Pesquisa Unifor: estudo alerta para cuidado especial na dieta de pessoas com obesidade internadas por Covid-19

seg, 4 maio 2026 20:43

Pesquisa Unifor: estudo alerta para cuidado especial na dieta de pessoas com obesidade internadas por Covid-19

Fruto da tese de doutorado de Eudóxia Sousa de Alencar, o estudo investiga como o uso do capacete Elmo impacta a alimentação de pessoas com obesidade hospitalizadas durante a pandemia


A nutricionista Eudóxia de Alencar, que também é professora de Nutrição da Unifor, realizou a pesquisa a partir de dados coletados em tempo real e da análise dos prontuários de pacientes hospitalizados que fizeram tratamento com o Elmo (Foto: Ares Soares)
A nutricionista Eudóxia de Alencar, que também é professora de Nutrição da Unifor, realizou a pesquisa a partir de dados coletados em tempo real e da análise dos prontuários de pacientes hospitalizados que fizeram tratamento com o Elmo (Foto: Ares Soares)

Na pandemia de Covid-19, especialmente no cuidado a pacientes em estado grave, surgiu a necessidade de adaptar práticas clínicas à realidade hospitalar. Mesmo com a chegada do capacete Elmo, que reduziu a necessidade de respiradores pulmonares artificiais em quadros graves da doença, outras questões surgiram, como foi o caso do desafio de manter a nutrição adequada de pessoas obesas que estavam internadas.

Esse cenário foi investigado pela nutricionista Eudóxia Sousa de Alencar, docente do curso de Nutrição da Universidade de Fortaleza — instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz —, em sua tese para o Doutorado em Saúde Coletiva, onde analisou os efeitos do suporte nutricional em pacientes hospitalizados submetidos ao uso do capacete Elmo. 

Intitulada “Efeitos do suporte nutricional de pacientes hospitalizados com Covid-19 submetidos à elmoterapia na segunda onda brasileira em hospital público”, a pesquisa foi realizada em uma instituição de referência no tratamento de doenças cardiopulmonares. O objetivo foi avaliar o consumo alimentar dos pacientes submetidos ao uso do Elmo, relacionando o estado nutricional, a aceitação da dieta hospitalar e os desfechos clínicos, como alta ou óbito.

As análises mostraram que acompanhar de perto a alimentação é essencial, pois o uso da ventilação não invasiva pode dificultar a ingestão de alimentos, principalmente em pacientes obesos. Por isso, os autores recomendam dietas personalizadas para melhorar a recuperação.


“A nossa pesquisa trouxe contribuições valiosas tanto para a comunidade científica quanto para os profissionais atuantes na linha de frente durante a pandemia por Covid-19. Ela propiciou adaptações na conduta nutricional durante o uso do Elmo, que consistem em alterações na consistência e densidade calórica dos alimentos oferecidos, objetivando uma melhor aceitação da dieta hospitalar durante o período de internação.”Eudóxia de Alencar, nutricionista, docente do curso de Nutrição da Unifor e responsável pela pesquisa

O estudo foi orientado por Carlos Antonio Bruno da Silva, docente da graduação em Medicina e do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (PPGSC) da Unifor, e coorientado por Antônio Augusto Ferreira Carioca, também professor do curso de Nutrição e do PPGSC, sendo desenvolvido durante o pico da segunda onda da pandemia no Brasil, período marcado por altas taxas de mortalidade. 

Ciência que resolve desafios na saúde

A pesquisa buscou resolver a dificuldade clínica de garantir o auxílio nutricional adequado a pacientes com Covid-19 usando o capacete Elmo, prevenindo a desnutrição e a perda de massa magra. O trabalho identifica o déficit calórico gerado pela barreira física do dispositivo e auxilia na tomada de decisão para a introdução precoce de terapia nutricional, especialmente em pacientes com obesidade.


“Estudar pacientes com obesidade utilizando o capacete Elmo é crucial devido à mecânica respiratória comprometida, ao alto risco de desnutrição proteica e aos desafios enfrentados pelos profissionais da nutrição na oferta alimentar. Além disso, essa análise permitiu o desenvolvimento de protocolos personalizados, essenciais para otimizar a eficácia da terapia nutricional associada ao suporte ventilatório nesse grupo de alto risco” Augusto Carioca, professor do curso de Nutrição e do PPGSC da Unifor e coorientador do estudo

Quando se trata da nutrição de pacientes em ventilação mecânica invasiva, o processo tende a ser mais simples, já que é possível utilizar vias alternativas de alimentação, como a nutrição enteral, que é feita por meio de sonda nasogástrica ou nasoenteral (da narina ao estômago ou intestino), ou a nutrição parenteral, feita diretamente pela corrente sanguínea, por via intravenosa. 

No entanto, no caso do uso do capacete Elmo, o principal desafio foi adaptar a oferta nutricional por via oral, devido à barreira física imposta pelo dispositivo, que dificulta o acesso à alimentação. 

Para contornar essa dificuldade, foi necessário o uso de instrumentos de apoio, como canudos de diferentes calibres, que ajudaram a facilitar a sucção e melhorar a adesão dos pacientes à terapia nutricional. Além disso, as refeições foram adaptadas, com volume reduzido e consistência líquida, a fim de evitar a queda na saturação de oxigênio durante a alimentação.

“Como profissional atuante na assistência hospitalar, [vejo que] a pesquisa impactou na reformulação de rotinas hospitalares adaptadas a situações emergenciais envolvendo a participação de todas as classes de profissionais, com o objetivo de melhora terapêutica ofertada aos pacientes vitimados por Covid-19”, ressalta Eudóxia.

Desempenho e condução da pesquisa 

O estudo foi conduzido em um hospital público de Fortaleza durante a segunda onda de Covid-19, entre os anos de 2021 e 2022. A pesquisa combinou dados coletados em tempo real com análise de informações já registradas em prontuários, caracterizando uma abordagem mista (prospectiva e retrospectiva).

Ao todo, participaram 70 pacientes internados em enfermarias destinadas ao tratamento da Covid-19. Todos tinham 19 anos ou mais, diagnóstico confirmado da doença e faziam uso do sistema ELMO, um capacete utilizado para auxiliar na respiração por meio da terapia CPAP — terapia com pressão positiva contínua nas vias aéreas.

Para avaliar o estado nutricional dos pacientes, os pesquisadores analisaram o Índice de Massa Corporal (IMC) e a circunferência do braço. A amostra apresentava alta prevalência de excesso de peso, com grande parte dos adultos classificados como obesos e a maioria dos idosos com sobrepeso.

A ingestão alimentar foi acompanhada por nutricionistas clínicos ao longo da internação. Como o uso do capacete exige dieta líquida, os profissionais monitoraram o consumo dos pacientes em seis refeições diárias, comparando o que era efetivamente ingerido com a dieta prescrita. Esse acompanhamento foi feito por meio de um questionário de adesão, utilizando escala de avaliação do consumo.

Além dos dados nutricionais, também foram coletadas informações clínicas, como tempo de internação, duração do uso do Elmo, parâmetros de oxigenoterapia e desfecho hospitalar. Com base nesse conjunto de dados, os pesquisadores analisaram a relação entre o estado nutricional dos pacientes, o uso do suporte respiratório e a capacidade de manter a ingestão adequada de energia e proteínas durante o tratamento.

O estudo concluiu que acompanhar de perto a alimentação é essencial, pois o uso da ventilação não invasiva pode dificultar a ingestão de alimentos, principalmente em pacientes obesos. Por isso, os autores recomendam dietas personalizadas para melhorar a recuperação. 

Por que essa pesquisa importa?

A pesquisa valida o capacete Elmo, tecnologia brasileira de baixo custo, como uma alternativa segura e eficaz que reduz a necessidade de intubação e o tempo de internação, otimizando recursos públicos para futuras emergências sanitárias.

O estudo evidencia a importância do cuidado nutricional precoce no grupo de risco composto por pessoas obesas, fornecendo comprovações sobre a oferta energética e protéica e sua associação com melhores desfechos clínicos.

As estratégias nutricionais utilizadas durante o uso do capacete Elmo demonstraram que a nutrição não é secundária, mas parte do sucesso da elmoterapia. Os resultados trouxeram impactos práticos e significativos na rotina dos profissionais da assistência hospitalar”, destaca o professor Augusto Carioca. 

Eudóxia acredita que, a longo prazo, a pesquisa pode servir como referência para o desenvolvimento de protocolos clínicos em situações de crises sanitárias. Segundo ela, os resultados também podem contribuir para o aprimoramento de dispositivos médicos na área de bioengenharia, além de ajudar na redução de custos hospitalares e do tempo de internação em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). A pesquisadora ainda destaca que o estudo pode funcionar como modelo para adaptações nas dietas utilizadas na rotina hospitalar. 

O estudo já foi publicado na revista científica internacional Nutrition Research em outubro de 2023. Além disso, o artigo vem sendo citado em outras publicações sobre a mesma temática e tem contribuído como base para novas pesquisas na área. 

Um relato de aprendizado 

Além dos resultados científicos, a pesquisa também teve um impacto significativo na trajetória da doutora Eudóxia, sendo desenvolvida como tema de sua tese de doutorado. Para a autora, participar ativamente do estudo durante o doutorado foi um “divisor de águas”, pois lhe permitiu produzir evidência em tempo real.

“Não posso deixar de mencionar que essa pesquisa consolidou minha capacidade de trabalho multidisciplinar, pois não teríamos obtido sucesso na terapêutica implantada sem a participação ativa dos médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e técnicos de enfermagem, atuando como uma equipe colaborativa focada no cuidado centrado no paciente”, compartilha.

Em complemento, o professor Augusto Carioca destaca que o trabalho também foi fundamental para consolidar a importância da prática clínica como fonte de evidência científica internacionalmente validada. Segundo ele, o estudo gerou dados relevantes sobre a terapia nutricional durante o uso do dispositivo Elmo, fortalecendo a tomada de decisão clínica e contribuindo para o desenvolvimento de novos protocolos hospitalares. 

 


Esta notícia está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, contribuindo para o alcance do ODS 3 — Saúde e Bem- Estar, ODS 4 — Educação de Qualidade e ODS 9 — Indústria, Inovação e Infraestrutura

Assim, a Universidade de Fortaleza reafirma seu compromisso com a ciência, a inovação e a formação de profissionais capacitados para enfrentar desafios na área da saúde. A pesquisa evidencia a importância da produção científica na busca por soluções para a prática clínica, especialmente em contextos críticos como a pandemia de Covid-19. Ao integrar conhecimento acadêmico e atuação hospitalar, o estudo contribui para o aprimoramento do cuidado e para a melhoria da assistência aos pacientes.


ÚLTIMAS NOTÍCIAS

A nutricionista Eudóxia de Alencar, que também é professora de Nutrição da Unifor, realizou a pesquisa a partir de dados coletados em tempo real e da análise dos prontuários de pacientes hospitalizados que fizeram tratamento com o Elmo (Foto: Ares Soares)

Pesquisa Unifor: estudo alerta para cuidado especial na dieta de pessoas com obesidade internadas por Covid-19

Debates sobre equidade, liderança e a importância do apoio coletivo para o avanço das mulheres foram destaques na 2ª edição do HubMulher Summit (Foto: Ares Soares)

HubMulher Summit realiza 2ª edição e fortalece protagonismo feminino na inovação e no empreendedorismo