Histórias que nos inspiram no Outubro Rosa: Luciana Mota (CCS)
- Luciana, pode se apresentar pra gente?
Luciana: Sou Luciana Mota, tenho 45 anos, sou
fortalezense, casada, mãe de dois filhos, tenho um cachorrinho e sou
professora do curso de Fisioterapia da Unifor há 16 anos. Minha
graduação é em Fisioterapia, tenho especialização em Fisioterapia
cardiovascular e pneumofuncional, mestrado e doutorado em Saúde
Coletiva. Todos realizados aqui na Universidade de Fortaleza. Além
desses títulos, sou especialista em Fisioterapia neonatal e pediátrica
e em Fisioterapia pélvica e obstétrica. Meu doutorado foi dedicado ao
estudo do câncer de mama e das mídias digitais, por meio de uma
abordagem qualitativa. A escolha dessa temática foi, em parte,
despertada pela minha própria experiência com o adoecimento, após
receber o diagnóstico de câncer de mama aos 39 anos. Essa
vivência suscitou inquietações e reflexões sobre as diferentes formas
de experienciar a doença, compartilhar histórias, construir sentidos e
estabelecer relações e redes de apoio. Atualmente, estou completando
cinco anos de tratamento. Durante esse tempo, passei por uma
mastectomia bilateral, com reconstrução das duas mamas, apesar do meu
câncer ser em uma só. Após a cirurgia, passei pela quimioterapia e,
atualmente, estou no tratamento de bloqueio hormonal. Não foi
necessário a radioterapia porque o tumor era pequeno.
- Como você obteve o diagnóstico de câncer de
mama?
Luciana: Estávamos ali no começo
de 2021, começando o segundo ano da pandemia do coronavírus. Eu sempre
fui muito atenta aos cuidados, com uso de máscara e zona de
desinfecção lá em casa… mas todos tivemos covid. Nesse momento,
ficamos muito tranquilos para voltar a ir no médico e fazer exame de
tudo, assim que passou a doença. E coincidiu na época da realização
dos meus exames ginecológicos, que sempre fiz anualmente. Em um dos
ultrassons, a médica (que faz o meu atendimento é sempre a mesma)
encontrou um nódulo que não havia nos exames anteriores. Resolveu
solicitar uma mamografia de urgência. Era um nódulo muito pequeno, que
também foi identificado pela mamografia. Eu já saí do
consultório com o BIHARDS 4, que é a classificação de um nódulo
muito suspeito para neoplasia. Então foi assim que fiz
minha primeira mamografia, já com emoção, porque já tinha uma suspeita
de um nódulo maligno.
Em seguida, fui para o mastologista, com solicitação de outros exames - até que a gente chegou no diagnóstico: era um câncer receptor hormonal, em atividade. Então foi definido que o tratamento deveria começar pela cirurgia de mastectomia, pelo tamanho do tumor e pelo tipo dele; Na sequência, passei pela avaliação com o oncologista e, pelos marcadores, ele sugeriu que a gente fizesse a quimioterapia porque eu era muito jovem. 39 anos não é a idade onde a gente tem o maior índice desses casos. Passamos por altos e baixos, especialmente durante a quimio, mas estamos aqui.
Finalizada a quimio, comecei a hormonioterapia. Iniciei com uma medicação que me trouxe muitos efeitos colaterais e, por isso, tive que suspender um dos remédios. O bloqueio hormonal, então, saiu de cinco para 10 anos. A maioria dos tratamentos é de cinco anos, mas cada caso é um caso. Cada tumor é único. Cada tratamento, por mais que a gente tenha vários protocolos, vai depender de como o corpo se comporta.
Eu tenho a consulta dos cinco anos agora e estou super animada - porque é um marco passar cinco anos em remissão. Entendo que paciente oncológico não fica curado, a gente precisa aprender a lidar com esse sentimento. A gente acompanha o tratamento. Eu espero seguir em remissão mais tranquila, porque os primeiros cinco primeiros anos são os mais críticos, onde a doença pode voltar, né? E há os efeitos colaterais, sempre. Eles seguem comigo, mas eu já aprendi a manejar a maioria deles. Tem outras questões que são mais difíceis para o dia a dia, como a menopausa induzida, É muito difícil lidar com ela, especialmente porque, no meu caso, não ocorreu de forma natural, o corpo e a cabeça não estavam preparados para tantas mudanças. Então sinto como se estivesse vivendo num descompasso entre meu corpo e minha cabeça, mas você vai aprendendo a tratar, desenvolvendo estratégias ao longo do tratamento.
Tive uma tia que teve câncer de mama, eu tive câncer de mama e, depois de mim, a minha mãe teve também. Fiz o teste genético, não foi identificada mutação, o que casa com o que a literatura científica fala: a maioria dos casos (cerca de 90%) de câncer de mama não são de origem genética, eles são relativos mesmo a hábitos de vida ou como chamamos fatores modifícaveis. Até porque foram três tipos de câncer diferentes: o da minha tia foi um câncer in situ - tinha células neoplásicas, mas que não estavam em atividade. O meu foi do tipo receptor hormonal. E o da minha mãe foi um triplo negativo. Três tumores diferentes.
A maioria dos cânceres de mama apresenta receptores hormonais positivos, ou seja, são tumores cujo crescimento pode ser estimulado por hormônios, especialmente o estrogênio. De modo geral, esses tumores tendem a apresentar uma multiplicação celular mais lenta quando comparados a outros subtipos, embora isso não seja uma regra. Uma característica importante é que contamos com tratamentos muito eficazes, como o bloqueio hormonal, que atua impedindo a ação do estrogênio sobre as células tumorais ou reduzindo sua produção, dependendo do medicamento utilizado. Isso contribui significativamente para diminuir o risco de recidiva da doença.
- Como foram os sentimentos a partir da descoberta do
câncer de mama até a retomada da vida “normal”?
Luciana: São tantos sentimentos. Assim, ter um câncer não é
uma experiência legal, não é uma experiência fácil e depende muito
da forma como você interpreta essa vivência. Eu sempre disse que 50%
da minha resposta dependia da minha cabeça. A primeira coisa
que fiz, quando tive o diagnóstico óbvio, depois de viver aquele
turbilhão de emoções, foi o de cuidar da mente. Eu
preciso estar minimamente bem pra passar por tudo que eu precisar
passar. E assim foi feito, com terapia, atividade física regular,
fé, concentração no processo e muita paciência. Tento seguir com
esse pensamento até hoje.
Não significa dizer que o seu tratamento terminou e muito menos que a sua vida vai voltar a ser a mesma. Você nunca mais vai ser a mesma pessoa. Você nunca mais vai entender a sua saúde da mesma forma. Então, fazer um exame de sangue, fazer um exame de imagem, para mim, é muito difícil, porque sempre vou preocupada, sempre vou nervosa, sempre vou tensa. Então, hoje, como é que eu me sinto? São cinco anos vivendo esse pós-câncer, que considero uma etapa também muito difícil, porque envolve se reconstruir e se posicionar em suas relações sociais São muitas modificações, muitas sequelas físicas que eu ganhei que já aprendi a lidar. Mas, pra mim, as mais difíceis são as sequelas emocionais mesmo.
- Qual a prática de autocuidado você recomendaria para
uma colega?
Luciana: Conheça os
sinais do seu corpo, suas emoções e respeite seus limites. Vivemos
numa roda de trabalho, casa, família, filho tão grande que, às
vezes, a gente não se percebe. Ser 100% do tempo produtiva não é
saudável. O ócio é importante.
Texto: Ana Paula Dantas
Foto: Marjorie Zaranza