Respeito à mulher começa na infância: como a educação de meninos ajuda no combate à violência de gênero
seg, 23 março 2026 17:32
Respeito à mulher começa na infância: como a educação de meninos ajuda no combate à violência de gênero
Especialistas apontam que combater a cultura da violência exige repensar a construção da masculinidade desde cedo, com educação baseada em respeito, igualdade e responsabilização social

Mesmo com o avanço de políticas públicas de proteção e conscientização social, a violência contra a mulher segue como um problema crescente no Brasil. Dados recentes mostram que o país marcou recorde em 2025, quando foram registrados 1.568 casos de feminicídio, sendo cerca de 66,3% ocorridos dentro da própria residência da vítima. Apesar da agressão física ser o último estágio, a violência de gênero também se manifesta de outras formas, como nos casos de violência psicológica, sexual, patrimonial e moral.
A lógica de desumanização das mulheres costuma ser um fator chave para o surgimento desse tipo de comportamento, que pode começar em pequenas atitudes — de comentários negativos sobre o corpo femino até ver estupro como motivo de piada. Segundo especialistas, enfrentar essa realidade exige ir além das medidas punitivas e trazer um olhar atento à raiz do problema: a forma como educamos os meninos e a construção social do conceito de masculinidade.
Para entender esse debate, o jornal Unifor Notícias Mobile conversou com pesquisadores da Universidade de Fortaleza (Unifor), instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz. Eles mostram como o combate à violência de gênero passa necessariamente pela transformação cultural e pela educação de crianças e jovens, especialmente meninos, para alcançarmos relações baseadas no respeito e na igualdade.
A raiz da violência contra a mulher está na cultura
Embora muitas vezes seja associada apenas às agressões físicas, a violência contra a mulher começa muito antes. Ela se manifesta em comportamentos cotidianos, discursos sociais e representações culturais que inferiorizam ou objetificam o feminino.
A psicóloga Leônia Teixeira, docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGP) e coordenadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicanálise, Cultura e Contemporaneidade (LAEpCUS) da Unifor, explica que a violência de gênero está profundamente ligada à estrutura histórica da sociedade.
“Existe um fator que ainda é muito forte na constituição da sociedade brasileira, que naturaliza comportamentos que desumanizam e objetificam mulheres. Isso tem a ver com uma sociedade que se firma nos pilares do patriarcado, do machismo, do sexismo e da misoginia.” — Leônia Teixeira, psicóloga, docente do PPGP e coordenadora do LAEpCUS da Unifor
Segundo a pesquisadora, essas estruturas culturais influenciam diretamente a forma como homens e mulheres são socializados, definindo expectativas e papéis sociais que frequentemente colocam as mulheres em posição de subalternidade.
Nesse contexto, comportamentos aparentemente inofensivos, como piadas, comentários machistas ou atitudes que diminuem o papel feminino, contribuem para consolidar uma cultura de violência. “Hoje já se reconhece uma tipologia chamada violência recreativa contra a mulher, quando ela é objetificada em piadas e comentários que diminuem suas capacidades ou sua posição social”, destaca.
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Masculinidade e violência são construções social
A forma como os meninos são educados desempenha papel central nesse processo. Desde cedo, muitos são incentivados a associar masculinidade à força, à dominação ou à repressão emocional. De acordo com Leônia, esse modelo tradicional de masculinidade também pode gerar impactos negativos para os próprios homens.
“A construção da masculinidade precisa ser revista desde muito cedo. Isso envolve os ambientes familiares, escolares, comunitários e todos os espaços sociais onde crianças e jovens se formam”, pontua. Ela destaca que estereótipos de gênero limitam as possibilidades de desenvolvimento emocional e social dos meninos, reforçando comportamentos agressivos e dificultando a construção de relações mais igualitárias.
Além disso, esses padrões são frequentemente reproduzidos por figuras de autoridade, como familiares, educadores e lideranças sociais. “Essas identidades precisam ser questionadas quando cristalizam a subjetividade das pessoas e impedem que elas desenvolvam plenamente suas potencialidades”, reflete a psicóloga.
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A educação pode ser usada como ferramenta de prevenção?
Se a violência é construída socialmente, a educação aparece como uma das ferramentas mais eficazes para preveni-la. Leônia Teixeira defende que a formação de crianças deve incluir debates sobre igualdade de gênero e respeito à diversidade desde os primeiros anos de vida.
“A educação de meninos e meninas é algo fundamental e deve começar nas famílias, nas escolas e nos espaços de convivência social, quebrando estereótipos de gênero e reduzindo a objetificação da figura feminina”, pondera.
Iniciativas educativas também contribuem para esse processo de transformação. A produção crescente de livros infantis e juvenis que abordam temas como diversidade, igualdade e respeito tem sido apontada como uma ferramenta importante na formação de valores e na desconstrução de estereótipos de gênero.
Para a pesquisadora, permitir que o debate circule em diferentes espaços sociais é essencial para que crianças e jovens desenvolvam uma visão mais crítica sobre as desigualdades. “Quando a palavra circula e as questões de gênero podem ser discutidas abertamente, as pessoas constroem experiências baseadas no respeito e na consideração do outro”, completa a docente do PPGP da Unifor.
O papel do direito na promoção da igualdade
Além da educação, o enfrentamento à violência de gênero também passa pela aplicação efetiva das leis e pela consolidação de uma cultura de direitos. O professor do curso de Direito da Unifor e juiz do trabalho, Rafael Marcílio Xerez, destaca que a igualdade entre homens e mulheres é um princípio constitucional.
“A Constituição estabelece que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações. Isso significa que o enfrentamento da violência de gênero é um compromisso do Estado e da sociedade”, destaca o jurista.
Para ele, o principal desafio está em fazer com que os princípios previstos na legislação se concretizem no cotidiano da sociedade. Nesse sentido, Rafael destaca que a efetivação desse compromisso depende do fortalecimento da educação e da implementação de políticas públicas capazes de promover uma cultura baseada na igualdade e no respeito. Nesse processo, a formação de crianças e jovens aparece novamente como um elemento central.
“Quando ensinamos desde cedo que o gênero não pode servir como critério para limitar direitos ou oportunidades, abrimos caminho para relações mais justas e para a redução da violência de gênero” — Rafael Marcílio Xerez, juiz do trabalho e docente do curso de Direito da Unifor
Redes sociais e discursos de ódio
Outro fator que preocupa especialistas é o crescimento de comunidades online que disseminam discursos de ódio e misoginia. Segundo Rafael Xerez, o ambiente digital pode favorecer a circulação dessas narrativas devido à sensação de anonimato e impunidade. “A comunicação online ampliou enormemente a circulação de ideias, mas também tem servido, em alguns casos, para a disseminação de discursos de ódio marcados pela violência de gênero”, afirma.
Essas comunidades frequentemente atraem jovens que enfrentam frustrações pessoais ou dificuldades nas relações sociais, reforçando visões hostis em relação às mulheres. “Essas narrativas acabam alimentando comunidades digitais que reforçam visões hostis em relação às mulheres, como se observa em fenômenos conhecidos como ‘red pill’”, explica o professor.
O movimento red pill (pílula vermelha, em português) é uma subcultura que surgiu em ambientes digitais e reúne, em sua maioria, homens que compartilham a ideia de que a sociedade seria dominada por mulheres e influenciada por pautas feministas. O termo faz referência ao filme Matrix (1999), mas adquire outra conotação após ser adotado por comunidades masculinistas em fóruns online.
Cooptado por movimentos extremistas e de ódio, o termo “red pill”, traduzido como “pílula vermelha”, teve origem no filme Matrix, simbolizando o despertar e a liberdade, assumindo a responsabilidade pela própria vida (Foto: Getty Images)
Nesse contexto, “tomar a red pill” significa, para esses grupos, despertar para uma suposta “verdade oculta” sobre as relações de gênero. Especialistas apontam que essas comunidades costumam disseminar discursos marcados por misoginia e reforçam a ideia de que homens devem priorizar a si mesmos e evitar relações afetivas com mulheres. Para o professor, combater esse tipo de influência exige tanto ações jurídicas quanto formação crítica de crianças e adolescentes.
Um caso recente reforça a gravidade e a urgência do debate sobre violência de gênero no Brasil. A Polícia Civil do Rio de Janeiro prendeu quatro jovens, com idades entre 18 e 19 anos, pelo estupro coletivo contra uma adolescente de 17 anos, ocorrido no dia 31 de janeiro, em um apartamento localizado no bairro de Copacabana.
Eles foram indiciados pelo crime de estupro com concurso de pessoas, enquanto um outro adolescente também é investigado. O caso evidencia a brutalidade da violência e como os jovens estão envolvidos em práticas que refletem uma cultura de desrespeito e objetificação do corpo feminino.
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O acolhimento a vítimas de violência doméstica
Nos serviços de apoio às vítimas, a violência de gênero aparece de formas diversas, muitas vezes silenciosas e difíceis de identificar. Diretora do Centro de Ciências Jurídicas (CCJ) da Unifor, Juliana Mamede é responsável pelo Núcleo de Apoio às Vítimas de Violência Urbana (NAVV) e explica que muitas mulheres procuram ajuda, inicialmente, por outros motivos.
“Muitas vezes, a violência não aparece de forma imediata ou explícita. Durante o processo de escuta, começamos a perceber sinais que indicam situações de violência. A partir de uma escuta ativa e sensível, conseguimos estabelecer um vínculo que permite que a narrativa da violência comece a emergir.” — Juliana Mamede, diretora do CCJ e coordenadora do NAVV da Unifor
Em outras situações, as mulheres chegam ao serviço já conscientes da violência que estão vivenciando e procuram o NAVV em busca de orientação jurídica ou apoio psicológico. Muitas delas já solicitaram medidas protetivas e buscam compreender melhor o andamento do processo judicial, além de receber suporte emocional para enfrentar o momento.
Hoje, um dos principais desafios enfrentados pelas vítimas é superar o medo e a dependência emocional ou financeira em relação ao agressor. De acordo com a professora, esse processo exige acompanhamento multidisciplinar e fortalecimento da autonomia das mulheres: “Muitas passaram por processos prolongados de violência e acabam perdendo a confiança em si mesmas. Parte do nosso trabalho é ajudá-las a recuperar a autoestima e a autonomia”.
A dependência econômica também é um fator que dificulta a ruptura com o ciclo de violência. “Muitas viveram por anos em relações nas quais o agressor era o principal provedor da família, o que gera insegurança sobre como reorganizar a própria vida”, enfatiza. Por isso, o atendimento envolve diferentes áreas, como apoio psicológico, orientação jurídica e encaminhamentos sociais.
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O papel dos homens na mudança
Combater a violência de gênero não é responsabilidade apenas das mulheres ou das vítimas. Os homens também precisam assumir um papel ativo nesse processo. Segundo Rafael, “o primeiro passo é reconhecer que a violência contra a mulher é um problema real e profundamente enraizado na sociedade”.
A partir desse reconhecimento, torna-se possível identificar e questionar comportamentos e discursos que foram naturalizados ao longo do tempo. Nesse contexto, destaca-se que a responsabilidade masculina no enfrentamento da violência de gênero não se limita à ausência de atitudes violentas, mas também envolve a adoção de uma postura ativa na promoção de relações mais igualitárias. Trata-se de uma mudança cultural que depende do engajamento de toda a sociedade.
Como lembra a professora Juliana Mamede, cada caso de feminicídio representa mais que um número nas estatísticas. “Quando uma mulher é vítima de feminicídio, não perdemos apenas uma estatística: perdemos uma filha, uma mãe, uma profissional, um ser humano”, finaliza.
Faça parte dessa luta: denuncie a violência contra mulheres
Se você ou alguém que você conhece está em situação de violência, é importante buscar ajuda. O Ligue 180 funciona gratuitamente em todo o Brasil e oferece orientação e acolhimento. Também é possível procurar apoio em serviços especializados, como os atendimentos no Núcleo de Apoio às Vítimas de Violência Urbana (NAVV) da Unifor, que oferecem suporte jurídico, psicológico e social.
Mulher, você não está sozinha!
Serviço
Núcleo de Apoio às Vítimas de Violência Urbana (NAVV) da Unifor
Local: Escritório de Práticas Jurídicas, bloco Z (Av. Washington Soares, 1321 - Edson Queiroz, Fortaleza-CE)
Funcionamento: segunda a sexta-feira | 8h às 12h | 13h às 17h
Agendamentos: navv@unifor.br
Informações: (85) 3477-3406
Esta matéria está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), contribuindo para o alcance do ODS 5 – Igualdade de Gênero. A Universidade de Fortaleza, assim, promove o debate sobre a violência contra a mulher, reforçando a importância da educação, da equidade e do fortalecimento das instituições no enfrentamento dessa problemática.