O peso da comida no bolso: como a inflação de alimentos ameaça a saúde e os direitos essenciais dos brasileiros
seg, 17 agosto 2026 15:13
O peso da comida no bolso: como a inflação de alimentos ameaça a saúde e os direitos essenciais dos brasileiros
Com custos acima da inflação geral, docentes da Unifor apontam caminhos econômicos e nutricionais para proteger o consumidor

Ir ao supermercado ou à feira tornou-se um exercício diário de apreensão e malabarismo orçamentário para milhões de famílias no Brasil. A percepção de que colocar comida no prato está cada vez mais difícil não é apenas uma impressão do consumidor: trata-se de um fenômeno econômico estrutural e persistente.
Um estudo recente da organização ACT Promoção da Saúde revelou que, nas últimas duas décadas, o preço dos alimentos subiu sistematicamente acima da inflação geral no país. Entre junho de 2006 e dezembro de 2025, enquanto o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou uma alta de 185,8%, o grupo de alimentação e bebidas registrou uma disparada de 305,1% — e a alimentação no domicílio subiu 303,6%.
A escalada nos preços compromete parcelas cada vez maiores do orçamento doméstico, atingindo com força desproporcional a população de menor renda. Em famílias que ganham até dois salários mínimos, o gasto com alimentação chega a consumir quase um quarto de toda a renda mensal, segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O economista Rodrigo Stefe, professor do curso de Ciências Econômicas da Universidade de Fortaleza (Unifor) — instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz —, explica que o IPCA, calculado pelo IBGE, acompanha a variação de preços para famílias com renda entre 1 e 40 salários mínimos e inclui nove grandes grupos de consumo, como habitação, vestuário e transporte.
“O cálculo é feito por uma média ponderada. Quando a luz sobe pouco e a comida sobe muito, essa média fica no meio do caminho e acaba por diluir o peso específico da alimentação. Isso não representa a dor sentida por quem vai ao supermercado e precisa escolher o que vai levar para casa”, pondera.
Causas estruturais: por que comer no Brasil ficou tão caro?
A alta contínua dos alimentos não é fruto de choques temporários ou meras oscilações sazonais. Trata-se do resultado de transformações profundas na estrutura produtiva e nas escolhas de políticas públicas das últimas décadas. Com base no estudo “A Inflação de Alimentos no Brasil: um fenômeno estrutural, específico e sistêmico”, sobressaem-se fatores como:
- a consolidação do modelo agroexportador,
- a dolarização de insumos,
- a desestruturação dos estoques reguladores do governo.
A expansão agrícola focou-se nas commodities voltadas ao mercado externo (como soja, milho e cana-de-açúcar) em detrimento dos cultivos para abastecimento interno (como arroz, feijão, hortaliças e frutas).
Se em 2006 havia 4,1 vezes mais hectares destinados às commodities do que aos alimentos básicos, em 2025 essa proporção saltou para 12,4 vezes. Além disso, fertilizantes, defensivos e grãos são cotados em dólar. Com a desvalorização cambial, a exportação torna-se atraente, reduzindo a oferta interna e encarecendo a produção doméstica.
Outro fator determinante foi o esvaziamento dos estoques públicos geridos pela Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), uma empresa pública vinculada ao Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA). A CONAB gerencia políticas agrícolas e de abastecimento, assegura preços mínimos aos produtores, forma estoques públicos e executa o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
“Historicamente, o governo comprava grãos nas épocas de supersafra e os liberava nos momentos de crise ou seca, funcionando como um amortecedor de preços. A redução drástica desses estoques estratégicos e o fechamento de armazéns públicos fizeram o país perder a capacidade de suavizar os choques de oferta no supermercado.” — Rodrigo Stefe, economista e docente dos cursos de Ciências Econômicas da Unifor
Somam-se a esse cenário a dependência do transporte rodoviário, sensível ao preço do óleo diesel, e a intensificação de eventos climáticos extremos. Secas e enchentes nas regiões produtoras deixaram de ser exceções para se tornarem um risco permanente na precificação final dos alimentos.
+ SAIBA MAIS | Sem orçamento e armazéns, recomposição de estoques de alimentos ‘patina’
O encarecimento da comida saudável e o avanço dos ultraprocessados
O estudo da ACT também expõe uma grave assimetria: os alimentos frescos e in natura subiram muito mais do que os produtos industrializados. Enquanto as frutas acumularam alta de 516,2%, as carnes 483,5% e os tubérculos/legumes 359,5%, os produtos ultraprocessados registraram aumentos menores, como panificados (240,8%), farinhas/massas (232%) e enlatados/conservas (189,3%).
Historicamente, manter uma dieta baseada em produtos frescos no Brasil era mais barato do que consumir ultraprocessados. Contudo, essa distância encurtou. Pressionadas pelo orçamento, as famílias mais vulneráveis são empurradas para escolhas alimentares de menor valor financeiro, mas de alto custo para a saúde.
A nutricionista Rosiane Herculano, docente do curso de Nutrição da Unifor e ex-membro do Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea Ceará), descreve como esse encarecimento dos alimentos traz mudanças na rotina das famílias.
“Diante da alta de preços, a tendência é trocar alimentos naturais por opções de menor custo, que em geral são ultraprocessadas. Substituem-se carnes magras por cortes gordurosos e embutidos, como salsicha e linguiça, e reduz-se a compra de verduras, legumes e frutas. Nos lanches das crianças, o leite e as frutas dão lugar a biscoitos recheados e refrigerantes”, relata.
Essa transição compromete a qualidade nutricional, resultando no consumo excessivo de sódio, gorduras saturadas e açúcares livres, enquanto priva o organismo de fibras, vitaminas e minerais. “Alimentos de alta densidade nutritiva, como peixes, laticínios, carnes bovinas magras e hortaliças frescas, são os primeiros a sumir do prato do trabalhador”, complementa a professora Rosiane.
Insegurança alimentar, “fome oculta” e os impactos na saúde
O conceito de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) pressupõe o direito de todos ao acesso permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer outras necessidades essenciais. A inflação de alimentos rebaixa esse direito em três estágios:
- Insegurança alimentar leve: compromete-se a qualidade da dieta, migrando para ultraprocessados baratos.
- Insegurança alimentar moderada: ocorre redução da quantidade de comida e fracionamento das refeições.
- Insegurança alimentar grave: culmina na privação total de alimentos e na vivência da fome.
A substituição contínua de comida de verdade por produtos ultraprocessados gera a “fome oculta”: condição em que a pessoa consome calorias suficientes para cobrir sua energia diária, mas permanece metabolicamente desnutrida por falta de micronutrientes.
“A curto prazo, essa alimentação deficiente provoca oscilações glicêmicas, má digestão, letargia e queda na imunidade”, alerta a nutricionista Rosiane Herculano. “A longo prazo, o padrão ultraprocessado dispara os índices de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs), como obesidade, hipertensão, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares. O país passa a conviver com uma dupla carga de má nutrição: a fome e a insegurança alimentar coexistindo com altas taxas de obesidade nas populações de menor renda”.
Em crianças, a falta de proteínas e micronutrientes compromete o crescimento físico e o desenvolvimento cerebral, prejudicando o aprendizado e aumentando as faltas escolares por infecções. Nos adultos, gera fadiga crônica e picos de indisposição, reduzindo a produtividade e sobrecarregando o sistema de saúde.
Caminhos para a insegurança financeira e alimentar
A pesquisa da ACT conclui que a inflação de alimentos no país deixou de ser apenas sazonal ou conjuntural e se tornou um problema estrutural e sistêmico de oferta. Por isso, medidas monetárias tradicionais possuem eficácia limitada.
“Subir a taxa básica de juros (Selic) combate a inflação provocada por excesso de consumo, mas não faz o feijão ou o tomate voltarem à prateleira”, avalia o economista Rodrigo Stefe. A solução, segundo ele, depende do fortalecimento da política de abastecimento interno.
De acordo com o professor, entre as ferramentas econômicas e políticas públicas para amenizar o problema, destacam-se:
- Recomposição dos estoques públicos reguladores
Ampliação dos aportes para a CONAB comprar e armazenar grãos estratégicos, contendo picos inflacionários em momentos de seca. - Fortalecimento da Agricultura Familiar
Incentivo de crédito e apoio logístico aos pequenos produtores, responsáveis por abastecer as feiras e cidades com alimentos frescos. - Expansão do Seguro Agrícola
Proteção financeira aos produtores rurais diante de perdas climáticas e investimento em infraestrutura. - Proteção Social
Transferências diretas de renda para garantir o poder de compra das famílias vulneráveis.
Do ponto de vista nutricional, a professora Rosiane Herculano aponta estratégias de baixo custo para mitigar perdas na mesa.
“É possível garantir uma base nutritiva priorizando a combinação de cereais e leguminosas, como arroz e feijão, e incluindo ovos e miúdos como fontes acessíveis de proteína. Para hortaliças e frutas, a melhor escolha é acompanhar o calendário de safras regionais, utilizar tubérculos nutritivos (como mandioca e batata-doce) e priorizar feiras livres no final do expediente para adquirir produtos frescos a custos menores.” — Rosiane Herculano, nutricionista e docente do curso de Nutrição da Unifor
Em suma, enfrentar a escalada na inflação de alimentos no Brasil exige uma abordagem integrada que conecte a macroeconomia, a saúde pública e a justiça social. Enquanto o país busca reestruturar suas políticas de abastecimento e criar mecanismos para conter os impactos das mudanças climáticas no campo, o acesso à comida de verdade permanece como um pilar inegociável para a dignidade humana.
Estude na Unifor em 2026.2
Com infraestrutura de ponta e corpo docente qualificado composto por mestres e doutores, a Unifor prepara você para liderar os grandes debates da sociedade. Confira as opções de ingresso e inscreva-se no processo seletivo.
Esta matéria está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), contribuindo para o alcance do ODS 2 - Fome Zero e Agricultura Sustentável, do ODS 3 - Saúde e Bem-Estar, do ODS 8 - Trabalho Decente e Crescimento Econômico e ODS 12 - Consumo e Produção Responsáveis.
A Universidade de Fortaleza reitera seu compromisso com a integração do ensino, a pesquisa e a extensão a ações que promovam a transformação social, a saúde e o desenvolvimento sustentável.