Histórias que nos inspiram no Outubro Rosa: Dene Falcão (CCG)

- Dene, nos conta um pouco da tua história, a começar por seu nome: você se chama Francisca Arialdene Falcão da Silva. Como foi essa escolha por seus pais?
Dene: É uma mistura de nomes, coisa de interior, né? (risos) Me chamam de Dene desde criança, meu pai me chama assim. Aqui é Dene, no meu bairro mesmo é Dena. Agora, Francisca, foi porque minha mãe se apegou a São Francisco: quando estava com sete meses de grávida, ela teve paralisia do lado direito. E me atingiu na gestação. Eu sou PCD (pessoa com deficiência), tenho paralisia do lado direito, na mão e pé. Ela fez a promessa ao santo de que seu eu fosse menino, seria Francisco; e se fosse menina, Francisca. Aqui estou. Tenho 42 anos, nasci em Morada Nova (a 165 km de Fortaleza), sou casada e tenho uma filha, que vai fazer 18 anos em novembro. 

Tenho graduação em Secretariado, com pós-graduação em Liderança de Pessoas. Trabalho como secretária de Centro, o CCG, no turno noite - e fui contratada pela Universidade de Fortaleza em 2013 como assistente administrativo. 


- Como você teve o diagnóstico de câncer de mama? 
Dene: Eu ‘topei’ com o nódulo (eu não chamo caroço, chamo de nódulo) no dia 24 de dezembro de 2024, tomando banho, me arrumando para ir curtir o Natal. Era um nódulo bem próximo a outro que eu já tinha, de água, bem pequeno, que era acompanhado pela ginecologista. Voltei para ela em janeiro logo, solicitou uma mamografia para o mais rápido possível. Deus é tão maravilhoso que consegui no mesmo dia da consulta, um sábado. A atendente me recomendou não esperar o retorno da médica e procurar um mastologista para fazer a biópsia, o que fiz em fevereiro. No início de março, recebi a confirmação de que era um CA de mama, do tipo hormonal (HER2 positivo), que se espalha rápido. Ele pediu uma ressonância para avaliação, e foi constatado que estava bem localizado na mama ainda. O tratamento definido então foram 16 sessões de quimioterapia, seguido pela cirurgia - com retirada do quadrante da mama direita - e mais 15 sessões de radioterapia, seguida por mais imunoterapia, que finalizei em agosto. Devo realizar a mamoplastia quando terminar meu processo de emagrecimento. Já perdi 16 quilos. 


- Como foram os sentimentos a partir da descoberta do câncer de mama até a retomada da vida “normal”?
Dene:  Quando recebi o diagnóstico, uma das primeiras coisas que passaram pela minha cabeça foi: “Além de ser deficiente, agora vou ficar sem o peito e sem os cabelos?”

Eu sempre fui muito grata a Deus pela vida que Ele me deu. Tenho um marido maravilhoso, uma filha linda, tive a oportunidade de estudar, construir minha carreira e conquistar um bom emprego. Reconheço todas essas bênçãos e sou imensamente grata por cada uma delas. Mas Deus também conhecia o meu coração e sabia de algo que, por muito tempo, eu tive dificuldade de admitir: eu ainda não havia aceitado plenamente a minha deficiência física.

Eu era muito vaidosa. Tinha um cabelo loiro, enorme, que eu amava e cuidava com muito carinho. Por isso, diante da possibilidade de perder meus cabelos e também uma parte do meu corpo, senti que estava prestes a enfrentar não apenas uma doença, mas também medos e inseguranças que tocavam profundamente a minha autoestima e a forma como eu me enxergava.

Quando eu recebi o resultado da biópsia, a minha diretora (Daniele Coimbra, diretora do CCG) orientou que eu conversasse primeiro com a professora Cláudia Miranda, do EAD, que também havia passado por um câncer semelhante (antes de procurar pesquisar no Google). A professora me disse algo muito importante - e me seguirei a isso: “Dene, isso é seu. Pule pra cima. O que tiver de fazer, faça - e ligeiro”. 

Eu não tinha tempo a perder. Fui agilizando o que podia. Tanto que o meu tratamento foi muito rápido: eu fiquei afastada do dia 7 de abril ao dia 8 de dezembro de 2025. Oito meses. E minha família foi meu porto seguro de tudo mesmo. Quando meu cabelo começou a cair, foi minha mãe que me ajudou a passar a máquina - foi meu presente de Dia das Mães do ano passado. E aquilo foi libertador porque eu sofria pela perda daquele cabelo bonito, mas sabia que não conseguiria segurar, principalmente devido à dor que a queda causa no couro cabeludo. Depois daí, eu já não usava era nada para ir pra rua. Saia careca mesmo - me maquiava e colocava a cabeça no sol (risos).

Hoje, eu só tenho gratidão a Deus. Todo dia, quando eu abro o meu olho, eu agradeço a Deus. Porque assim, foi rápido e foi difícil, né? Foi quase um ano. Mas sabia que só eu podia passar por aquilo, então ninguém ia poder fazer por mim. Antes do tratamento, eu era sedentária e obesa - pesava 108 quilos.

Hoje eu estou com 89 quilos. Como o oncologista me disse: “A mulher matou a doença, mas agora você tem que me ajudar”. Como o meu câncer foi hormonal, se eu não controlar peso e emagrecer, focar em bons hábitos, a doença pode voltar, sim. Hoje vou pra academia, passo quase duas horas para você ter a noção (risos). E assim, no dia que não vou, acho que estou dando chance para ele voltar. Entendeu? Então assim, na preguiça, com raiva, na base do ódio, na misericórdia (como diz uma amiga)... eu vou me exercitar.

- Qual a prática de autocuidado você recomendaria para uma colega?
Dene: Você é sua maior prioridade. Seja a pessoa mais importante para você mesma. Se cuide, se ame, se toque. E quando notar alguma diferença no seu corpo, procure ajuda médica. Quanto mais cedo é o tratamento, maiores são as chances de cura.

Texto: Ana Paula Dantas
Fotos: Leonardo Bino Viana