Orgulho Unifor: há 30 anos, Marcus Vinícius Cardoso rege afetos e memórias na Camerata

seg, 11 maio 2026 15:45

Orgulho Unifor: há 30 anos, Marcus Vinícius Cardoso rege afetos e memórias na Camerata

O violinista e maestro Marcus Vinicius atravessa três décadas na orquestra de câmara que se tornou símbolo da promoção cultural e da formação musical dentro da Universidade de Fortaleza


Mestre em Arte da Música, Marcus Vinicius participou do nascimento da Camerata, em 1996, quando ainda era aluno de Direito na Unifor (Foto: Marjorie Zaranza)
Mestre em Arte da Música, Marcus Vinicius participou do nascimento da Camerata, em 1996, quando ainda era aluno de Direito na Unifor (Foto: Marjorie Zaranza)

Há histórias que se escrevem em partituras, ensaios e acordes capazes de atravessar gerações. Há também trajetórias que se confundem com a própria identidade de um lugar. Os dois casos fazem parte da jornada do violinista e violista Marcus Vinicius Cardoso da Silva, que é maestro da Camerata da Universidade de Fortaleza, instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz, há quase 30 anos.

Na orquestra de câmara, ele vem conduzindo sua participação com sensibilidade e capacidade de emocionar ao longo das décadas. Entre apresentações marcantes, temporadas de musicais, concertos históricos e convivência cotidiana com estudantes e professores, o regente acompanhou o crescimento da Unifor, as mudanças na cena musical e o fortalecimento da cultura dentro e fora do campus.

Mestre em Arte da Música pela Campbellsville University, nos Estados Unidos, e bacharel em Direito pela Unifor, Marcus Vinicius carrega uma relação profundamente pessoal com o grupo musical, o qual viu nascer e crescer. Ao olhar para trás, o coordenador da Camerata vê na música uma profissão que se estende pela própria vida.

A Unifor e a Camerata fazem parte de minha identidade. Devo muito ao grupo e à instituição por tudo o que me proporcionaram ao longo dos anos”, relata. “O diálogo com os gestores, o público (alunos, professores e funcionários) e os músicos me tornaram uma pessoa que acredita que vale a pena fazer música e que tudo o que foi realizado até hoje é um forte alicerce para o futuro”. 

O nascimento da Camerata

A história da Camerata da Unifor começou de maneira quase espontânea, em 1996, impulsionada pelo olhar atento do então Chanceler Airton Queiroz. A orquestra de câmara surgiu após uma apresentação realizada por estudantes durante um Encontro de Iniciação à Pesquisa. O desempenho dos jovens músicos despertou interesse institucional e abriu caminho para a criação oficial do projeto. 

A partir de uma reunião convocada por Airton Queiroz, por meio dos gestores da antiga Diretoria de Extensão (hoje Vice-Reitoria de Extensão e Comunidade Universitária), a Camerata foi organizada e autorizada a realizar ensaios, preparando-se para atuar em eventos no campus e na capital cearense em nome da Unifor.

Na época, Marcus Vinícius era aluno do curso de Direito e havia se juntado a outros estudantes musicistas, que também participaram da apresentação. “Nos primeiros anos, contávamos com um pequeno grupo de seis músicos (quatro violinos, uma viola e um violoncelo), que trabalhavam arduamente para criar uma identidade do grupo e torná-lo conhecido”, relembra o músico.


Marcus Vinicius (à direita, com o violino) ao lado do então Chanceler Airton Queiroz após apresentação musical da Camerata e do Coral da Unifor (Foto: Acervo Unifor / Restauração digital: Gemini)

Inicialmente, ele atuava como violinista, pois não havia maestro na formação. “Eu fazia a função de spalla do grupo. Spalla é o violinista que lidera um grupo com ou sem maestro, organizando as técnicas de arco e representando o grupo musicalmente através de solos e papéis relevantes nas músicas”, conta. A atuação como regente só começou, de fato, no ano 2000, sendo contratado para coordenar a Camerata da Universidade quatro anos depois.

Os primeiros anos foram marcados pela construção gradual de uma identidade artística, com a Camerata conquistando espaço, reconhecimento e maturidade musical. Hoje, a orquestra de câmara da Unifor é composta por 18 músicos, divididos entre violinos, viola, violoncelo, flauta doce, flauta transversal, clarinete, saxofone e piano.

Com o passar do tempo, a orquestra expandiu repertórios, consolidou sua presença em eventos culturais e passou a dialogar com diferentes linguagens artísticas. O grupo participou de musicais do Grupo Mirante de Teatro Unifor, gravou CDs e dividiu o palco com nomes importantes da música brasileira.

Entre as lembranças mais marcantes, Marcus Vinicius destaca as apresentações ao lado de Belchior, Nonato Luiz, João Carlos Martins e Waldonys. Também guarda com carinho as temporadas de espetáculos teatrais, com as peças “João e Maria”, “A Cigarra e a Formiga”, “A Bela e a Fera”, “O Carnaval dos Animais” e “Dom Quixote”.


Gravação do CD de colaboração entre a Camerata da Unifor e o cantor e sanfoneiro Waldonys, em 2008 (Foto: Acervo Unifor)

Para contribuir na formação constante da música instrumental e erudita, a Camerata sempre realiza audições para receber novos músicos. Artistas como violinistas, percussionistas e pianistas passam por processo seletivo e podem compor o grupo.

Música como formação humana

Ao longo dos anos, a Camerata também se consolidou como espaço de formação para jovens músicos. Em uma orquestra de câmara, cada instrumentista assume protagonismo e responsabilidade individual sobre sua execução. Para Marcus, essa vivência possui um valor que ultrapassa a técnica musical.

“A prática de música de câmara no cotidiano da Camerata é intensa, uma vez que cada instrumentista exerce importante papel em cada música apresentada. Diferentemente de uma grande orquestra, em que vários instrumentistas tocam a mesma voz, em nossa realidade, cada um é único e precisa estar preparado e seguro. Tal experiência é de valor inestimável”, compartilha o regente. 

A convivência dentro da Universidade de Fortaleza também transformou sua forma de ensinar e compreender a música. Inserida em um ambiente acadêmico dinâmico, a Camerata precisou adaptar repertórios, dialogar com novas tendências e aproximar a música erudita da juventude universitária.


“A vida acadêmica é dinâmica e demanda sempre ritmos e movimentos atuais por parte de um grupo musical pertencente a uma instituição de ensino. A Camerata muito marcou minha trajetória de músico e professor na forma de atuar musicalmente, com a adaptação do repertório do grupo ao ambiente jovem e universitário”Marcus Vinicius Cardoso, mestre em Arte da Música, coordenador e maestro da Camerata da Unifor

Essa experiência também moldou seu olhar como educador. Para ele, ensinar música é reconhecer potencialidades humanas que vão além da performance artística. “A experiência de músico e maestro me ajuda a ver cada aluno como um talento potencial para atuar na área artística ou ser moldado como uma pessoa capaz de se desenvolver com sensibilidade e resiliência em qualquer atividade humana”, ressalta.

Um ato de amor pela arte

Apesar dos avanços, Marcus Vinicius reconhece que a carreira artística ainda enfrenta desafios no Brasil, especialmente no campo da música instrumental e orquestral. Para ele, iniciativas como a Camerata da Unifor mostram a importância do apoio institucional à cultura e ajudam a construir perspectivas para novos músicos.

“O artista brasileiro carece de apoio institucional e estatal para fazer carreira de modo a ascender profissionalmente”, afirma o violinista. “A Unifor mostra que existe um horizonte a se perseguir e que há muito a se fazer na realidade artístico profissional em Fortaleza”.


Apresentação recente da Camerata da Unifor, com os músicos Marcus Vinicius, Gustavo Lima, George Lucas, Awa Blayne, Jeovane Barreto, Natália Bezerra e George Luis (Foto: Arquivo pessoal)

Ao longo desses 30 anos, o maestro testemunhou momentos que permaneceram vivos pela força da emoção. Um deles aconteceu em 2001, durante a visita do violoncelista mexicano Carlos Prieto à Universidade. “Ele era extraordinário e possuía um violoncelo feito por Antonio Stradivari”, lembra o maestro, ainda impressionado pela experiência.

Para Marcus Vinicius, reger a Camerata nunca foi só executar partituras ou conduzir apresentações. Existe, na música, uma dimensão profundamente humana e afetiva que transforma quem toca e quem escuta.

“A execução de uma música, seja regendo ou tocando, requer delicadeza e elegância”, diz. “A arte do som me convida a mostrar a nossa alma, que, de dentro para fora, exibe o que há de mais belo e admirável na forma de pensar e ver o mundo”. 

Após três décadas, a Camerata da Unifor segue como testemunha de encontros, descobertas e permanências. Entre notas musicais e silêncios precisos, Marcus Vinicius continua conduzindo não apenas músicos, mas uma história construída coletivamente. Uma história em que a arte permanece como abrigo, memória e futuro.

 


Esta notícia está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), contribuindo para o alcance do ODS 4 – Educação de Qualidade. A Universidade de Fortaleza, assim, assegura a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, promovendo oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos.

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