seg, 6 abril 2026 15:11
EUA x Irã: como o conflito pressiona economia global e eleva custos no comércio internacional
Escalada de tensões no Oriente Médio impacta preços de energia, rotas comerciais e pode gerar reflexos diretos no Brasil

O aumento das tensões entre Estados Unidos (EUA) e Irã reacendeu preocupações no cenário internacional e já provoca efeitos concretos na economia global. O conflito, que envolve disputas históricas, interesses geopolíticos e questões energéticas, tem influenciado diretamente o preço do petróleo, o fluxo de mercadorias e a estabilidade do comércio internacional.
Embora o embate atual ganhe novos contornos, suas origens remontam a décadas. Desde a Revolução Iraniana, em 1979, os dois países não mantêm relações diplomáticas e acumulam divergências políticas e ideológicas. Para especialistas, o momento atual representa mais um capítulo de uma disputa complexa, que vai além de questões econômicas.
Segundo Luis Haroldo Pereira, mestre e doutor em Estudos Estratégicos Internacionais e professor do curso de Comércio Exterior da Universidade de Fortaleza — instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz —, o confronto não pode ser reduzido a um único fator. “O conflito evidencia tensões históricas entre os EUA e o Irã. Há décadas que os dois países se enxergam como inimigos, e o cenário atual apenas reflete essas disputas geopolíticas e ideológicas”, explica.
Petróleo, poder e geopolítica
Apesar de não ser a única causa, o petróleo ocupa papel estratégico nesse cenário. O Irã é um dos principais produtores mundiais e utiliza sua posição como instrumento de pressão no mercado internacional.
“O petróleo, em tal contexto, não ocupa um lugar exclusivo nas tensões, ou pelo menos como causa imediata. O Irã usa o petróleo como ferramenta estratégica, colocando pressão nos preços internacionais, já que o país é um importante produtor mundial e controla a rota estratégica do Estreito de Ormuz” — Luis Haroldo Pereira, docente do curso de Comércio Exterior da Unifor
O Estreito de Ormuz é considerado um dos principais pontos de passagem do comércio mundial de energia. Cerca de 20% do petróleo e 30% do gás natural consumidos globalmente passam pelo estreito, conectando grandes produtores do Oriente Médio aos mercados internacionais.
Com o agravamento do conflito e o bloqueio da rota, os impactos foram imediatos. “O preço do petróleo já ultrapassou os 100 dólares [por barril] nas últimas semanas, e isso gera um efeito cascata em toda a economia”, afirma o professor.
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Impactos no comércio global
O aumento no preço da energia tem reflexos diretos no custo do transporte internacional. Com combustíveis mais caros, os fretes marítimo e aéreo também sofrem reajustes, o que encarece produtos em diferentes setores.
“Com os preços mais altos, o custo do transporte sobe e isso repercute por toda a economia, encarecendo uma grande quantidade de bens”, explica Haroldo. “Isso pode levar ao aumento da inflação e à redução do consumo global”.
Além disso, empresas enfrentam dificuldades logísticas devido ao risco nas rotas tradicionais em razão dos conflitos armados na região. Seguradoras têm elevado os custos ou até cancelado contratos, enquanto navios buscam trajetos alternativos, mais longos e caros.
A advogada Larissa Amaral, professora dos cursos de Direito e de Comércio Exterior da Unifor, reforça que o impacto ultrapassa os custos operacionais. “Custos logísticos vão elevar, com certeza. Fretes, seguros e prazos de entrega já estão sendo diretamente afetados”, afirma.
Ela destaca que as cadeias globais de suprimento passam por um processo de reorganização. “As empresas estão sendo obrigadas a buscar novas rotas e fornecedores. Isso gera atrasos, aumento de custos e, em alguns casos, até suspensão de operações”, informa a advogada.
Conexões com outros conflitos
A escalada entre EUA e Irã também está ligada a outros conflitos no Oriente Médio, especialmente envolvendo Israel e Palestina. O Irã é um dos principais apoiadores da causa palestina e mantém relações com grupos militares como Hamas e Hezbollah. “Com isso, o país busca enfraquecer Israel e ampliar sua influência na região”, explica Luis Haroldo. “Já Israel, ao atacar o Irã, tenta reduzir a capacidade de apoio a esses grupos”.
Para os Estados Unidos, o envolvimento na região está associado à defesa de aliados estratégicos e à tentativa de conter o avanço iraniano. No entanto, há críticas internas sobre a atuação norte-americana. “Esse envolvimento parece ser mais influenciado por interesses israelenses do que propriamente americanos”, avalia o professor. “Inclusive, há questionamentos dentro do próprio cenário político dos Estados Unidos”.
Reflexos no Brasil e na América Latina
Mesmo distante geograficamente, o Brasil não está imune aos impactos do conflito. A alta no preço dos combustíveis e dos insumos agrícolas já começa a ser sentida e pode afetar diretamente a economia nacional. “As operações internacionais podem sofrer com aumento do custo logístico, atrasos e redução da demanda global”, afirma Luis Haroldo. “Além disso, fertilizantes mais caros podem encarecer a produção agrícola”.
O aumento do combustível à base de petróleo ocorreu mesmo após a notificação dos órgãos de fiscalização, com o litro da gasolina variando entre R$ 6,99 e R$ 7,19 (Foto: Getty Images)
A professora Larissa Amaral também aponta mudanças no fluxo comercial. “Pode haver atrasos nas entregas e até redirecionamento de rotas. Algumas empresas podem evitar determinados mercados, o que impacta diretamente o Brasil”, explica.
Segundo ela, o cenário também pode abrir oportunidades estratégicas. “Novas rotas comerciais podem ser redesenhadas, e o Brasil pode se posicionar como um ponto importante nesse novo fluxo global”, reflete.
Direito internacional e desafios jurídicos
No campo jurídico, o conflito entre EUA e Irã traz desafios para o direito internacional e para as relações comerciais entre países. Embora existam instituições globais que buscam mediar conflitos, sua atuação pode ser limitada.
“Os Estados Unidos participam dos principais órgãos de decisão internacional, o que dificulta uma ação contrária aos seus interesses”, explica Larissa. Ela também destaca que grande parte dos impactos ocorre no setor privado: “As empresas são as primeiras afetadas e precisam recorrer aos contratos para lidar com interrupções no comércio”.
Além disso, o conflito pode estimular novas negociações internacionais. “Situações como essa podem levar à criação de novos acordos comerciais e reorganização das relações entre países”, afirma.
Um conflito além da economia
Apesar dos impactos econômicos e comerciais, especialistas alertam que o conflito não deve ser analisado apenas sob essa perspectiva. Para a advogada Larissa Amaral, pesquisadora em Direito Aduaneiro, é importante lembrar das consequências humanas.
“Vale importar e lembrar que, para além das mercadorias e dos atrasos nas entregas, a gente está falando de vidas. Vidas que são dizimadas por uma intervenção bélica que a gente imaginou que não seria mais pauta. Todo mundo paga esse alto custo” — Larissa Amaral, docente dos cursos de Comércio Exterior e de Direito da Unifor
A disputa entre Estados Unidos e Irã, portanto, revela crise geopolítica e transformações no comércio global. Entre interesses estratégicos, tensões ideológicas e impactos econômicos, o cenário exige atenção de governos, empresas e da sociedade. Enquanto o conflito se desenrola, seus efeitos continuam se espalhando pelo mundo, chegando, inevitavelmente, ao cotidiano de países como o Brasil.
Esta matéria está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), contribuindo para o alcance dos ODS 9 – Indústria, Inovação e Infraestrutura e ODS 16 – Paz, Justiça e Instituições Eficazes.
A Universidade de Fortaleza, assim, reafirma seu compromisso com o fomento à pesquisa científica e ao desenvolvimento tecnológico, promovendo soluções inovadoras que impulsionam o progresso sustentável. Ao mesmo tempo, a instituição fortalece a cidadania e o Estado de Direito, pautando suas ações na ética e na transparência, fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e pacífica.