Histórias que nos inspiram no Outubro Rosa: Cláudia Miranda (EAD/Unifor)

- Cláudia, pode se apresentar pra gente?
Cláudia: Sou Cláudia Miranda, tenho 62 anos, nasci em Guaraciaba do Norte, na Serra da Ibiapaba (a 301km de Fortaleza) Sou casada, tenho três filhos (a mais velha com 34 anos, o mais novo com 28 anos).Tenho graduação e mestrado em Administração de Empresas e estou há 23 anos de Universidade de Fortaleza. Atualmente trabalho na área de Planejamento e Operações da Educação a Distância (EAD), atuando na assessoria regulatória da documentação para o Ministério da Educação (MEC). Entrei na Unifor como professora, mas já passei por outros cargos, como assessora pedagógica e coordenadora de cursos. No EAD, comecei a trabalhar em 2021.2, quando a área adquiriu muita força principalmente devido à pandemia do coronavírus. 

- Como você obteve o diagnóstico de câncer de mama? 
Cláudia: Eu tinha 57 anos quando recebi a notícia - então, faz pouco tempo. Ainda estou em tratamento de hormonioterapia. Descobri num exame normal de mamografia, quando foi solicitado uma repetição porque identificaram algo estranho nas imagens. Levei no meu ginecologista, que não viu nada, mas resolveu pedir uma nova mamografia. Ampliada, o exame continuou dando algo. O ultrassom também não identificou porque o nódulo era muito pequeno, no início.

Aí eu fiz a biópsia, que realmente definiu que era câncer. Do ginecologista, passei para o mastologista, que pediu outra bateria de exames para definir que tipo de tumor era (no meu caso, era 100%  hormonal). Como estava muito no início, não precisei fazer a quimioterapia; fui direto para cirurgia, onde foi retirado um quadrante da minha mama, posteriormente reconstituída. Depois, passei pela radioterapia - pra tentar matar qualquer outra célula cancerosa além do que é retirado. Depois da radio, estou na hormonioterapia, um tratamento para inibição da produção de hormônios pelo corpo. Em julho do ano que vem, devo encerrar esse ciclo - o que não significa que não precise dar continuidade com o acompanhamento do ginecologista, mastologista e oncologista. 

É interessante: a hormonioterapia trata esse tipo de câncer que tive com tranquilidade. Segundo o meu oncologista, você toma essa medicação durante cinco anos para que, findo esse prazo, minhas possibilidades de ter novamente um câncer do mesmo tipo fiquem iguais a você. É como se eu zerasse, mas não significa que a doença não volte. Pode inclusive aparecer outro tipo de câncer. Tanto que eu quis parar no quarto ano, e ele me explicou que é importante a continuidade do tratamento porque as pesquisas dizem que quanto mais tempo você toma - alguns tratamentos duram 10 anos - melhor a proteção, principalmente no caso de cânceres mais agressivos. No meu caso já não faria muita diferença, porque foi um tumor descoberto no início. Então cinco anos bastam. 

Já do trabalho aqui na Universidade, eu precisei me afastar durante seis meses - que foi o tempo que tomei a radioterapia. 


- Como foram os sentimentos a partir da descoberta do câncer de mama até a retomada da vida “normal”?
Cláudia: Cada pessoa reage de uma forma diferente, né? Alguns escondem, outros não querem nem saber, sem tratamento… mas eu sou uma pessoa muito explosiva. Quando eu soube, eu achei que fosse passar mal. Eu gritei, eu berrei, eu joguei todo aquele sentimento pra fora. Minha sobrinha, que é médica, tava comigo. Ela me deu a notícia e ficou muito assustada - eu mesma pensava mesmo que fosse ter um ataque cardíaco, sabe, minhas mãos ficaram dormentes, fiquei tonta. Eu não esqueço desse dia porque não estava esperando. Ninguém espera uma notícia assim. Tenho acompanhamento médico, fisicamente sempre fui magra, faço exercício, tenho uma alimentação saudável. Geneticamente eu também estava ok, mas tive uma tia que morreu de câncer de mama porque ela escondeu a doença o tempo todo. Só veio mostrar quando não havia mais jeito e o tratamento para o caso era o paliativo. Então minha primeira reação foi essa, de desespero. Câncer ainda é uma palavra que tem muito preconceito. Já melhorou muito, mas carrega um estigma muito forte. Então, você receber um diagnóstico que está com essa doença, é porque você vai morrer. E, na verdade, se é descoberto logo, a doença tem, sim, tratamento e muita chance de cura.

Depois de passada a emoção, o sangue esfriou e a mente voltou ao normal, minha reação foi a de ação.“Vamos retirar logo. Corre, corre, corre. Quem me ajuda, vamos marcar o médico, o exame…” Comecei a agir. Fiz a cirurgia, depois fui pra radioterapia, sem precisar que ninguém me levasse porque estava bem, super privilegiada em relação a tantas mulheres porque fiz o tratamento tendo plano de saúde. 

E depois que terminou a radioterapia, a gente pensa que acabou, né? O meu impacto foi aí: no retorno ao médico, ele me explicou que, agora, eu passaria pra outra fase. O quê? Tem outra fase? Como assim, quer dizer que eu ainda tenho que continuar com o tratamento? (risos). Sim, tinha, não havia acabado. Então, aquilo me perturbou um bocado. Então já foi aquele outro momento que eu cheguei em casa daquele jeito acelerado, sabendo o tipo de remédio, quais eram as consequências e os efeitos colaterais que ia ter. Aí depois, a gente vai vivendo e aceitando os efeitos colaterais - sejam dores musculares, problemas de cognição e névoa mental, insônia... Acredite, todos os efeitos colaterais que um remédio pode ter, eu tenho (risos). 

E talvez aí seja o momento mais doloroso do tratamento, porque você pode se sentir só. Quando é no início, realmente está toda a família dando apoio. Mas, depois, pode não existir mais nada para eles, é só um remédio de manutenção que você está tomando. Nesse momento, fazer terapia é interessante para a mulher, porque é o momento mais delicado. É o momento, por exemplo, de você de volta ao trabalho, onde é importante que as pessoas entendam que, em alguns momentos, vai precisar se ausentar para fazer exames ou tomar outras medicações com efeitos colaterais severos, que te impedem de trabalhar momentaneamente. Então, é interessante que as pessoas ao redor também entendam desse processo. 


- Qual a prática de autocuidado você recomendaria para uma colega?
Cláudia: Tire um dia no ano para fazer seus exames – eles são muito importantes. E nunca subestime os resultados. Procure ter uma alimentação saudável, se exercite, e se ame. Se tem algo que aprendi com tudo isso, foi que eu tenho que me amar sempre e cada vez mais.


Texto: Ana Paula Dantas
Fotos: Leonardo Bino Viana