Enfermagem para além do óbvio: conheça a trajetória de Beatriz Mesquita

seg, 17 agosto 2026 11:03

Enfermagem para além do óbvio: conheça a trajetória de Beatriz Mesquita

Da graduação ao consultório particular, a enfermeira Beatriz construiu uma carreira que une cuidado, especialização e empreendedorismo. Especialista em Estomaterapia, ela reconhece na formação da Universidade de Fortaleza uma base decisiva para desenvolver não apenas os conhecimentos técnicos, mas também curiosidade e iniciativa.


Beatriz realiza atendimentos particulares em consultório e à domicílio, levando aos pacientes técnica especializada e atenção humanizada (Foto: Ares Soares)
Beatriz realiza atendimentos particulares em consultório e à domicílio, levando aos pacientes técnica especializada e atenção humanizada (Foto: Ares Soares)

Beatriz Mesquita não conhecia nenhum enfermeiro quando começou a pensar que dedicaria a vida à profissão. Ela recorda de uma fotografia de infância na qual vestia algo próximo do estereótipo da enfermagem e de uma sensação forte de que deveria seguir este caminho de cuidado na área da saúde, ainda que não compreendesse bem tudo o que esses profissionais faziam. “É algo que, pra mim, é um chamado. Uma vocação”, define. 

Era 2016 quando ela se matriculou no curso de Enfermagem da Universidade de Fortaleza (Unifor), vinculada à Fundação Edson Queiroz. Sentia-se pronta para desbravar com profundidade a área. Durante a graduação, se apaixonou pela estomaterapia — uma especialidade voltada ao cuidado de feridas, estomias e incontinências — e descobriu que pensar fora da caixa há de ser uma ferramenta valiosa para construir novos caminhos.

Foi justamente longe dos estereótipos que rondam a profissão que a egressa da Unifor encontrou seu caminho de êxito: no consultório, que leva seu nome e fica no bairro Dionísio Torres, em Fortaleza. Lá, ela atende pacientes particulares, além de prestar assistência domiciliar e realizar atendimento a pacientes durante internações hospitalares. É, portanto, enfermeira e empreendedora.

Beatriz atribui parte de sua segurança profissional à graduação. Para ela, foi durante o curso que começou a perceber que a enfermagem poderia oferecer caminhos que ainda não conhecia. “Acredito em uma enfermagem que desbrava, inova, se posiciona. Sempre vi a enfermagem assim e, durante a graduação, fui aperfeiçoando esse olhar”, afirma Beatriz. 

O jornal Unifor Notícias Mobile vem apresentando, em diferentes edições, uma série de histórias de egressos que estão conquistando espaços de destaque no mercado e levando a marca da formação da Universidade de Fortaleza. A seguir, Beatriz conta como a Unifor a estimulou a pesquisar, participar, buscar respostas e enxergar diferentes possibilidades de atuação no campo da enfermagem.

A crença em uma enfermagem além do óbvio

Sempre acreditei numa enfermagem diferente mesmo”, reflete Beatriz, lembrando do início da graduação, quando a matriz curricular da Unifor já apresentava outras possibilidades de atuação para além do ambiente hospitalar. Era uma época em que a possibilidade de empreender na enfermagem parecia algo muito distante, mas começava a se desenhar.

Beatriz conversava com os professores, estudava os conteúdos, pesquisava, observava profissionais e tentava participar do máximo de atividades na Universidade. Neste processo, a egressa diz que começou a entender a fortaleza e a autonomia presentes na profissão enquanto acessava uma base sólida de formação. 

Na sala de aula, era uma aluna calada, porém participativa. Gostava especialmente das discussões de casos clínicos e trabalhos em grupo, viabilizados pelo TBL (Team-Based Learning ou, em português, Aprendizagem Baseada em Equipes), uma metodologia ativa de ensino em que os alunos estudam o conteúdo antes da aula e usam o tempo em sala para resolver problemas em grupo, promovendo o diálogo e a cooperação.

“Eu adorava que a gente chegava a construir um raciocínio clínico e crítico. Sou muito grata porque a gente não era só repetidor de informação, a gente pensava mesmo, para além das salas de aula”, diz. Soma-se a esta experiência momentos importantes nas ligas acadêmicas — como a de Estudos e Pesquisas do Vírus da Imunodeficiência Humana (Lavih) — e grupos de pesquisa, locais de estímulo para pensar além do óbvio. “Além daquilo que a gente vê ali no livro, por exemplo, a gente vai sendo exposto a casos reais, e isso vai amadurecendo a gente como profissional”, considera.

Para Beatriz, um marco muito importante durante a jornada de formação na Unifor foi a participação nas monitorias, experiência que a ajudou a desenvolver liderança, organização de agenda, comunicação com professores e capacidade de orientar outros estudantes.

“Por dois anos, fui monitora de Semiologia e Semiotécnica de Enfermagem no módulo Bases Teórico-Práticas para o Cuidar III, onde, inclusive, eu alcancei a bolsa da monitoria. Fui também bolsista do projeto de pesquisa do doutorado de uma professora, onde eu amadureci muito, não só em pesquisa científica, mas como profissional mesmo”, detalha. Para a egressa, essas experiências ajudaram a construir uma profissional que domina conteúdos, sabe pesquisar, ensinar, se comunicar e assumir responsabilidades.

O fato é que Beatriz sentia que, a cada atividade extraclasse, ia acumulando conhecimentos diversos e construindo um “perfil diferente” como enfermeira. “Eu gostava de estar envolvida em tudo que você imaginar. Inclusive, teve uma época que eu era fissurada em entrevistas, em processo seletivo”, confidencia. Tentar seleções mesmo sem cumprir todos os requisitos, para ela, era uma forma de entender uma entrevista e se preparar para quando estivesse apta a vivenciar estágios e experiências no mercado formal.


“[Ao novo estudante, sugiro que] aproveite todas as oportunidades que a Unifor dá, as que estão escancaradas e as que você nem sabe ainda que existem. O profissional [diferenciado] não é o que pegou o diploma, é o que vivenciou de fato a sua formação. Não é todo mundo que tem o privilégio de ter corpo docente qualificado como o da Unifor. Aproveite o campus, dentro e fora da sala de aula.”Beatriz Mesquita, egressa do curso de Enfermagem da Unifor

De maneira geral, a graduação em Enfermagem da Unifor forma profissionais preparados para o cuidado integral dos pacientes, atuando em hospitais, clínicas, postos de saúde e atendimentos domiciliares. Durante o curso, os estudantes aprendem conteúdos ligados à assistência, gestão e promoção da saúde, além de desenvolverem habilidades práticas em estágios supervisionados. A graduação dura, em média, cinco anos.

O caminho profissional

Beatriz concluiu o curso de Enfermagem em 2022. Dois anos depois, virou especialista em Estomaterapia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). É uma área que conheceu ainda na graduação, quando se apaixonou e decidiu que trabalharia com isso.

A estomaterapia é uma área exclusiva da enfermagem com atuação no tratamento de diferentes vertentes. Uma delas é o cuidado com feridas complexas, agudas ou crônicas, por exemplo, de uma pessoa diabética que tem feridas por anos ou de lesões por pressão, conhecidas popularmente como escaras e provocadas pela falta de mobilidade do corpo.

Outra vertente é o cuidado em pessoas que precisam usar bolsas de colostomia, como no caso da cantora Preta Gil. Casos de incontinência também podem ser cuidados pelo enfermeiro especialista nesta área.

“Na minha graduação, por meio de conversas com professores da Unifor, eu já me identifiquei com a área. Então, fui ampliando o contato com pacientes e construindo a certeza de que seria uma estomaterapeuta”, conta Beatriz, que foi ganhando autoridade no assunto durante o curso.

Logo que se formou, a egressa começou a atuar no atendimento particular, com pacientes que chegavam por diversas formas, inclusive professores e outros profissionais que reconheciam seu conhecimento na área. Ela os atendia em domicílio e hospitais, mas foi percebendo a importância de ter uma estrutura mais adequada para oferecer outro tipo de cuidado.

“E foi quando eu migrei também para o consultório. Hoje eu atendo em domicílio, atendo em consultório e atendo os pacientes hospitalizados”, detalha a egressa. No início, ela também participou de mentorias. “Comecei a gerenciar esses casos clínicos dentro da mentoria, que era auxiliando profissionais a montar uma estratégia, uma conduta clínica”, conta.

Ela se tornou sócia fundadora do consultório In'tactus Fortaleza ao lado de seu amigo e mentor, Jairo Edielson, e da Dra. Rafaela Mota. A iniciativa integra uma rede nacional de consultórios especializados no tratamento de feridas e estomias.

Recentemente, porém, Beatriz sentiu que precisava seguir o caminho solo, no seu próprio consultório. Seu método de cuidado integral, conforme descreve no site, alia “técnica especializada e atenção humanizada para transformar a vida dos pacientes”.

Primeiro, Beatriz realiza uma avaliação detalhada para entender as necessidades específicas de cada paciente e planejar o cuidado adequado. O segundo passo é desenvolver e aplicar o tratamento especializado, focado em estomias e feridas complexas. Por fim, a enfermeira oferece suporte contínuo para promover a recuperação, autonomia e qualidade de vida dos pacientes.

Além do atendimento aos pacientes, a egressa já atua com consultoria para profissionais de enfermagem e manifesta o desejo de ampliar essa frente, oferecendo cursos e mentorias para formar outros enfermeiros.

Na experiência prática, aprender a olhar além da doença

A diversidade de experiências durante a graduação fazia Beatriz se sentir uma profissional antes mesmo de ter de fato o diploma em mãos. Quando o desejo de aprender da então acadêmica se juntou com a característica criteriosa da docente Rita Mônica Studart no internato, já no final do curso, foi um match valioso.

A professora ensina na graduação e na pós-graduação da Universidade de Fortaleza, atuando na Especialização em Enfermagem em Terapia Intensiva e no Mestrado Profissional em Tecnologia e Inovação em Enfermagem (MPTIE). Também é coordenadora da Residência Multiprofissional em Transplante do Hospital Geral de Fortaleza (HGF).

“Ela era a personificação de tudo que eu admiro em um professor. Assim, eu sou suspeita para falar do grupo de docentes, porque todos foram marcantes pra mim. Eu senti uma grata felicidade mesmo de ter profissionais excelentes. Mas a Rita Mônica marcou muito. Ela sempre impulsionou a gente a fazer além do óbvio”, rememora Beatriz.

Segundo a egressa, Rita orientava a turma a ser curiosa e pensar diferente. Nos “plantões” do internato, estimulava que os alunos aproveitassem ao máximo a equipe e fossem proativos para aprender tudo o que pudessem daquela experiência prática supervisionada. Beatriz grudava nos técnicos de enfermagem e enfermeiros para desbravar o máximo de conhecimento.

Embora admita que há uma ficha que cai na hora do diploma marcando a transição de acadêmica para profissional, ela diz que nesta experiência prática já se sentia uma “profissional em formação”. E isso fez toda a diferença na sua trajetória no mercado de trabalho.

Rita Mônica diz lembrar do olhar vivo e curioso — e também um pouco temeroso — de Beatriz nas primeiras vezes em que ela entrou em contato com os cuidados ao paciente crítico em UTI.

“Esse era um dos meus campos de estágio no HGF, e aquele universo de alta complexidade certamente provocava muitas emoções. Ela sempre demonstrou interesse pelo empreendedorismo e por diferentes possibilidades dentro da enfermagem. Mas, diante daquele cenário, mergulhou na experiência com o paciente crítico. Dedicou-se, estudou e brilhou”, avalia.

A docente diz acreditar que aquela vivência contribuiu para ampliar o olhar de Beatriz, tendo em vista que cuidar de um paciente crítico exige muito mais do que conhecer procedimentos ou compreender lesões. É preciso enxergar a pessoa por inteiro. “E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas que podemos oferecer durante a formação de um enfermeiro: ensinar a olhar além da doença”, pontua.

Hoje, quando Rita vê Beatriz seguindo seu caminho na estomaterapia e no empreendedorismo, percebe que aquele olhar que ela já tinha como estudante continua presente.

“Só que agora está mais maduro, mais seguro e transformado em uma identidade profissional própria. Como professora, isso me emociona. Porque, no final, a nossa maior conquista não é apenas formar um bom enfermeiro. É contribuir para que ele descubra o profissional que pode se tornar. Acompanhar esse processo é um privilégio”, declara.


“Além da competência técnica, [Beatriz] tinha simpatia, facilidade de relacionamento e uma capacidade muito bonita de olhar para o paciente como pessoa. Isso, para mim, é essencial na enfermagem. Hoje, acompanhando sua trajetória, vejo que aquelas características que já estavam presentes na estudante foram amadurecendo. Ela transformou conhecimento em competência, competência em segurança e, agora, transforma sua experiência em novos caminhos profissionais e empreendedores.”Rita Mônica Studart, docente do curso de Enfermagem

Rita segue acompanhando os passos da aluna. “Ainda mantenho contato com a Bia e vibro com cada conquista dela. Inclusive, seu primeiro emprego aconteceu a partir de uma indicação minha, justamente pelo excelente desempenho que ela apresentou durante o Internato Hospitalar”, celebra. 

A egressa iniciou sua trajetória na Central de Material e Esterilização e, mais uma vez, conseguiu se destacar. Lá, foi supervisora de enfermagem, gerenciando o serviço juntamente com a então coordenadora.

“Hoje, vê-la direcionando sua carreira para a estomaterapia e para o empreendedorismo me deixa muito feliz. Porque percebemos que ela não está simplesmente escolhendo uma área de atuação, está construindo um caminho próprio, com identidade e propósito”, reconhece a professora.

Ferramentas para se destacar no mercado

Por outro lado, a egressa reconhece que a Unifor foi um alicerce para que ela descobrisse esse caminho. Ela destaca que a Universidade oferece uma base curricular organizada, que permite avançar gradualmente no conhecimento, enquanto cria situações para que o aluno comece a se perceber como profissional ainda durante a graduação. Isso porque as discussões de casos, as mostras acadêmicas, os estágios e internatos, as simulações clínicas e os laboratórios aproximam o estudante de situações reais da profissão.


“E tudo isso eu fui aproveitando para, de fato, ter uma bagagem completa na Unifor. [...] Eu sempre estive metida em quase tudo que aparecia na Unifor, e não só ligada à área de enfermagem, porque eu entendi que ser profissional não é só a sala de aula.”Beatriz Mesquita, egressa do curso de Enfermagem da Unifor

A egressa ressalta a infraestrutura oferecida no curso, de laboratórios às salas confortáveis e um campus acolhedor inclusive para permitir encontros e momentos de lazer. Ela também reforça o acesso a um acervo “excelente” na Biblioteca Central, que se tornou uma ferramenta de aprendizado importante para os alunos.

Outro diferencial da Universidade é a qualidade e proximidade com o corpo docente. “Além de ensinar a disciplina de enfermagem, além de ensinar a nossa formação básica como profissionais, eles nos ensinaram sobre posicionamento, postura e comunicação. Então, você realmente tem um posicionamento diferente como enfermeiro, inclusive para desbravar outros horizontes”, aponta.

Enfermagem que se posiciona e inova

Beatriz diz que, depois de toda essa formação e de suas experiências profissionais, é movida por uma enfermagem que se posiciona e inova, indo além do atendimento. Uma profissão que une todos os elos do cuidado do paciente, da infância à velhice.

“E vejo uma profissão muito forte, muito forte mesmo. Apesar da gente ainda ter muito o que desbravar na enfermagem, eu vejo que é uma profissão que cada vez mais vem ganhando destaque e que precisa ser vista a partir de nós, enfermeiros, com outros olhos”, defende.

É nesta perspectiva que ela nutre um novo sonho além do consultório: conseguir inspirar outros profissionais a fazer uma enfermagem posicionada, talvez por meio de mentoria ou docência. 

“A gente sabe que a nossa atuação ainda é [vista como] muito limitada. Tem gente que acha que o enfermeiro é para obedecer, para seguir algumas indicações, mas a gente é um profissional que tem a sua conduta, que tem o seu olhar para o paciente. E que tem a sua expertise também, seja um profissional especialista ou generalista. O enfermeiro tem essa capacidade técnica para definir também algumas condutas. Quero muito ver uma profissão cada vez mais valorizada”, explica ela, que na sua atuação debate casos clínicos com médicos e outros profissionais da saúde, por exemplo.

A formação em Enfermagem oferecida pela Unifor permite ao estudante compreender que ser enfermeiro vai muito além de dominar procedimentos técnicos, segundo a professora Rita Mônica.

Ela reforça que a Universidade oferece laboratórios de alta performance e espaços para simulação realística, possibilitando que o aluno vivencie situações muito próximas daquelas que encontrará na prática profissional. “Isso proporciona segurança, pensamento crítico e capacidade de tomada de decisão”, aponta.

Além disso, lembra, existe um estímulo permanente à pesquisa, à extensão, às atividades extracurriculares e à aproximação com diferentes cenários de assistência. As parcerias internacionais, os programas de bolsas e as oportunidades de formação também ampliam os horizontes dos estudantes.

“Tudo isso contribui para formar profissionais capazes não apenas de cuidar, mas também de pesquisar, liderar, inovar, empreender e transformar a realidade. A trajetória da Beatriz é um exemplo disso. Ela aproveitou as oportunidades da graduação, construiu sua experiência profissional e hoje está criando novas possibilidades dentro da própria enfermagem”, finaliza a docente.

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