Escola Yolanda Queiroz: quando incluir é transformar

ter, 15 setembro 2026 16:50

Escola Yolanda Queiroz: quando incluir é transformar

O trabalho desenvolvido pela instituição mostra como a inclusão pode transformar não apenas a experiência dos alunos, mas toda a comunidade escolar


Cláudio Rodrigues e Solange Almeida, pais de Solano, aluno neurodivergente da Escola Yolanda Queiroz - Foto: Marjorie Zaranza
Cláudio Rodrigues e Solange Almeida, pais de Solano, aluno neurodivergente da Escola Yolanda Queiroz - Foto: Marjorie Zaranza

Há diferentes caminhos para chegar à Escola Yolanda Queiroz, dentro da Universidade de Fortaleza (Unifor). Mas, independentemente da rota escolhida, é possível perceber que a chegada está próxima antes mesmo de avistar a escola. Pelas vias, os sons das crianças vão ficando cada vez mais presentes: vozes anunciam a proximidade das salas de aula e dão vida ao espaço. É nesse ambiente que, há 44 anos, a escola constrói uma trajetória marcada pelo compromisso com a educação e pelo impacto positivo na vida de comunidades em situação de vulnerabilidade.

Essa história também é feita de relatos que revelam a força do trabalho social, o investimento contínuo em educação inclusiva e a integração da escola à estrutura da Universidade. Uma combinação que se tornou um diferencial e que, ao longo dos anos, tem contribuído para transformar não apenas a experiência educacional dos alunos, mas também as realidades ao seu redor.

Atualmente, a instituição atende mais de 500 crianças, das quais 80 são neurodivergentes. O psicólogo da escola, Hugo Vale, explica que a instituição conta com dez agentes de inclusão, divididos entre os turnos da manhã e da tarde, sendo quatro no primeiro e seis no segundo. São dois tipos de agentes: os fixos, que acompanham uma ou mais crianças dentro de uma mesma turma e, muitas vezes, precisam oferecer acompanhamento integral; e os volantes, que acompanham um número maior de crianças, em salas distintas, sem a necessidade de permanecer durante todo o turno com um único aluno.

“Na nossa escola, buscamos alcançar os potenciais destas crianças frente às adversidades e limitadores de seus próprios diagnósticos. Através de seus gostos, predileções, compreensões de mundo, trabalhamos as suas atividades para que se tornem cada vez mais personalizadas e significativas ao seu bem-estar e processo de aprendizagem. Por exemplo, se a criança inserida no TEA (Autismo), em seu nível III de necessidade de suporte gosta, tem predileção ou hiperfoco em universo animal, as respectivas atividades seguirão esse eixo para que ela se sinta interessada e aí o processo avaliativo poderá ocorrer, para além das provas”, - Hugo Vale - psicólogo da Escola Yolanda Queiroz (Foto: Marjorie Zaranza). 

Uma dessas histórias é a de Solano, aluno de dez anos, do 5º ano B, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) grau III desde os dois anos de idade. Os pais, Cláudio Rodrigues e Solange Almeida, explicam que perceberam a neurodivergência logo nos primeiros anos de vida da criança. Desde então, a trajetória tem sido marcada por desafios, mas também pelo apoio da Escola Yolanda Queiroz e de toda a equipe, que se tornou um importante suporte nesse caminho.

No cotidiano escolar, Solano conta com o acompanhamento próximo das agentes de inclusão, que o auxiliam durante as atividades e também em momentos de interação. Para Solange, a relação construída entre o filho e as profissionais é motivo de tranquilidade e confiança.

“Ele está sempre sendo acompanhado pelas agentes, sempre sendo assistido e auxiliado na aula. E o bom é que ele gosta delas. Nunca teve nada que a gente ficasse triste. Sempre a gente tem alegrias ao vir buscar e ao trazer ele aqui. Quando tem algum encontro, ou algum passeio que a escola leva, a gente tem aquela segurança porque tem uma pessoa com ele. Nós só temos a agradecer à Escola Yolanda Queiroz por sempre estar de braços abertos.”

Mais do que o acompanhamento nas atividades, a família percebe no comportamento de Solano sinais de que ele se sente acolhido no ambiente escolar. O pai, Cláudio Rodrigues, conta que o filho demonstra uma conexão especial com os profissionais da instituição.

“Ele sente a energia das pessoas. E ainda bem que ele sempre gosta dos professores, porque ele é muito bem tratado por todos, então ele sempre dá esse retorno de que ele gosta realmente das pessoas daqui. É o que conseguimos entender dele.”

Essa relação de confiança também acompanha o desenvolvimento de Solano. Segundo Solange, mudanças que antes pareciam difíceis de alcançar começaram a aparecer de maneira gradual, especialmente na interação durante as atividades físicas.

“Sim, ele já melhorou bastante. Antes, ele não se socializava muito na hora da atividade física, né? A gente tinha que ficar com ele, puxando para um lado, puxando para o outro, para ele poder interagir. Agora, ele já fica um pouquinho mais, mas no tempo dele, né? E assim, antes ele falava muito pouco também, né?”

Para a família, cada avanço é significativo. A evolução acontece respeitando o ritmo de Solano, mas encontra na escola um ambiente preparado para reconhecer suas necessidades, estimular suas potencialidades e oferecer o suporte necessário para que ele participe, aprenda e se desenvolva junto aos demais alunos.

Na sala do 5º ano B, onde Solano estuda, esse cuidado também faz parte da rotina pedagógica. Professora do aluno, Fernanda Taina Arruda explica que o trabalho começa pelo reconhecimento de que cada criança apresenta necessidades e características próprias, mesmo quando compartilha a mesma neurodivergência. A partir dessa compreensão, estratégias são adaptadas para favorecer a aprendizagem e a convivência entre os estudantes.

“Na sala é conversado abertamente. A gente vai falando abertamente da limitação de cada um, seja o olhar, o falar e o escutar, então a gente vai falando com cada aluno sobre o assunto.”

Para Fernanda, a experiência com os alunos também transforma quem está do outro lado da sala de aula. O contato cotidiano com diferentes formas de aprender e de se relacionar com o mundo amplia o olhar do educador e reforça a necessidade de uma formação contínua para que a inclusão aconteça de maneira efetiva.

“A marca que eles deixam não é no físico, é na alma, porque a gente vê o quanto ainda precisamos trabalhar por eles. Os meus alunos daqui me marcam de uma forma que eu sempre quero ser mais e mais, que eu sempre quero estudar e aprender mais, conhecer novos métodos e pensadores, novas formas de abordagens cognitivas e pedagógicas, para poder ser mais para eles do que estou sendo agora.” - Fernanda Taina Arruda - professora do 5º ano da Escola Yolanda Queiroz (Foto: Marjorie Zaranza)

Para Solano, este também é um período de encerramento de ciclo. O 5º ano marca seu último ano na Escola Yolanda Queiroz, instituição que acompanhou uma parte importante de sua trajetória escolar e de seu desenvolvimento. Ao longo desse caminho, os avanços conquistados, os vínculos construídos com os profissionais e a segurança encontrada no ambiente escolar se somam às experiências que ele levará consigo para a próxima etapa. 

Uma história construída pela educação

Fundada em 1982, a Escola de Aplicação Yolanda Queiroz oferece gratuitamente educação infantil e ensino fundamental para crianças de comunidades em situação de vulnerabilidade. Ao longo de mais de quatro décadas, a instituição consolidou um trabalho que alia educação, responsabilidade social e atenção às necessidades de cada aluno. Entre as iniciativas desenvolvidas está o Criarte, projeto realizado anualmente como parte do encerramento do ano letivo.

A escola também conta com parcerias que contribuem para a continuidade de sua atuação. Em 2001, a Unifor e o Colégio Ari de Sá firmaram um convênio para concessão de bolsas de estudo a alunos da instituição, mantido pela Fundação Edson Queiroz. O trabalho desenvolvido pela escola também já recebeu diferentes reconhecimentos, incluindo menção honrosa no Prêmio Top Educacional Mário Palmério e troféu ouro no Prêmio Nacional de Gestão Educacional.

Mais recentemente, a Escola Yolanda Queiroz recebeu reconhecimento prata no Prêmio Nacional de Gestão Educacional pelo projeto “Ver para Crescer”, na categoria Responsabilidade Social para Instituições de Educação Básica ou Técnica. A iniciativa promove a saúde ocular dos alunos, com avaliações, exames oftalmológicos e doação de óculos para as crianças que necessitam de correção visual, reforçando a proposta da instituição de cuidar dos estudantes de forma integral.
 

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