Aumento dos casos de obesidade infantil acende alerta para a prevenção precoce
Dados do Sisvan revelam que 40% das crianças cearenses apresentam excesso de peso, o que compromete o desenvolvimento saudável e exige cuidado imediato
A obesidade infantil vai muito além dos números que estão na balança. É uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal, condição que compromete a saúde física e emocional da criança.
Esse distúrbio metabólico é causado pela combinação de sedentarismo, fatores genéticos, emocionais e socioeconômicos, assim como o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados — que têm uma ampla oferta, baixo custo e são hiperpalatáveis , sendo muitas vezes mais práticos e atraentes do que opções saudáveis.
De acordo com o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI) , a composição dos ultraprocessados é nutricionalmente desbalanceada e, por isso, a ingestão precoce desses alimentos, que representa 25% das calorias diárias consumidas por crianças e adolescentes brasileiros, está associada ao avanço alarmante do excesso de peso.
Todos esses fatores têm uma grande influência, mas existe outro ponto alarmante: o excesso de tempo de tela, que muitas vezes vem acompanhado do consumo de ultraprocessados. O hábito reduz o tempo que seria dedicado às atividades físicas, podendo prejudicar o sono, o que pode alterar hormônios que controlam o apetite, aumentam o estresse e a resistência à insulina.
O Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) informa que 40% das crianças de até 9 anos no Ceará apresentam excesso de peso. A tendência de alta também se estende aos mais velhos: na faixa de 10 a 19 anos, o excesso de peso no estado saltou de 23% para 35% em uma década, indicando que uma em cada três pessoas nessa idade está acima do peso ideal.
Obesidade infantil: sintomas e tratamentos
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o método mais utilizado para identificar a obesidade infantil é o Índice de Massa Corporal (IMC). Esse cálculo é ajustado para a idade, comparando curvas de crescimento e outros parâmetros, como a distribuição corporal.
Existem dois tipos de obesidade infantil classificados de acordo com suas respectivas causas:
- Obesidade Alimentar (Exógena): cerca de 95% dos casos é resultado direto do desequilíbrio entre ingestão calórica e o gasto de energia.
- Obesidade Endógena: causada por fatores genéticos ou outras doenças subjacentes, como distúrbios hormonais e síndromes.
O excesso de peso na infância afeta o corpo de forma sistêmica e pode desencadear diversos problemas de saúde. Entre as principais complicações estão distúrbios cardiovasculares (como pressão alta e colesterol), alterações metabólicas (gordura no fígado e resistência à insulina), dificuldades respiratórias (como apneia do sono e asma), sobrecarga nas articulações e desequilíbrios hormonais que podem, inclusive, antecipar a puberdade.
A obesidade infantil é um problema complexo, resultado de uma interação entre hábitos de vida, ambiente e predisposição individual. O indício mais aparente da obesidade é o excesso de peso ou gordura corporal. Entretanto os sintomas vão muito além do aumento visível de peso, como:
- Falta de energia;
- Dificuldade para respirar;
- Resistência reduzida a exercícios físicos;
- Dores das articulações.
Outros problemas como depressão e ansiedade também podem aparecer como reflexo dessa condição, afetando profundamente o bem-estar emocional e a qualidade de vida das crianças.
O tratamento exige uma rede de apoio integrada. Nesse processo, o endocrinologista acompanha a saúde metabólica; o nutricionista ajusta a alimentação à realidade da família; o psicólogo cuida das emoções e do comportamento alimentar; e o educador físico estimula o movimento adequado para cada idade.
Fora dos consultórios, esse cuidado ganha força com o apoio das escolas e das equipes de saúde da família. O combate ao problema não é individual, mas um esforço conjunto entre profissionais, escola, comunidade e familiares.
Família, o berço dos bons hábitos
A nutricionista Patrícia Teixeira, docente do curso de Nutrição da Universidade de Fortaleza — instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz — e pós-graduada em Nutrição Comportamental, pontua que as práticas alimentares são construídas desde cedo, na primeira infância (0 a 6 anos).
Esse é um período de intensas descobertas e transformações cognitivas e biológicas. Nessa fase as preferências alimentares, a regulação interna de fome e saciedade, e as atitudes à comida são moldadas, sendo essa uma janela de oportunidade para a família realizar o processo de educação alimentar.
Os hábitos alimentares das crianças começam no prato dos
pais. Segundo especialistas, o exemplo visto em casa é a melhor
receita para uma boa alimentação (Foto: Getty Images)
Nessa etapa as competências alimentares desenvolvidas são muito importantes. Consolidar desde cedo uma rotina rica em alimentos in natura e minimamente processados protege o organismo contra a consolidação de padrões alimentares inadequados.
Promover uma alimentação saudável na infância não exige orçamentos inflacionados, mas sim uma “receita” prática que combina planejamento, economia e, acima de tudo, uma clara divisão de responsabilidades. Na mesa, cada um tem o seu papel: cabe aos pais ou cuidadores decidir o quê, quando e onde a refeição acontece, garantindo a oferta de alimentos adequados.
Patrícia reforça que cabe à criança a decisão de se vai comer e o quanto quer comer. Esse modelo, defendido por especialistas, protege a regulação natural de fome e saciedade do próprio corpo, estabelecendo limites claros e saudáveis desde pequeno. No entanto, as crianças aprendem a comer observando e imitando os adultos, o que exige que os pais também cultivem bons hábitos.
“As crianças não aprendem a comer
com o que vocês dizem para elas comerem, mas sim com o que elas
veem vocês comendo. O exemplo é a ferramenta educativa mais
poderosa que existe. Portanto, vamos facilitar o caminho,
descascar mais e desembalar menos.” — Patrícia
Teixeira, mestre em Fisiologia, doutora em Biotecnologia e
docente do curso de Nutrição da Unifor
A docente ainda pontua que, para tudo funcionar, o segredo está na gestão doméstica. Organizar as compras da semana, cozinhar em maior volume e congelar porções são atitudes que otimizam o tempo e geram economia de gás. Na hora de abastecer a despensa, feiras livres e mercados de bairro são ótimos aliados para baratear o acesso a itens frescos e apoiar a agricultura familiar.
Além disso, no momento de servir, afastar as telas, (celulares, tablets e televisão) é fundamental para garantir que a refeição ocorra em um ambiente tranquilo, estimulando a atenção plena no prato e fortalecendo a conexão familiar. “Cuidar da alimentação do seu filho hoje é o maior ato de amor e o melhor investimento que você pode fazer na saúde e no futuro dele”, enfatiza a professora Patrícia.
A escola como espaço de educação alimentar
A nutricionista Patrícia Teixeira pontua que a escola, onde a criança passa boa parte do tempo, também exerce um papel fundamental, sendo um espaço de socialização e aprendizado. Por isso, a educação alimentar nas escolas é fundamental para criar autonomia nas escolhas nutricionais, prevenir doenças crônicas e garantir o desenvolvimento físico e cognitivo, ajudando a consolidar preferências saudáveis na infância que se mantêm na vida adulta.
Ações educacionais como a criação de hortas escolares e vivências culinárias dão à criança um papel ativo, aproximando-as de todo o ciclo do alimento e despertando o prazer em consumir vegetais.
O combate à obesidade infantil também passa por decisões estruturais que vão muito além da cozinha de casa. A endocrinologista pediátrica Milena Sousa, docente do curso de Medicina da Unifor, afirma que, no Ceará, a barreira para uma infância ativa e saudável expõe o abismo da desigualdade social.
“Embora tenhamos avançado com a ampliação das escolas de
tempo integral, ainda é importante investir em educação alimentar e
garantir oportunidades regulares para a prática de atividade física.
No Ceará, assim como em outras regiões do Brasil, a desigualdade no
acesso a alimentos saudáveis e a espaços adequados e seguros para
lazer e esporte ainda representa um grande desafio.” —
Milena Sousa, endocrinologista pediátrica,
especialista em Nutrologia e docente do curso de Medicina da Unifor
De um lado, as famílias mais vulneráveis sofrem com o custo elevado de alimentos frescos e a ausência de feiras populares em seus bairros; de outro, a falta de segurança e de manutenção de parques, praças e quadras esportivas afasta as crianças das atividades físicas ao ar livre.
Sem infraestrutura básica de lazer e sem acesso financeiro a uma nutrição de qualidade, o ambiente periférico acaba sendo propício para o avanço de doenças crônicas desde a infância, mostrando que o excesso de peso é, antes de tudo, um problema de saúde pública e planejamento urbano.
Como a Unifor transforma a saúde infantil
Na Unifor, a formação acadêmica se conecta diretamente ao impacto social por meio de ações de extensão integradas ao currículo do curso de Nutrição . Logo no 2º semestre, os estudantes realizam atividades de educação alimentar com os alunos da Escola de Aplicação Yolanda Queiroz .
Mais adiante, no 5º semestre, o módulo de Nutrição na Infância e Adolescência aprofunda esse cuidado: os alunos desenvolvem estratégias clínicas baseadas em aconselhamento nutricional e determinantes sociais da saúde.
Esse projeto oferece um acompanhamento robusto, composto por cinco consultas ambulatoriais por paciente a cada semestre, integrando também oficinas culinárias e atividades educativas. A iniciativa beneficia semestralmente entre 40 e 50 crianças e adolescentes, de 2 a 18 anos.
A Unifor também se destaca pelo acolhimento especializado por meio do Programa de Nutrição aos Transtornos Alimentares na Infância (Pronutra Kids) , voltado ao tratamento de crianças com dificuldades e transtornos alimentares, como o Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE).
Todo esse ecossistema gera um impacto profundo no estado de saúde dos pacientes, resultando em melhorias nutricionais reais e mudanças positivas no comportamento alimentar. Esse cuidado abraça também as famílias, que recebem suporte contínuo para superar os desafios diários da rotina com a comida.
Ao mesmo tempo, os futuros nutricionistas vivenciam a prática clínica em pediatria, levando a ciência de ponta produzida nos laboratórios da Universidade de Fortaleza diretamente para a realidade das famílias cearenses.
Esta notícia está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, contribuindo para o alcance do ODS 3 – Saúde e Bem-Estar e do ODS 4 – Educação de Qualidade.
A Universidade de Fortaleza reafirma, assim, seu compromisso com a promoção da saúde e com a formação cidadã ao transformar o conhecimento acadêmico em ações práticas com potencial benefício direto para o bem-estar das crianças cearenses e de suas famílias