Pesquisa Unifor: estudo avalia os impactos dos ultraprocessados na dieta, cultura e saúde de povos tradicionais

seg, 27 julho 2026 17:36

Pesquisa Unifor: estudo avalia os impactos dos ultraprocessados na dieta, cultura e saúde de povos tradicionais

A pesquisa amplia o debate sobre alimentação e segurança alimentar em comunidades quilombolas, ribeirinhas e extrativistas, mostrando as consequências do consumo de alimentos não saudáveis


Para mapear o que a população coloca no prato, a pesquisa utilizou os marcadores de consumo alimentar do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Foto: Getty Images)
Para mapear o que a população coloca no prato, a pesquisa utilizou os marcadores de consumo alimentar do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Foto: Getty Images)

Nas últimas décadas, os alimentos ultraprocessados passaram a ocupar cada vez mais espaço na mesa dos brasileiros. Embora esse cenário seja frequentemente associado aos centros urbanos, ele também tem alcançado povos e comunidades tradicionais. Essa transição alimentar tornou-se um dos principais desafios para a saúde pública no país, pois se conecta ao aumento de doenças crônicas como obesidade, diabetes e hipertensão.

Historicamente, as populações tradicionais mantêm uma alimentação baseada em alimentos produzidos localmente, na agricultura familiar, no extrativismo, na pesca e em conhecimentos transmitidos entre gerações.

No entanto, mudanças nos modos de vida, a perda de territórios, a expansão da urbanização e o maior acesso a produtos industrializados — que costumam ser práticos, amplamente disponíveis e, muitas vezes, mais baratos que alimentos frescos — vêm alterando esse padrão alimentar, colocando em risco não apenas a saúde dessas populações, mas também parte de seu patrimônio cultural e de sua soberania alimentar.

Buscando compreender a dimensão desse fenômeno, pesquisadores da Universidade de Fortaleza, mantida pela Fundação Edson Queiroz, e de outras instituições científicas do Brasil desenvolveram o estudo “Tendência temporal de marcadores do consumo alimentar em povos e comunidades tradicionais no Brasil”.

A pesquisa utilizou dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), que registra dados de consumo alimentar e nutrição dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), para mapear as mudanças na dieta dessas populações ao longo do período analisado. 

Os resultados apontam para o aumento do consumo de alimentos não saudáveis (como embutidos e hambúrgueres) e a redução na ingestão de alimentos tradicionais (como o feijão e as frutas frescas) em povos e comunidades tradicionais, ganhando um significado alarmante quando contextualizados além dos números. 

Essa mudança drástica, conhecida como transição nutricional, não reflete uma simples mudança de preferência ou escolha voluntária de consumo por parte de quilombolas, ribeirinhos e extrativistas. Na realidade, ela é o sintoma físico de uma violência cultural e territorial. 

O impacto do território no prato de populações tradicionais

O avanço do desmatamento, a contaminação de rios por mineração e agrotóxicos e os intensos conflitos fundiários têm sufocado os modos de vida das populações tradicionais, como os povos indígenas. Assim, são impedidos de caçar, pescar, coletar e cultivar suas roças de subsistência devido à perda ou degradação de seus territórios.

Esses povos são empurrados para a dependência do comércio local, onde alimentos ultraprocessados, que representam calorias baratas de fácil transporte e longa validade, surgem como a única alternativa acessível.

O impacto cultural disso é devastador: ao substituir o alimento da terra pelo produto de prateleira, rompe-se um ciclo secular de transmissão de saberes ancestrais sobre o manejo da biodiversidade, as receitas tradicionais e a própria identidade comunitária.

Para a nutricionista Brenna Barreto Barbosa, egressa do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (PPGSC) da Unifor e pesquisadora envolvida no estudo, esse cenário vai muito além da alimentação, se estendendo até a herança cultural desses povos.


“Quando alimentos tradicionais deixam de fazer parte do hábito alimentar e são substituídos por ultraprocessados, isso impacta em perda de práticas culturais, conhecimentos tradicionais e formas de produção que são transmitidas entre as gerações.”Brena Barbosa, nutricionista, mestre em Nutrição e uma das autoras do estudo 

Essa transição para uma dieta menos saudável também foi moldada pelo cenário político e sanitário do país. O estudo aponta que, durante o governo de Jair Bolsonaro, houve um desmonte e desarticulação de estruturas federais vitais para a execução dos Planos Nacionais de Segurança Alimentar e de Agroecologia, isolando a agricultura familiar e os povos tradicionais de apoios essenciais. 

Esse cenário de fragilidade institucional foi severamente agravado pela pandemia de Covid-19. A crise sanitária e econômica, que culminou no ano de 2021, registrou os piores índices de consumo de alimentos saudáveis em todas as faixas etárias analisadas pelos pesquisadores, consolidando o impacto da crise diretamente no prato dessas comunidades. 

Para reverter esse cenário e garantir a preservação da cultura alimentar dessas populações, o estudo conclui implicações que exigem uma reformulação urgente de políticas intersetoriais, que unam saúde, fomento econômico e direitos territoriais.  

O estudo evidencia que a regularização fundiária e a proteção ambiental dos territórios tradicionais devem ser encaradas também como ações fundamentais de saúde pública e combate à desnutrição, uma vez que a soberania alimentar só existe quando a terra está protegida. 

“É necessário fortalecer políticas públicas que garantam o direito ao território e à produção tradicional de alimentos, fortalecer programas de segurança alimentar, apoiar a agricultura familiar, as formas tradicionais de produção e aumentar a vigilância alimentar por meio do Sisvan”, pontua Brena Barbosa.

Além disso, as respostas do SUS, a partir dos diagnósticos gerados pelo Sisvan, precisam ser adaptadas por meio de estratégias de nutrição intercultural. Isso requer a capacitação de equipes de saúde para que validem o conhecimento dos anciãos dessas comunidades, estimulando o resgate de plantas alimentícias locais e técnicas tradicionais de cultivo, em vez de aplicar cartilhas nutricionais urbanas e genéricas que ignoram a riqueza e a especificidade cultural de cada povo tradicional do país. 

Metodologia do estudo 

Para avaliar o comportamento dos dados ano a ano, os pesquisadores utilizaram a regressão de Prais-Winsten. O principal diferencial do estudo é a abrangência, enquanto a maioria das pesquisas foca em grupos específicos ou períodos curtos, este estudo investigou múltiplos ciclos de vida, incluindo crianças, adolescentes, adultos, idosos e gestantes

Ao mapear o que a população coloca no prato, a pesquisa utilizou os marcadores de consumo alimentar do Sisvan. Essa ferramenta investigou itens específicos ingeridos pelos participantes no dia anterior à avaliação, dividindo a análise em três formulários distintos de acordo com a faixa etária:

  • O primeiro questionário é voltado para bebês menores de seis meses, avaliando a prática do aleitamento materno e a introdução precoce de alimentos.
  • O segundo questionário foca em crianças de seis meses a dois anos incompletos, com o objetivo de caracterizar se a introdução de alimentos de qualidade está ocorrendo no tempo oportuno. 
  • O terceiro questionário atende indivíduos a partir dos dois anos de idade (incluindo crianças, adolescentes, adultos, idosos e gestantes), tendo como base as diretrizes do Guia Alimentar para a População Brasileira.

É justamente este último grupo, composto por pessoas com mais de dois anos, que permite identificar a presença de padrões alimentares saudáveis e não saudáveis. Na categoria de hábitos saudáveis, os pesquisadores analisaram o consumo de três grupos: feijão, frutas e verduras e/ou legumes

Em contrapartida, os hábitos não saudáveis são representados por quatro categorias: hambúrguer e/ou embutidos; bebidas adoçadas; macarrão instantâneo, salgadinhos de pacote ou biscoitos salgados; e biscoitos recheados, doces ou guloseimas.

A partir desses dados, a pesquisa desenvolveu um indicador para cada categoria alimentar, calculando a proporção de pessoas que consumiram esses grupos no dia anterior. Além disso, foi criado um indicador específico para medir o consumo de alimentos ultraprocessados, que aponta a proporção de indivíduos que ingeriram pelo menos um dos quatro alimentos classificados como não saudáveis nas últimas 24 horas.

Importância do estudo 

Esse estudo ajuda a preencher uma lacuna importante sobre a alimentação dos povos e comunidades tradicionais no Brasil ao avaliar, de forma pioneira, a tendência do consumo alimentar desses grupos em todo o país e em todas as faixas etárias. 

Ao analisar os registros do Sisvan ao longo de oito anos, o trabalho valida a plataforma do SUS como uma ferramenta essencial para monitorar a saúde de grupos vulneráveis, servindo de base para futuras investigações. Os resultados mostram uma transição nutricional preocupante e a perda da identidade cultural no prato dessas comunidades, provocadas por pressões externas, como: 

  • Desterritorialização;
  • Avanço do agronegócio;
  • Desmatamento;
  • Escassez de água;
  • Uso de agrotóxicos.

Como consequência, alimentos tradicionais e saudáveis ficam escassos, sendo substituídos por ultraprocessados de fácil acesso e baixo valor nutricional. Esse cenário eleva o risco de doenças crônicas, agrava problemas como a desnutrição e a baixa estatura, além de ameaçar as metas globais da ONU para 2030, como a Fome Zero e a Saúde e Bem-Estar.

“Os resultados são importantes para orientar políticas públicas, fortalecer ações de vigilância alimentar e nutricional e dar apoio às estratégias que reduzam as desigualdades em saúde, respeitando as características de cada comunidade e povo tradicional”, pontua Brena. 

Em suma, o estudo serve como um diagnóstico urgente para os tomadores de decisão, comprovando que o desmonte de estruturas federais e de planos nacionais de segurança alimentar e agroecologia, iniciado em 2016 e agravado no governo de Jair Bolsonaro e pela pandemia em 2020, afetou diretamente a qualidade da alimentação desses povos.

Sobre a pesquisa

A pesquisa contou com a colaboração entre a Unifor, a Universidade Estadual do Ceará, a Fundação Oswaldo Cruz, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade de São Paulo (USP). A equipe de pesquisa é composta por:

  • Brena Barreto Barbosa - Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (Unifor);
  • Greyceanne Cecília Dutra Brito - Programa de Pós-Graduação em Nutrição em Saúde (Uece);
  • Fernanda Savicki de Almeida - Fundação Oswaldo Cruz; 
  • Lia Silveira Adriano - docente do curso de Nutrição (Unifor);
  • Aline Martins Carvalho - Departamento de Nutrição (USP);
  • Larissa Loures Mendes - Programa de Pós-Graduação em Nutrição (UFMG);
  • Antônio Augusto Ferreira Carioca - Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (Unifor).

 


Esta notícia está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, contribuindo diretamente para o alcance do ODS 2 – Fome Zero e Agricultura Sustentável, do ODS 3 – Saúde e Bem-Estar e do ODS 10 – Redução das Desigualdades, ao lançar luz sobre a vulnerabilidade alimentar de povos originários.

O estudo, fruto da cooperação entre professores de diferentes universidades e realizado na Universidade de Fortaleza, reafirma o compromisso da Unifor com a promoção da saúde, a equidade social e a produção de ciência colaborativa, transformando o conhecimento acadêmico em um alerta crucial para a preservação e o bem-estar dessas populações.


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