seg, 10 agosto 2026 19:07
Pesquisa Unifor: estudo revela novo indicador de risco para cirurgias cardíacas em recém-nascidos
A 200ª dissertação do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas revela que bebês com até três quilos têm risco elevado em cirurgias do coração

A Universidade de Fortaleza (Unifor) alcançou um marco histórico em seu Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas (PPGCM) com a defesa da 200ª dissertação de mestrado. O trabalho desenvolvido pela pediatra e neonatologista Rochelle Parahyba lança um novo olhar sobre a avaliação de risco em cirurgias cardíacas neonatais e pode contribuir para mudanças nos critérios utilizados no cuidado de recém-nascidos com cardiopatias congênitas.
Intitulada “Peso operatório como determinante de risco em cirurgia cardíaca neonatal: os limiares de risco são universais?”, a pesquisa investigou um dos parâmetros mais utilizados mundialmente para estimar a vulnerabilidade de bebês submetidos a cirurgias cardíacas: o peso corporal. O estudo foi orientado pelo doutor Marcelo Cavalcante, professor do PPGCM, e coorientado pela doutora Candice Cavalcante, cardiologista pediátrica.
Tradicionalmente, recém-nascidos com menos de 2,5 kg são considerados o grupo de maior risco, no entanto, os resultados do estudo indicam que essa referência pode não refletir adequadamente a realidade observada em países de renda média, como o Brasil.
A investigação revelou que recém-nascidos operados com peso inferior a 3 kg apresentaram taxas significativamente mais elevadas de mortalidade hospitalar e complicações pós-operatórias, mesmo após o ajuste para fatores como a complexidade da cirurgia.
Um dos achados mais relevantes foi a identificação de que bebês com peso entre 2,5 kg e 3 kg também apresentam vulnerabilidade importante, embora tradicionalmente não sejam classificados entre os grupos de maior risco. Segundo a pesquisa, o ponto de corte de 3 kg mostrou-se mais eficiente para a estratificação clínica do que o limite convencional de 2,5 kg.
Ao contestar um padrão internacionalmente consolidado e propor um modelo baseado nas reais demandas da prática clínica local, a pesquisa não apenas aprimora a tomada de decisão médica em cirurgias de altíssima complexidade, mas também consolida a produção de conhecimento científico de excelência da Universidade de Fortaleza.
A conquista representa um marco importante na trajetória acadêmica de Rochelle Parahyba, docente do curso de Medicina da Unifor, que celebra a oportunidade de concluir mais uma etapa de sua formação em um ambiente de excelência.
“Esse marco representa um resultado do compromisso coletivo de todos que fazem o PPGCM com a ciência. Reconheço que, por meio do nosso trabalho, são gerados não somente dados baseados em evidências, mas sim dados que impactam diretamente na saúde da nossa população. Um imenso sentimento de gratidão e reconhecimento de que todo esforço valeu a pena.” — Rochelle Parahyba, professora do curso de Medicina da Unifor e autora da pesquisa
Além de contribuir para o aprimoramento da avaliação de risco em cirurgias cardíacas neonatais, o estudo reforça a importância de considerar as particularidades dos sistemas de saúde de países de renda média na construção de protocolos clínicos. Os resultados oferecem subsídios para decisões médicas mais precisas e para o desenvolvimento de estratégias capazes de ampliar a segurança e a sobrevida de recém-nascidos com cardiopatias congênitas.
O estudo foi submetido a um periódico científico e aguarda publicação. A expectativa é que a divulgação amplie o alcance das evidências produzidas pela pesquisa, contribuindo para o debate científico e para o aprimoramento da avaliação de risco em cirurgias cardíacas neonatais.
Como o estudo foi desenvolvido
Para chegar aos resultados, a pesquisadora Rochelle analisou dados de 292 neonatos submetidos a cirurgias cardíacas entre 2018 e 2024 na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pós-operatória pediátrica do Hospital Dr. Carlos Alberto Studart Gomes (Hospital de Messejana), no Ceará.
O trabalho adotou um modelo de estudo observacional, retrospectivo, longitudinal e de coorte, o que significa que as equipes médicas não aplicaram novos tratamentos ou medicamentos, mas analisaram minuciosamente as informações de prontuários do grupo de pacientes selecionados.
Para garantir que a análise fosse precisa, foram excluídos casos sem registro do peso ou do desfecho clínico, além de bebês transferidos para outros serviços. O levantamento mapeou todo o percurso dos recém-nascidos, desde os momentos antes da operação até a alta hospitalar. Para organizar esse volume de dados, os pesquisadores dividiram as informações em três momentos cruciais do atendimento: pré-operatório, intraoperatório e pós-operatório.
No pré-operatório, foram observados aspectos demográficos e de saúde, como:
- Idade no dia da cirurgia;
- Sexo,
- Prematuridade;
- Peso corporal;
- Estatura;
- Doença cardíaca específica de cada recém-nascido;
- Saturação de oxigênio;
- Creatinina;
- Uso prévio de respiradores;
- Medicamentos para manter a pressão;
- Presença de infecções;
- Lesão renal;
- Alterações genéticas ;
- Realização da atriosseptostomia (procedimento de Rashkind).
Tudo isso foi alinhado ao escore internacional RACHS-1, uma ferramenta que classifica o risco de mortalidade segundo a complexidade do procedimento cirúrgico. Embora o RACHS-1 seja uma ferramenta importante para prever o risco cirúrgico, um estudo mostrou que, em países em desenvolvimento, a análise da sobrevida de recém-nascidos com cardiopatia congênita não deve considerar apenas a complexidade da cirurgia.
Mais do que produzir conhecimento, a ciência tem o poder de transformar realidades, orientar decisões e ampliar as possibilidades de cuidado para as próximas gerações (Foto: Getty Images)
Também é necessário levar em conta fatores como o peso e a idade do bebê, além de condições clínicas, como infecção, desnutrição, cianose grave, disfunção ventricular, injúria renal e hipertensão pulmonar. Além disso, as limitações tecnológicas e estruturais dos sistemas de saúde também podem influenciar os resultados cirúrgicos.
Durante a cirurgia, no período intraoperatório, a atenção voltou-se para o tipo de procedimento realizado, o tempo de uso da máquina de circulação extracorpórea (o “coração-pulmão” artificial), a duração do pinçamento da aorta e as taxas de oxigênio arterial e venoso, dados fundamentais para entender o peso do estresse cirúrgico no corpo do bebê.
Já na etapa pós-operatória, os pesquisadores acompanharam a jornada de recuperação e as potenciais complicações. Eles observaram o tempo total na UTI e em ventilação mecânica, marcadores como o lactato e a saturação venosa, a necessidade de remédios vasoativos calculada pelo escore VIS, a presença de lesões residuais e a evolução de episódios graves, como:
- lesão renal aguda,
- Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica (SRIS),
- sepse,
- infecções na ferida da cirurgia,
- disfunção no ventrículo,
- síndrome do baixo débito cardíaco.
A relação entre peso e indicadores de risco
Como o foco central do estudo era investigar o papel do peso operatório, os dados da balança foram analisados sob diferentes ângulos estatísticos. Primeiro, o peso foi tratado como uma variável contínua para medir seu impacto geral no risco de óbito.
Em seguida, os pesquisadores testaram e compararam dois pontos de corte: a marca tradicional de 2,5 kg, historicamente usada como divisor de águas pela medicina, e a faixa de 3,0 kg, que era a hipótese principal do estudo. Para entender onde o risco realmente mudou de patamar, as crianças foram divididas em quatro faixas de peso:
- abaixo de 2,5 kg;
- entre 2,5 kg e 3 kg;
- entre 3 kg e 3,5 kg;
- e igual ou superior a 3,5 kg.
O objetivo primário era medir a mortalidade hospitalar, ou seja, os óbitos ocorridos durante a internação para a cirurgia, enquanto o impacto secundário avaliou as diversas complicações e o tempo de UTI, trazendo um retrato completo sobre a recuperação dos bebês.
Na etapa de cruzamento estatístico, a equipe primeiro comparou o perfil clínico de cada faixa de peso e, depois, aplicou modelos avançados de regressão logística multivariada para isolar a influência do peso de outros fatores importantes, como a prematuridade e a complexidade cirúrgica.
Por fim, ao testar esses modelos com ferramentas de precisão como a curva ROC, a área sob a curva (AUC) e os testes de desempenho, os pesquisadores conseguiram demonstrar com clareza matemática que o limiar de peso de 3kg tinha a maior capacidade de prever os riscos e proteger os recém-nascidos.
Segundo Rochelle, os resultados obtidos abrem caminho para o avanço dessa linha de pesquisa, com foco na ampliação das evidências e na aplicação prática dos achados. “Que possamos avançar com essa pesquisa, desenvolvendo estudos prospectivos e com validação externa em outras coortes brasileiras. E, assim, desenvolver protocolos perioperatórios estruturados de monitorização e suporte multidisciplinar”, projeta.
200 dissertações fortalecendo a ciência e a saúde
A marca de 200 dissertações defendidas reflete a consolidação do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas (PPGCM) da Unifor como um espaço de excelência na formação de pesquisadores e na produção de conhecimento científico. Esse marco simboliza uma trajetória construída com investimento contínuo em pesquisa, inovação e desenvolvimento de estudos voltados para desafios relevantes da área da saúde.
Segundo o professor Marcelo Cavalcante, docente e pesquisador do PPGCM, esse resultado evidencia a maturidade acadêmica alcançada pelo Programa e sua contribuição para a formação de mestres preparados para enfrentar desafios reais da sociedade.
“O Programa tem um papel fundamental ao oferecer uma formação sólida em metodologia científica, pensamento crítico e ética em pesquisa. Além da excelência acadêmica, o PPGCM estimula seus alunos a desenvolverem estudos que respondam a necessidades reais da sociedade, aproximando a produção científica da prática clínica e dos desafios enfrentados pelos sistemas de saúde.” — Marcelo Cavalcante, doutor em Cièncias Médicas, docente do PPGCM da Unifor e orientador do estudo
A dissertação defendida pela pesquisadora Rochelle reúne rigor metodológico, relevância clínica e potencial de aplicação prática. Para Marcelo Cavalcante, o estudo traduz o compromisso central do Programa de produzir pesquisas capazes de transformar a assistência à saúde.
“Ao investigar se os limiares de peso utilizados para estratificação de risco em cirurgia cardíaca neonatal são realmente universais, o estudo questiona um paradigma amplamente adotado na prática clínica e busca gerar evidências que possam contribuir para uma avaliação de risco mais precisa e individualizada”, destaca o docente.
Essa aproximação entre pesquisa e prática clínica faz parte da proposta do PPGCM, que mantém integração com hospitais, serviços de saúde e grupos de pesquisa, incentivando projetos que surgem de problemas identificados na assistência. O Programa também estimula pesquisas multidisciplinares e translacionais e conta com a estrutura do Núcleo de Biotecnologia Experimental (Nubex), que dispõe de biotério e laboratórios especializados.
Nos últimos anos, o Programa também ampliou sua atuação em áreas estratégicas, como:
- Epidemiologia clínica;
- Medicina translacional;
- Doenças crônicas não transmissíveis;
- Doenças infecciosas;
- Saúde reprodutiva,
- Inovação em diagnóstico e terapêutica;
- Medicina baseada em evidências;
- Inteligência artificial aplicada à saúde;
- Avaliação de tecnologias em saúde e ensino médico.
Paralelamente, fortaleceu sua inserção nacional e internacional por meio de colaborações com centros de excelência, participação em estudos multicêntricos e reconhecimento da qualidade de sua produção científica. Para Rochelle, a marca alcançada pelo Programa vai além dos números e representa o compromisso coletivo de todos que constroem diariamente a pesquisa em Ciências Médicas.
Para os próximos anos, a perspectiva é ampliar ainda mais a inserção nacional e internacional do Programa, fortalecer redes de colaboração, aumentar o impacto das publicações científicas e incentivar pesquisas com potencial de inovação e transferência de conhecimento para a sociedade, mantendo o compromisso com a formação de pesquisadores e com a produção de ciência de excelência voltada à melhoria da saúde da população.
Esta notícia está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, contribuindo diretamente para o alcance do ODS 3 – Saúde e Bem-Estar e do ODS 4 – Educação de Qualidade.
A Universidade de Fortaleza reafirma, assim, seu compromisso com a pesquisa de alto impacto e a inovação em saúde, transformando a produção acadêmica em evidências práticas que salvam vidas neonatais e aprimoram a assistência hospitalar.