana em relação à educação é uma de suas vantagens mais significativas.

Os professores devem receber apoio adequado (inclusive boa remuneração) do governo ou dos seus diretores (se em escolas particulares) e dos pais. Isso os encoraja a alcançar metas mais altas, o que acaba melhorando o sistema educacional como um todo.

Unifor Notícias – A Coreia do Sul está disposta a ajudar principalmente os países em desenvolvimento na área da educação? Caso afirmativo, como eles podem fazer isso e quais as principais iniciativas deles nessa área?

Soleiman Dias – A educação é uma das prioridades do “Plano de Implementação Anual de 2022” do presidente sul-coreano. A “Estratégia de Médio Prazo para Educação 2021-2025” da Agência de Cooperação Internacional da Coréia (KOICA) prevê “desenvolvimento inclusivo por meio de educação de qualidade” em todo o mundo. Sua missão é “garantir direitos à educação para todos, melhorando o sistema educacional e aumentando a participação educacional nos países parceiros”.

A estratégia atual delineia três objetivos estratégicos que buscam garantir uma educação de qualidade inclusiva e equitativa e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos no mundo. São eles:

  • Educação de qualidade e realização de aprendizagem;
  • Educação digital para desenvolver capacidades futuras;
  • Formação profissional e superior para fomentar talentos. 

O Ministério das Relações Exteriores (MOFA) conduz a formulação da política educacional global da Coreia do Sul. Dentro do MOFA, o Departamento de Políticas de Desenvolvimento é responsável pelo desenvolvimento de políticas (especificamente as Divisões de Políticas de Desenvolvimento dentro do Bureau). A Divisão de Cooperação para o Desenvolvimento Multilateral do MOFA gerencia as relações com iniciativas multilaterais de educação.

A KOICA, supervisionada pelo MOFA, é responsável pela implementação de doações bilaterais e outras cooperações técnicas para os países em desenvolvimento. O Korean Export-Import Bank (Korea Eximbank) implementa projetos para o Ministério da Economia e Finanças, principalmente na forma de empréstimos.

Unifor Notícias –  No caso do Brasil, há projetos de parceria em andamento ou em construção? Caso afirmativo, o senhor poderia dar detalhes sobre alguns deles? 

Soleiman Dias –  Sim, existem vários projetos, principalmente no tocante ao intercâmbio de profissionais da educação e alunos. Há também a possibilidade de estudantes de ambos os países se tornarem mentores ou visitarem as instituições parceiras. Programas, projetos e pesquisa aplicada colaborativa em conjunto sobre assuntos relevantes também estão sendo colocados em prática.

Unifor Notícias – O que se projeta para a educação sul-coreana para os próximos anos? 

Soleiman Dias –  Eu acredito que haverá ainda mais investimento no setor educacional. O crescimento dramático da economia coreana também contribuiu significativamente para o valor que os coreanos atribuem ao estudo. Nos últimos 25 anos, o país obteve uma taxa de retorno extraordinariamente alta do investimento em educação, girando em torno de 10%. Isso deve crescer ainda mais nos próximos anos. 

Uma contínua e crescente associação entre o nível de educação e os salários na Coréia. Em 2007, por exemplo, graduados universitários ganhavam até 2,5 vezes mais do que seus colegas com ensino médio completo. Com a rápida industrialização do país, o mercado de trabalho da Coréia é altamente segmentado ao longo da formação educacional. Como tal, a obtenção do ensino superior é vista como essencial para entrar no mercado de trabalho.

Aumento ainda maior da alocação de recursos para a educação. O Ministério da Educação tem um orçamento em torno de 29 bilhões de dólares, seis vezes o que era em 1990. Isso representa cerca de 20% dos gastos do governo central.

Os professores continuarão sendo vistos como uma parte fundamental do desenvolvimento do país: as estatísticas da OCDE colocam a Coreia em 10º lugar no ranking de salários de professores ingressantes.

O currículo deverá se adaptar para suprir as necessidades de uma economia globalizada. O currículo passou por grandes revisões e continuará se transformando para refletir as novas demandas crescentes por educação, as necessidades emergentes de uma sociedade em mudança e as novas fronteiras das disciplinas acadêmicas.

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