seg, 2 fevereiro 2026 15:49
Mercosul e União Europeia: entenda o novo acordo comercial e seus possíveis impactos no Ceará
Após mais de 20 anos de negociações, o tratado de livre comércio entre os dois blocos econômicos reacende debates sobre economia, geopolítica e impactos para o Brasil e a América Latina

Depois de mais de duas décadas de negociações, o Mercosul e a União Europeia finalmente chegaram a um acordo de livre comércio. O anúncio da aprovação, que aconteceu no dia 9 de janeiro, marca um novo capítulo na relação entre os dois blocos e recoloca a América do Sul no centro das discussões sobre comércio internacional, em um cenário global marcado por conflitos geopolíticos, tensões comerciais e pela reorganização das cadeias globais de produção.
Embora o acordo seja visto de forma majoritariamente positiva, ele também desperta críticas e preocupações, especialmente em setores sensíveis da economia, tanto no Brasil quanto na Europa.
O professor Luis Haroldo Pereira, do curso de Comércio Exterior da Universidade de Fortaleza — instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz —, analisa os possíveis desdobramentos desse acordo, destacando que o momento atual foi decisivo para a conclusão da proposta. A seguir, ele explica por que, apesar dos benefícios, o tratado exige cautela e análise cuidadosa.
Um acordo que nasce em um mundo em transformação
Segundo Luis Haroldo, a concretização do acordo neste momento não é fruto do acaso, ele está diretamente relacionado às mudanças profundas na ordem internacional.
“O pano de fundo é a reconfiguração da ordem internacional e a crise do multilateralismo, refletidos em fatores como a Guerra na Ucrânia, a rivalidade entre China e EUA e os temores de novas medidas nacionalistas e protecionistas” — Luis Haroldo Pereira, docente do curso de Comércio Exterior
Do ponto de vista europeu, a aproximação com o Mercosul responde à necessidade de diversificar relações comerciais e reduzir dependências estratégicas. “O agravamento dessas tensões internacionais levou a União Europeia a diversificar seus laços e buscar parceiros confiáveis, a fim de não ficar restrita a um papel secundário e de isolamento nesse mundo em transformação”, explica o professor.
A América do Sul surge, nesse contexto, como uma região relativamente estável, com grande capacidade produtiva em áreas estratégicas como alimentos, energia e matérias-primas. Para o Mercosul, o acordo também tem peso estratégico. A imprevisibilidade da política externa dos Estados Unidos e a crescente presença da China na região reforçaram a necessidade de ampliar parcerias.
Como lembra Haroldo, “com o acordo, a UE mantém-se estrategicamente relevante na região, enquanto os países do Mercosul podem diminuir sua dependência em relação a Pequim”. Assim, o tratado se apresenta como uma resposta conjunta a um mundo mais fragmentado e a cada dia mais incerto.
O que muda, na prática, com o livre comércio?
Apesar da longa negociação, a relação comercial entre Mercosul e União Europeia não começa do zero. A UE já era um dos principais parceiros comerciais do bloco sul-americano, mas essa troca ocorria sem preferências tarifárias e com altos custos regulatórios. O novo acordo busca justamente superar essas limitações, prevendo:
- redução gradual de tarifas,
- abertura de mercados de serviços,
- regras mais claras para investimentos e compras públicas,
- harmonização ou reconhecimento mútuo de normas técnicas e sanitárias.
“O acordo vai além de bens ao incluir serviços, compras públicas, propriedade intelectual, comércio eletrônico e regras sobre investimentos”, explica Haroldo. Na prática, setores como agropecuária, indústria e serviços estão diretamente contemplados.
No caso da agropecuária, produtos como carnes, açúcar, etanol e grãos terão maior acesso ao mercado europeu, ainda que com cotas e salvaguardas para proteger produtores locais. Já na indústria, a redução de tarifas sobre máquinas, equipamentos, produtos químicos e farmacêuticos tende a baratear insumos e aumentar a concorrência.
Para o Brasil, maior economia do Mercosul, os ganhos esperados são significativos. “O Brasil tende a se beneficiar do maior acesso ao mercado europeu, especialmente para produtos do agronegócio”, afirma o professor.
Além disso, o acordo pode estimular investimentos estrangeiros, favorecer a transferência de tecnologia e integrar o país de forma mais sólida às cadeias globais de valor. Ao mesmo tempo, a redução de tarifas sobre bens industriais europeus pode diminuir custos de produção e modernizar setores da economia nacional.
Benefícios, críticas e impactos locais
Apesar do otimismo, o acordo não está livre de críticas. Um dos principais pontos de preocupação diz respeito às questões ambientais. “Organizações ambientais e parte da opinião pública europeia argumentam que o acordo pode estimular a expansão da fronteira agropecuária no Mercosul, contribuindo para o desmatamento, especialmente na Amazônia”, pontua Luis Haroldo. Há dúvidas sobre a efetividade das cláusulas ambientais previstas no tratado e se elas serão suficientes para garantir o cumprimento de compromissos climáticos.
Na Europa, agricultores e pecuaristas também demonstram receio diante da concorrência de produtos do Mercosul, que costumam ter preços mais competitivos. Já no Brasil e em outros países do bloco, setores industriais temem perder espaço para bens manufaturados europeus, que contam com maior capacidade tecnológica e financeira. Como destaca o professor, sem políticas de apoio e adaptação, os efeitos do acordo podem ser desiguais dentro do próprio Mercosul, aprofundando assimetrias entre economias maiores e menores.
Outro ponto importante é que, apesar de o Brasil já ter homologado o acordo, ele ainda passa por análise jurídica e política na União Europeia para poder entrar em vigor. Embora mudanças substanciais no texto sejam pouco prováveis, diz o professor Luis Haroldo, o processo pode gerar ajustes técnicos ou atrasos na implementação.
No Brasil, e especialmente no Ceará, os setores com maior potencial de impacto são:
- agronegócio e agroindústria, com destaque para carnes, frutas, grãos e derivados;
- indústria de transformação, como siderurgia e bens intermediários;
- logística, transporte e serviços ligados ao comércio exterior;
- energias renováveis e transição energética, incluindo hidrogênio verde.
No contexto regional, o Ceará surge como um dos estados brasileiros com maior potencial para se beneficiar do novo cenário. Com o Complexo do Pecém, o estado já ocupa uma posição estratégica nas rotas de exportação. “O Pecém se destaca como um dos portos brasileiros com menor tempo de travessia até a Europa, podendo se consolidar como hub preferencial para exportações e importações associadas ao acordo”, ressalta o professor.
O Terminal Portuário do Pecém é um componente essencial no transporte marítimo, e um de seus propósitos é facilitar a realização de atividades portuárias e industriais integradas, fundamentais para o progresso do Complexo Industrial do Pecém (Foto: Complexo do Pecém)
Além da logística, setores como agronegócio, indústria de transformação e energias renováveis tendem a ganhar impulso. O Ceará já se posiciona como polo de energia eólica, solar e hidrogênio verde, áreas alinhadas às prioridades europeias. O acordo pode facilitar parcerias e investimentos, conectando a produção local às demandas da transição energética da União Europeia.
No final, o acordo entre Mercosul e União Europeia representa uma grande oportunidade, mas também impõe desafios. Ele reforça a importância de planejamento, políticas públicas e estratégias regionais para garantir que os benefícios sejam amplos e sustentáveis. Como mostra a análise do professor Haroldo, mais do que um simples tratado comercial, é um reflexo das transformações do mundo atual e das escolhas que Brasil, Mercosul e Europa fazem para se posicionar nesse novo cenário global.
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