Entrevista Nota 10: Caroline Mourão e o farmacêutico como peça-chave na investigação criminal

seg, 5 outubro 2026 11:35

Entrevista Nota 10: Caroline Mourão e o farmacêutico como peça-chave na investigação criminal

Perita legista da Perícia Forense do Estado do Ceará detalha as habilidades exigidas pela profissão e analisa as oportunidades do mercado de trabalho, além de convidar para um debate sobre o tema na Jornada Farmacêutica da Unifor


Doutora em Farmacologia, Caroline é farmacêutica e docente do curso de Farmácia da Unifor (Foto: Arquivo pessoal)
Doutora em Farmacologia, Caroline é farmacêutica e docente do curso de Farmácia da Unifor (Foto: Arquivo pessoal)

Quando um crime acontece, profissionais de diferentes áreas passam a trabalhar no caso, reunindo e analisando provas para esclarecer lacunas e inconsistências na investigação. Um deles é o farmacêutico, que fica responsável especialmente pela análise laboratorial das evidências, sendo crucial para a emissão de laudos com alto rigor científico.

Segundo a farmacêutica Caroline Mourão, perita legista da Perícia Forense do Estado do Ceará (PEFOCE) e docente do curso de Farmácia da Universidade de Fortaleza — instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz —, esse especialista ocupa hoje um espaço muito consolidado dentro da perícia. No entanto, além da capacidade técnica, também se exige o compromisso de enxergar as vidas que existem por trás de cada amostra.

“Cada tubo de ensaio traz a expectativa de uma família, a busca por justiça ou o destino de uma pessoa. A verdadeira maturidade pericial está na capacidade de sentir essa responsabilidade, mas manter a mente serena e imparcial. O perito não busca culpados nem atende a expectativas; ele traduz o que a ciência diz”, explica.

Essa atuação do farmacêutico será um dos assuntos abordados na V Jornada Farmacêutica, que acontece nos dias 7 e 8 de outubro, no auditório H-85 da Unifor. Durante a programação, Caroline vai mediar a mesa-redonda “Perícia Forense: Quando a Ciência Ajuda a Revelar a Verdade”, onde receberá um time de peso de peritos legistas da PFOCE para discutir o papel da investigação científica para a resolução de crimes na segurança pública.

Doutora em Farmacologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Carol atua hoje na Assessoria Pedagógica do Centro de Ciências da Saúde (CCS) e na docência e tutoria de ligas acadêmicas e módulos práticos e teóricos da Unifor, onde coordenou por vários anos o curso de Farmácia.

Com premiada trajetória no ensino, tendo sido agraciada com a Comenda ao Mérito Farmacêutico, a professora conecta o rigor metodológico da perícia oficial à formação acadêmica, unindo a prática científica investigativa, a pesquisa em saúde e a inovação pedagógica.

Na Entrevista Nota 10, ela detalha as habilidades exigidas pela profissão e analisa as oportunidades do mercado de trabalho, além de convidar para a mesa redonda sobre perícia forense na Jornada Farmacêutica da Unifor.

Leia a entrevista na íntegra a seguir.

Entrevista Nota 10 — Na prática, qual é exatamente o papel do profissional de farmácia dentro da perícia forense? Que tipo de análises, vestígios ou provas passam pelas mãos de um farmacêutico e como elas são determinantes para a resolução de um inquérito?

Caroline Mourão — O farmacêutico ocupa hoje um espaço muito consolidado dentro da perícia, especialmente na análise laboratorial. Na Pefoce, quatro núcleos concentram boa parte desse trabalho, e em todos eles há farmacêuticos peritos legistas atuando.

No Núcleo de Análises de Psicotrópicos e Entorpecentes, a pergunta é: o que é exatamente esta substância apreendida? No Núcleo de Toxicologia Forense, a pergunta muda: o que havia no organismo daquela pessoa, em que quantidade, com que efeito? No Núcleo de Bioquímica e Biologia Forense, investiga-se que vestígio biológico é aquele — se é sangue, se é humano, se serve para análise. E no Núcleo de Perícia de DNA Forense, chega-se à pergunta da identidade: de quem é esse vestígio?

Nenhuma dessas análises decide um inquérito sozinha. O laudo é uma peça técnica que entra no conjunto da prova. Ele dá base científica para o que antes era hipótese.

Entrevista Nota 10 — No dia a dia, quais são as competências técnicas e, principalmente, emocionais que um farmacêutico precisa ter para lidar com a carga e a responsabilidade da perícia legista?

Caroline Mourão — Do ponto de vista técnico, o farmacêutico perito precisa de uma base sólida em química analítica, bioquímica, farmacologia, toxicologia e biologia molecular, além de domínio de instrumentação e de controle de qualidade. Mas a excelência vai além da teoria: está no respeito absoluto ao processo e à cadeia de custódia. Afinal, a melhor tecnologia do mundo de nada serve se o vestígio original for negligenciado. 

Já na dimensão humana e emocional, o desafio é ainda maior: é o compromisso de enxergar as vidas que existem por trás de cada amostra. Cada tubo de ensaio traz a expectativa de uma família, a busca por justiça ou o destino de uma pessoa. A verdadeira maturidade pericial está na capacidade de sentir essa responsabilidade, mas manter a mente serena e imparcial. O perito não busca culpados nem atende a expectativas; ele traduz o que a ciência diz.

Entrevista Nota 10 — O interesse pela ciência forense cresceu muito entre os jovens devido a séries e filmes de investigação, como o famoso seriado “CSI: Investigação Criminal”. Como é o mercado de trabalho real para o farmacêutico nessa área hoje, especialmente no Ceará?

Caroline Mourão — As séries criaram uma expectativa de resultado instantâneo e de certeza absoluta que não corresponde à realidade. O trabalho real é mais criterioso, mais metódico e, na minha opinião, muito mais interessante. Mas é inegável que a ficção despertou vocações, e cabe a nós transformar esse interesse em formação séria.

O caminho principal de entrada é o concurso público para perito legista, tanto nos órgãos estaduais quanto na esfera federal. É uma carreira de acesso restrito, que exige preparação específica e paciência com os ciclos de abertura de vagas. No Ceará, a Pefoce tem absorvido farmacêuticos de forma consistente. Meu conselho aos estudantes é não esperar o edital para começar: busquem iniciação científica, estágio em laboratório e sólida base analítica desde a graduação.

Entrevista Nota 10 — Crimes de grande comoção social, como o recente e trágico caso da estudante Isabelle Caracristi, colocam o trabalho da PEFOCE no centro das atenções de toda a mídia e da sociedade. De que forma a atuação precisa do farmacêutico forense ajuda a trazer racionalidade e clareza científica em meio ao clamor popular e midiático? Esse tipo de visibilidade ajuda a valorizar o trabalho desse profissional?

Caroline Mourão — Prefiro não comentar nenhum caso específico que esteja sob investigação. É um limite ético da função. Mas posso falar do princípio, que é o que interessa aqui.

Em casos de grande comoção, a pressão por respostas rápidas é imensa, e é justamente aí que o trabalho técnico presta seu maior serviço: ele não acelera para agradar, ele responde no tempo do método. O laudo pericial é um contraponto ao ruído, porque afirma apenas o que os dados sustentam e delimita com clareza o que não é possível afirmar. Em um ambiente onde circulam versões, boatos e julgamentos antecipados, essa contenção é o que protege tanto a investigação quanto as pessoas envolvidas.

A visibilidade é uma aliada importante para todos. De um lado, aproxima o cidadão comum de uma profissão que costuma ser silenciosa, fortalecendo a confiança na ciência e na justiça. Do outro, é um estímulo poderoso para os estudantes, que conseguem enxergar o impacto prático daquilo que aprendem na teoria. Estar neste espaço nos permite ensinar, desmistificar o nosso trabalho e conectar a experiência técnica com o interesse público.

Entrevista Nota 10 — Como docente, de que forma você enxerga os diferenciais da estrutura e da matriz curricular do curso de Farmácia da Unifor ao preparar os alunos para trilhar carreiras tão específicas e desafiadoras quanto a perícia criminal? Como a graduação ajuda a desenvolver o raciocínio investigativo e analítico desses futuros farmacêuticos?

Caroline Mourão — O diferencial está na combinação entre base analítica forte e contato precoce com a prática laboratorial. O raciocínio investigativo não se ensina em uma disciplina isolada, ele se constrói ao longo de todo o curso, cada vez que o aluno precisa interpretar um resultado, questionar um controle que não fechou, validar um método ou justificar por que uma conclusão não pode ser tirada daquele dado. É exatamente o mesmo raciocínio que o perito usa diante de um vestígio.

Além disso, a Universidade tem se aberto para essa área de forma muito concreta. Estamos com a Liga Acadêmica de Perícia Forense em processo de aprovação aqui na Unifor, e eventos como a Jornada Acadêmica de Farmácia trazem para dentro da sala de aula quem está na linha de frente.

Entrevista Nota 10 — No dia 7 de outubro, você irá mediar a mesa redonda “Perícia Forense: quando a ciência ajuda a revelar a verdade”, que acontece na Unifor. Qual é a importância de trazer especialistas que estão na linha de frente da segurança pública para dentro da universidade? Como essa troca de experiências impacta a formação dos alunos e a valorização da ciência investigativa no nosso estado?

Caroline Mourão — Trazer para dentro da universidade quem está na linha de frente da segurança pública cumpre duas funções. A primeira é mostrar ao estudante um horizonte profissional que ele talvez não imaginasse acessível. E mostrar por meio de pessoas reais, com trajetórias concretas, não por meio de uma ideia abstrata de “perícia”. A segunda é corrigir distorções: substituir a imagem construída pela ficção pela realidade do método, do rigor e da responsabilidade.

E há ainda um efeito de mão dupla: a Universidade forma os futuros peritos, e os peritos trazem de volta as demandas concretas do serviço. Essa troca fortalece a ciência investigativa e valoriza um trabalho que sustenta decisões muito sérias e raramente aparece.

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