Entrevista Nota 10: Herbert da Rocha e o legado do Elmo para a ciência e a inovação no Brasil

seg, 8 junho 2026 13:38

Entrevista Nota 10: Herbert da Rocha e o legado do Elmo para a ciência e a inovação no Brasil

Pesquisador do Laboratório de Pesquisa e Inovação em Cidades da Unifor e integrante da equipe criadora da tecnologia, Herbert analisa o legado do projeto para a pesquisa, a saúde e a colaboração entre instituições


Herbert da Rocha, pesquisador do Laboratório de Pesquisa e Inovação em Cidades (Lapin) e doutorando em Saúde Coletiva da Unifor (Foto: Ares Soares)
Herbert da Rocha, pesquisador do Laboratório de Pesquisa e Inovação em Cidades (Lapin) e doutorando em Saúde Coletiva da Unifor (Foto: Ares Soares)

Em meio a uma das maiores crises sanitárias da história recente, um projeto desenvolvido no Ceará reuniu universidade, indústria e profissionais da saúde em torno de um objetivo comum: salvar vidas durante a pandemia da Covid-19. Desenvolvido em um contexto de alta demanda hospitalar e escassez de equipamentos, o capacete Elmo tornou-se símbolo da capacidade de inovação científica brasileira em situação de emergência, sendo utilizado como tecnologia não invasiva de suporte respiratório e alternativa à intubação em pacientes com insuficiência respiratória.

O projeto envolveu uma articulação inédita entre diferentes instituições e áreas do conhecimento, fortalecendo a atuação conjunta entre pesquisa, setor produtivo e sistema de saúde. Além de seu impacto imediato durante a pandemia, a iniciativa deixou um importante legado na Universidade de Fortaleza (Unifor), instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz, que ampliou suas estratégias de pesquisa e colaboração interdisciplinar.

Recentemente, as instituições cearenses envolvidas celebraram o legado do Elmo. Na ocasião, estiveram reunidos pesquisadores, técnicos, docentes, profissionais da saúde e lideranças que participaram diretamente do desenvolvimento da tecnologia criada durante a pandemia.

Participaram da criação do capacete Elmo profissionais da Universidade de Fortaleza (Unifor), da Esmaltec, empresa do Grupo Edson Queiroz, da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC), da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), do Senai Ceará e da Universidade Federal do Ceará (UFC). Juntas, as instituições formaram uma força-tarefa inédita, unindo academia, indústria, pesquisa e gestão pública em torno de um propósito comum: salvar vidas em meio à maior crise sanitária do século.

O cientista Herbert da Rocha, pesquisador do Laboratório de Pesquisa e Inovação em Cidades (Lapin) e doutorando em Saúde Coletiva pela Unifor, foi um dos profissionais que integrou o grupo que atuou diretamente na concepção do Elmo. “O capacete Elmo deixou como legado a prova de que a união entre ciência, indústria e sociedade pode gerar inovações que salvam vidas”, comenta.

Na Entrevista Nota 10 desta semana, ele relembra os bastidores do projeto, os desafios da articulação entre diferentes instituições e os impactos científicos e sociais da iniciativa, além de refletir sobre o legado da pandemia para a ciência pública no Brasil. 

Leia a entrevista na íntegra a seguir.

Entrevista Nota 10 — Qual foi o papel da Universidade de Fortaleza no desenvolvimento do Elmo?

Herbert da Rocha — A Universidade de Fortaleza participou de todas as etapas do desenvolvimento do Elmo, desde a gestão dos grupos de trabalho, a criação, o desenvolvimento e os testes até a fabricação, juntamente com a Esmaltec, empresa do Grupo Edson Queiroz.

Entrevista Nota 10 — O Elmo deixou algum legado permanente para a pesquisa e a inovação na Unifor?

Herbert da Rocha — A Unifor sempre teve uma visão da grande importância da pesquisa e da inovação para a nossa sociedade. Um exemplo disso é que eu trabalho há mais de oito anos em um laboratório de pesquisa e inovação, o Lapin, que, na época da pandemia, fez parte do grupo que veio a desenvolver o Capacete Elmo.

Após o Elmo, nós buscamos integrar as diferentes áreas do conhecimento, conectando de forma mais efetiva a ciência da computação com a saúde, por exemplo. Um dos frutos desse trabalho é o Lapin Bio, Laboratório de Pesquisa e Inovação em Biotecnologia, inaugurado há poucos meses e que integra a Vice-Reitoria de Pesquisa (VRP) da Universidade.

Entrevista Nota 10 — Como a estrutura da Universidade de Fortaleza contribuiu para acelerar o projeto em um momento crítico?

Herbert da Rocha — Vivíamos um momento atípico, em que estávamos isolados em casa por causa do lockdown e, por isso, não tínhamos acesso à universidade e aos seus laboratórios. Porém, o então diretor da Diretoria de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (DPDI) — setor ao qual o Lapin estava subordinado na época —, professor Vasco Furtado, autorizou que eu levasse para a minha casa os equipamentos de que necessitasse e que estavam no laboratório. Hoje, a DPDI não existe mais [como era] e ganhou status de Vice-Reitoria de Pesquisa, tendo como atual vice-reitor o professor Afonso Lima.

Com o uso da referida estrutura, agora instalada na garagem da minha casa, eu pude trabalhar nas diferentes configurações que o Elmo apresentou durante o seu desenvolvimento. Sem essa estrutura, o projeto poderia ter tido sua viabilidade comprometida, principalmente nas etapas de criação e desenvolvimento.

Entrevista Nota 10 — Em que ponto vocês perceberam que o projeto poderia substituir internações mais invasivas?

Herbert da Rocha — Contávamos com diferentes profissionais na equipe de desenvolvimento, dentre eles diversos profissionais da saúde, com os quais estávamos constantemente nos comunicando e trocando informações sobre as possibilidades advindas do projeto. O conceito do capacete já existe há muitos anos, mas é conhecido como capacete hiperbárico, usado para tratar a doença da descompressão, que pode acometer mergulhadores após grandes profundidades. Porém, seu uso para tratar outras doenças era algo bem menos comum.

Um dos integrantes da equipe era um médico pneumologista, que relatou que, se o paciente fosse submetido a um ambiente respirável e pressurizado, seus pulmões poderiam apresentar um ganho de eficiência na absorção do oxigênio, o que atacaria diretamente um dos maiores problemas causados pela Covid-19.

Por ser uma estrutura que, colocada sobre a cabeça do paciente e vedada no pescoço, era capaz de controlar a qualidade do ar respirável e ainda mantê-lo sob pressão, ela evitaria, em muitos casos, que o paciente precisasse ser sedado e intubado. Isso foi percebido ainda durante o projeto e foi uma de suas diretrizes, pois não exigia equipamentos caros e inacessíveis para muitos, além de possibilitar que o paciente permanecesse consciente durante todo o tratamento.

Entrevista Nota 10 — Qual foi o principal obstáculo para tirar o Elmo do papel em plena pandemia?

Herbert da Rocha — A distância, pois durante semanas nos reunimos exclusivamente por videoconferência. Também o aspecto psicológico, devido ao constante estresse ao qual todos nós éramos submetidos diante de uma doença nova e sem tratamento; e o acesso aos processos e materiais, uma vez que qualquer solução desenvolvida teria que fazer uso de matéria-prima disponível localmente, assim como das tecnologias de produção e da própria indústria local.

Entrevista Nota 10 — O que diferencia o Elmo de outras tecnologias de suporte respiratório?

Herbert da Rocha — Em relação aos capacetes hiperbáricos já existentes, o Elmo se diferencia por ser um produto desenvolvido pensando em seu uso em ambiente hospitalar, para tratamento de doenças infectocontagiosas, e por ser esterilizável, podendo ser utilizado por até quatro pacientes diferentes.

Em relação a outras tecnologias usadas durante a pandemia, o que o diferencia é o fato de ser um sistema não invasivo de auxílio respiratório, que mantém o paciente em um ambiente pressurizado e com controle da dosagem de oxigênio, além de proteger a equipe médica da contaminação pela Covid-19, uma vez que o ar exalado pelo paciente era filtrado.

Entrevista Nota 10 — O que a experiência do Elmo revela sobre a importância da colaboração entre universidades, governo e setor produtivo?

Herbert da Rocha — O que aconteceu foi que uma situação de emergência colocou todos à prova. Naquele momento, as pessoas não tinham muita escolha, pois era preciso fazer alguma coisa. Uma coisa curiosa no grupo que desenvolveu o Elmo é que praticamente ninguém falava sobre quanto iria custar desenvolver a tecnologia. O objetivo principal era conseguir fazê-la funcionar. O custo acabava ficando em segundo plano.

Claro que essa era uma situação atípica, porque estávamos vivendo uma emergência sanitária. Mas ela mostrou que, quando existe vontade e necessidade, as coisas podem ser feitas. No mundo real, fora de uma situação de emergência, as decisões costumam ser definidas principalmente por custo e prazo. Muitas vezes, a solução mais interessante ou mais eficiente não é necessariamente a escolhida.

No caso do Elmo, foi diferente. Precisávamos encontrar uma solução que funcionasse. Se ela fosse mais cara, isso precisava ser absorvido, porque havia uma necessidade urgente. O foco estava no resultado.

Na minha opinião, quando se investe em pesquisa que será revertida em benefício direto para a população, especialmente em áreas como a saúde pública, algumas decisões deveriam ser tomadas de forma mais pragmática, considerando principalmente o impacto que aquele resultado terá na vida das pessoas, e não apenas se haverá retorno financeiro ou lucro.

Essa foi uma diferença muito clara observada no projeto do Elmo e que poderia servir de exemplo para outras iniciativas voltadas ao interesse público. Quando o objetivo é gerar benefícios diretos para a sociedade, seja na saúde ou em outras áreas sociais, o processo poderia ocorrer de forma mais colaborativa e com menos restrições do que aquelas que normalmente influenciam o desenvolvimento de produtos comerciais.

Eu não diria que o Elmo necessariamente ensinou isso, mas certamente escancarou essa realidade. Ele mostrou que projetos com potencial de beneficiar diretamente a população podem alcançar resultados importantes quando diferentes instituições trabalham juntas e quando o foco principal está na solução do problema, e não apenas nos critérios tradicionais de mercado.

Entrevista Nota 10 — O que mais surpreendeu você durante o desenvolvimento do projeto?

Herbert da Rocha — O que mais me surpreendeu durante o desenvolvimento do projeto foi justamente a capacidade de reunir pessoas e instituições muito diferentes em torno de um objetivo comum.

Conseguimos juntar organizações que normalmente não trabalham tão próximas umas das outras e fazer com que elas se comunicassem, compartilhassem conhecimento e colaborassem de forma efetiva. Isso já seria um desafio em uma equipe formada por pessoas que se conhecem e trabalham juntas há muito tempo. No nosso caso, muitos dos participantes nunca tinham trabalhado juntos, alguns sequer se conheciam, e tudo aconteceu de forma remota.

Mesmo assim, conseguimos construir algo que teve um impacto real na vida das pessoas. Isso continua sendo algo que me surpreende quando olho para trás. Em condições normais, provavelmente seria muito difícil reunir tantas pessoas, com formações e experiências diferentes, em torno de um projeto tão complexo.

O que vi foi que as pessoas conseguiram enxergar algo maior do que suas próprias atribuições, interesses ou limitações. Em muitos projetos, alguém deixa de participar porque determinada atividade não faz parte da sua área de atuação ou porque não é sua responsabilidade direta. No desenvolvimento do Elmo, isso aconteceu muito menos. Quando surgia um problema, as pessoas buscavam aprender, pesquisar, conversar com especialistas e encontrar soluções. O foco estava sempre em fazer o projeto avançar.

Entrevista Nota 10 — Como você avalia o legado científico deixado pela pandemia?

Herbert da Rocha — A pandemia nos mostrou tanto aspectos positivos quanto negativos. Pelo lado positivo, especialmente a partir da experiência que tivemos com o Elmo, ficou claro que somos capazes de desenvolver soluções importantes mesmo em condições extremamente limitadas.

Uma das grandes lições dessa experiência foi perceber que a capacidade de inovar não depende exclusivamente da disponibilidade de recursos. Hoje estamos acostumados a contar com fornecedores locais, nacionais e até internacionais, algo facilitado pela globalização. Durante a pandemia, porém, muitas dessas possibilidades simplesmente não existiam. Mesmo assim, conseguimos trabalhar com os recursos disponíveis, adaptando-nos às circunstâncias e encontrando soluções para os problemas que surgiam.

Isso mostra que a falta de recursos ou de materiais pode tornar o processo mais difícil, mais demorado ou até mais caro, mas não impede necessariamente a inovação. Esse é, sem dúvida, um dos legados mais importantes da experiência do Elmo: a demonstração de que é possível desenvolver soluções relevantes mesmo em cenários de escassez, desde que haja colaboração, criatividade e comprometimento.

Por outro lado, a pandemia também deixou um legado preocupante. Felizmente, fomos salvos pelas vacinas, que tiveram um papel fundamental no controle da Covid-19. No entanto, ao mesmo tempo, observamos o crescimento de movimentos contrários à vacinação, algo que continua acontecendo até hoje.

Esse fenômeno acabou tendo impactos que vão além da Covid-19. A redução da confiança nas vacinas influenciou a adesão a campanhas de imunização para outras doenças, algumas delas já controladas ou praticamente erradicadas. Esse talvez seja um dos aspectos mais negativos que permaneceram após a pandemia.


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