Elas no pódio: presença feminina cresce nos esportes e transforma o cenário esportivo

seg, 30 março 2026 15:22

Elas no pódio: presença feminina cresce nos esportes e transforma o cenário esportivo

Com mais visibilidade, incentivo e protagonismo, atletas desafiam desigualdades de gênero e encontram no esporte um caminho de autonomia, carreira e transformação social


Na Unifor, a Divisão de Atividades Desportivas (DAD) mantém iniciativas de incentivo ao esporte, contemplando equipes esportivas e projetos sociais (Foto: Getty Images)
Na Unifor, a Divisão de Atividades Desportivas (DAD) mantém iniciativas de incentivo ao esporte, contemplando equipes esportivas e projetos sociais (Foto: Getty Images)

A busca por diferentes modalidades esportivas tem crescido nos últimos anos, mas o público feminino ganha um destaque especial nesse cenário: elas demonstraram um aumento de 20% no interesse médio por esportes. A presença e visibilidade delas nos pódios também seguem em ascensão. Em 2024, por exemplo, nos Jogos Olímpicos de Paris, as atletas foram responsáveis por 12 das 20 medalhas conquistadas pelo Time Brasil, superando a marca masculina pela primeira vez na história.

Esse movimento revela mudanças significativas na sociedade. Além de ocupar espaços, elas têm ressignificado o papel feminino no universo esportivo, historicamente marcado por desigualdades. Para a professora do curso de Educação Física da Universidade de Fortaleza (Unifor) — instituição da Fundação Edson Queiroz —, Sônia Ficagna, esse avanço é resultado de conquistas acumuladas ao longo do tempo.

“Hoje, temos mais visibilidade para atletas mulheres, mais debate sobre igualdade de oportunidades e mais incentivo à prática esportiva desde a infância. As mulheres estão ocupando espaços que por muito tempo lhes foram negados”, destaca a educadora, que ganhou a Medalha do Mérito Desportivo no Prêmio Esporte Ceará, em 2025.

Segundo ela, esse crescimento também evidencia o potencial feminino quando há oportunidades, apoio e reconhecimento. “As mulheres respondem com excelência, talento e grande capacidade de liderança”, afirma.

Desafios dentro e fora das quadras

Apesar dos avanços, a desigualdade de gênero ainda é uma realidade no esporte. Menor investimento, baixa visibilidade midiática e dificuldade de acesso a patrocínios são alguns dos obstáculos enfrentados pelas atletas.

Sônia Ficagna explica que persistem barreiras culturais muito fortes, como preconceitos relacionados à modalidade escolhida e à imagem da mulher no esporte. “Além disso, muitas ainda precisam conciliar a carreira esportiva com responsabilidades familiares que recaem de forma desigual sobre elas”, analisa. 

Essa realidade é confirmada por quem vive o esporte diariamente. A atleta Flávia Mayane Moura, formada em Energias Renováveis e graduanda em Educação Física na Unifor, relata que precisou enfrentar preconceitos ao longo da trajetória.


“Já enfrentei muitos rótulos, insultos e desvalorização. Ainda existe preconceito, e muitas vezes precisamos provar, o tempo todo, o nosso valor. O esporte transformou minha vida e me tornou forte, resiliente e responsável. Tudo que eu sou hoje devo ao esporte.”Flávia Mayane Moura, atleta, egressa do curso de Energias Renováveis e aluna de Educação Física da Unifor 

Mesmo diante das dificuldades, a estudante construiu uma carreira esportiva de destaque, com passagem pela Seleção Brasileira Feminina de Futebol, títulos internacionais e experiências fora do país — ela jogou em uma temporada no clube Krista, da Rússia, onde foi campeã. Hoje, Flávia atua como personal soccer e dá aulas personalizadas de futebol e futsal.

Esporte como ferramenta de empoderamento

Para além da saúde e da evolução em desempenho físico, o esporte tem se consolidado como um instrumento de transformação social e empoderamento feminino. Ao ocupar espaços antes negados ao público feminino, as mulheres ampliam sua autonomia e desafiam estereótipos.


“O esporte fortalece a autonomia feminina porque ajuda a mulher a reconhecer sua própria força, sua capacidade e seu valor. Ele quebra a ideia de fragilidade historicamente associada ao feminino.”Sônia Ficagna, treinadora de atletismo da Unifor e docente do curso de Educação Física

A experiência da estudante do curso de Nutrição e atleta da Seleção Feminina de Vôlei da Unifor, Maria Eduarda de Albuquerque, reforça esse impacto. “O esporte transformou muito o meu lado pessoal. Hoje sou mais disciplinada, confiante e resiliente. Aprendi que a autoconfiança faz toda a diferença”, conta a esportista.

Desde a infância envolvida com diferentes modalidades, ela encontrou no vôlei sua paixão e carreira: “Eu amo a sensação de jogar”. Com o passar do tempo, as oportunidades começaram a aparecer para Eduarda: foi tricampeã brasileira universitária, ganhou o prêmio de Melhor Atleta Universitária do Brasil e foi campeã de vôlei universitário. Para a aluna, tudo isso contribuiu para perceber que era possível construir uma trajetória profissional no esporte.

O papel da universidade no incentivo e formação de mulheres atletas

No ambiente universitário, iniciativas institucionais têm sido fundamentais para ampliar a presença feminina no esporte. Programas de incentivo, bolsas de estudo e estrutura de treinamento contribuem para a permanência e desenvolvimento dessas atletas. Maria Eduarda percebe esse apoio da Unifor na prática.


“A Universidade de Fortaleza valoriza o esporte e reconhece a importância dos atletas dentro do ambiente acadêmico. Isso faz com que a gente se sinta motivada a dar o nosso melhor dentro e fora de quadra.”Maria Eduarda de Albuquerque, docente do curso de Nutrição

Flávia também destaca a importância desse suporte. “A Unifor foi o lugar onde eu realmente me senti valorizada. Eles vão além do atleta, enxergam o ser humano. Isso fez toda a diferença na minha trajetória”, diz.

Para a professora Sônia Ficagna, esse tipo de incentivo é essencial para consolidar mudanças estruturais. “A Universidade cria oportunidades de participação, desenvolvimento e protagonismo feminino. Isso fortalece não só atletas, mas também futuras profissionais do esporte”, explica.

Além disso, a formação acadêmica abre caminhos diversos para atuação feminina. “As mulheres podem se reconhecer como atletas, treinadoras, gestoras, pesquisadoras e profissionais de saúde. O esporte é um campo amplo e cheio de possibilidades”, completa a profissional de Educação Física.

Um futuro mais igualitário no esporte

O crescimento da presença de mulheres nas modalidades esportivas também dialoga com políticas públicas e iniciativas que buscam reduzir desigualdades. É o caso do Projeto de Lei 6252/25, que altera a Lei Geral do Esporte para incluir o incentivo ao esporte feminino como um dos objetivos do Fundo Nacional do Esporte (Fundesporte).

Iniciativas como essa, em tramitação na Câmara dos Deputados, propõem diretrizes específicas para ampliar o acesso e criar ambientes mais seguros. Para Sônia Ficagna, essas ações são fundamentais para consolidar o avanço social já observado na cena esportiva. “Ampliar a participação feminina significa enfrentar estruturas sociais que historicamente limitaram essa presença”, reforça.

Enquanto isso, dentro e fora das quadras, as atletas seguem abrindo caminhos e deixam mensagens para quem deseja começar. “Eu construí quem eu sou através do esporte, e você também pode construir a sua história”, incentiva Flávia. Já Maria Eduarda reforça: “Não desistam. Mesmo com dificuldades, acreditem. O esporte forma não só atletas, mas seres humanos fortes e preparados”.

Ao longo da história, o esporte tem demonstrado sua enorme capacidade de promover o empoderamento de mulheres e meninas e avançar com a igualdade de gênero. A atividade se consolida como uma ferramenta poderosa de transformação: fortalece a liderança feminina, amplia a autoestima, cria redes de apoio e ainda desafia normas de gênero que, por muito tempo, limitaram o protagonismo das mulheres.

 


Esta notícia está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), contribuindo para o alcance do ODS 5 - Igualdade de Gênero. A Universidade de Fortaleza, assim, reforça a promoção da igualdade de gênero e o empoderamento de todas as mulheres e meninas, ampliando sua participação em espaços esportivos, educacionais e sociais.