Pesquisa Unifor: IA aproxima cidadãos dos serviços de saúde pública pelo WhatsApp

ter, 20 outubro 2026 10:28

Pesquisa Unifor: IA aproxima cidadãos dos serviços de saúde pública pelo WhatsApp

A ferramenta IAra foi desenvolvida pela Unifor em parceria com a Prefeitura de Fortaleza e busca aproximar a população dos serviços de saúde 


A iniciativa surgiu de pesquisas científicas da Unifor sobre agentes conversacionais aplicados à saúde e evoluiu, com a participação da Prefeitura de Fortaleza, para uma solução voltada às necessidades concretas do SUS municipal (Foto: Getty Images)
A iniciativa surgiu de pesquisas científicas da Unifor sobre agentes conversacionais aplicados à saúde e evoluiu, com a participação da Prefeitura de Fortaleza, para uma solução voltada às necessidades concretas do SUS municipal (Foto: Getty Images)

Encontrar uma informação sobre saúde, saber qual serviço procurar, acompanhar um cuidado contínuo ou simplesmente lembrar de um compromisso médico pode parecer uma tarefa simples. Na prática, porém, essas etapas podem se transformar em obstáculos para quem precisa utilizar a rede pública de saúde. Diferentes serviços, sistemas e formas de atendimento podem tornar a jornada do cidadão mais complexa, especialmente para pessoas com pouca familiaridade com tecnologias digitais.

É diante desse desafio que pesquisadores da Universidade de Fortaleza (Unifor), em parceria com a Secretaria Municipal da Saúde de Fortaleza (SMS) e a CITINOVA – Fundação de Ciência, Tecnologia e Inovação de Fortaleza, desenvolveram a IAra – Saúde na Palma da Mão, uma plataforma de inteligência artificial (IA) criada para aproximar o cidadão dos serviços de saúde pública.

A ferramenta propõe auxiliar o monitoramento de pacientes com doenças crônicas como diabetes e hipertensão. O monitoramento dessas doenças é fundamental, pois tais condições costumam ser silenciosas e evoluem gradualmente. A tecnologia foi desenvolvida para auxiliar em diferentes etapas da jornada de cuidado. Entre as possibilidades disponíveis pela IAra estão:

  • Fornecimento de orientações;
  • Apoio ao autocuidado;
  • Envio de lembretes e notificações;
  • Auxílio no acesso a teleconsultas ;
  • Em situações previstas pelo sistema, disponibilização segura de documentos clínicos ao próprio paciente.

A proposta é levar essa interação para um ambiente que já faz parte do cotidiano de grande parte da população: o WhatsApp. Em vez de exigir a instalação de um novo aplicativo ou o aprendizado de uma plataforma específica, a IAra permite que o usuário converse com o sistema pelo aplicativo de mensagens, inclusive por voz.

Mais do que um chatbot, a proposta reúne inteligência artificial, conversação personalizada, acompanhamento do usuário e integração com serviços da rede municipal.

O sistema encontra-se em fase de desenvolvimento, integração e implantação gradual. O projeto nasceu como pesquisa científica e está passando por uma transição controlada para se tornar um serviço institucional da Secretaria Municipal da Saúde.

Atualmente, estão sendo consolidados os componentes tecnológicos, as integrações com teleconsulta e FastMedic, que é um sistema integrado de gestão em saúde pública no Brasil que guarda histórico de saúde, exames, receitas digitais e diagnósticos, a infraestrutura, os requisitos de segurança e o Relatório de Impacto à Proteção de Dados.

Da ciência à prática 

A IAra nasceu dentro de um processo de pesquisa científica desenvolvido pela Unifor na área de agentes conversacionais aplicados à saúde, um dos focos de pesquisa no Núcleo de Ciência de Dados e Inteligência Artificial (NCDIA).

Ao longo deste trabalho, pesquisadores passaram a investigar como sistemas inteligentes poderiam estabelecer uma comunicação mais próxima e contínua com usuários, especialmente em situações relacionadas ao acompanhamento de doenças crônicas e ao autocuidado. O conhecimento acumulado nessa trajetória será aplicado a um novo contexto: o Sistema Único de Saúde (SUS) de Fortaleza.

A plataforma foi construída a partir de uma parceria com o Programa Cientista-Chefe de Inteligência Artificial da Prefeitura de Fortaleza, aproximando a pesquisa desenvolvida pela Unifor das demandas da gestão municipal, e por meio de um convênio entre a Citinova e a Universidade.

A Secretaria Municipal da Saúde ficou responsável por estabelecer os requisitos assistenciais, o público e as regras de funcionamento do serviço; a Secretaria do Planejamento, Orçamento e Gestão (SEPOG), pelo apoio à infraestrutura tecnológica; a CITINOVA, pelo desenvolvimento da solução de teleconsulta; e a Unifor, pelo desenvolvimento técnico-científico da inteligência artificial. 

Segundo o pesquisador Vasco Furtado, coordenador do NCDIA e responsável pelo projeto da IAra, a colaboração técnica aproximou o conhecimento produzido na Universidade dos desafios e das necessidades encontradas na rede municipal de saúde. 


“A articulação entre as instituições permitiu transformar a pesquisa acadêmica em uma solução voltada ao serviço público, com responsabilidades e processos definidos.” — Vasco Furtado, cientista-chefe de Inteligência Artificial da Prefeitura de Fortaleza e coordenador do Núcleo de Ciência de Dados e Inteligência Artificial (NCDIA) da Unifor

A proposta, portanto, não é simplesmente colocar uma nova tecnologia à disposição da população. O objetivo é construir uma solução integrada à realidade do serviço público.

Como funciona a IAra?

Imagine uma pessoa que precisa de orientação sobre um serviço de saúde ou que precisa acompanhar uma etapa do próprio cuidado. Em vez de procurar informações em diferentes canais, ela poderá iniciar uma conversa pelo WhatsApp.

A IAra identifica a necessidade apresentada e conduz a interação de acordo com as funcionalidades e regras estabelecidas pela Secretaria Municipal da Saúde. Uma das características do projeto é a possibilidade da inteligência artificial iniciar determinadas interações. 

Isso significa que a comunicação não precisa acontecer somente quando o cidadão faz uma pergunta. A plataforma pode, dentro das regras estabelecidas, enviar lembretes e mensagens relacionadas ao acompanhamento e ao autocuidado.

A IAra utiliza modelos de inteligência artificial já existentes, mas sua arquitetura foi desenvolvida especificamente para o projeto. O sistema organiza as conversas, interpreta as necessidades apresentadas pelo usuário e pode acompanhar o contexto das interações para oferecer orientações e serviços de forma personalizada.

O professor pesquisador Jorge Araújo, integrante do NDCIA e coordenador técnico do projeto IAra, pontua que a a plataforma vai além de um agente de inteligência artificial convencional. 


“A proposta vai além de disponibilizar um chatbot: buscamos construir um assistente capaz de acompanhar o contexto do usuário, iniciar interações relacionadas ao autocuidado e, quando previsto pelas regras do serviço, integrar essas conversas a tarefas como o encaminhamento para uma teleconsulta.” — Jorge Araújo, professor pesquisador do NCDIA e coordenador técnico do projeto IAra - Saúde na Palma da Mão

O cidadão pode conversar com a ferramenta por texto ou voz e, de acordo com as regras definidas pela Secretaria Municipal da Saúde, receber orientações sobre saúde, lembretes e notificações, além de apoio no acesso à teleconsulta. Quando previsto e autorizado, a plataforma também poderá disponibilizar documentos clínicos por meio de links temporários e protegidos.

A proposta é que a ferramenta vá além de um agente virtual que apenas responde perguntas. Ao mesmo tempo, existem limites claros para sua atuação: a IAra não substitui profissionais de saúde, não realiza diagnósticos e não prescreve tratamentos.

Para personalizar as interações, a ferramenta utiliza somente as informações necessárias para cada tarefa. 

  • Os dados pessoais dos usuários não são utilizados diretamente para treinar os modelos de inteligência artificial. 
  • A arquitetura segue uma lógica de minimização de dados, com controles de acesso, proteção das informações e monitoramento.
  • Em determinadas situações, a IAra também utiliza conteúdos e bases previamente definidos ou validados, reduzindo a possibilidade de respostas inadequadas ou fora do contexto.

A qualidade das interações é acompanhada continuamente pelas equipes envolvidas no projeto. São analisadas as conversas, o desempenho do sistema, as métricas de uso e situações que precisam ser aprimoradas. A Secretaria Municipal da Saúde participa da avaliação dos aspectos relacionados ao atendimento, enquanto a equipe técnica trabalha na evolução dos fluxos e das funcionalidades.

A concepção do sistema se beneficia da experiência acumulada pela equipe da Unifor em assistentes conversacionais na área da saúde, como por exemplo a MarIA, um sistema de IA criado para o Hapvida. A IAra representa uma evolução dessa linha de pesquisa, agora direcionada ao contexto do SUS de Fortaleza.

Unifor: lugar em que a inovação em saúde ganha vida

A Unifor participa desde a origem científica até o desenvolvimento tecnológico da plataforma. A Universidade é responsável:

  • pela coordenação técnica da equipe de desenvolvimento,
  • pela arquitetura da inteligência artificial,
  • pelas estratégias de conversação,
  • pela análise das interações e métricas de desempenho.

Além do desenvolvimento, a Unifor participa da avaliação da qualidade e segurança da ferramenta, da documentação técnica, da formação das equipes municipais e da transferência de conhecimento. A ideia é que a tecnologia possa ser aprimorada e incorporada ao serviço público de forma sustentável.

Segundo o professor Vasco Furtado, a aproximação entre universidade e poder público permite que a tecnologia seja desenvolvida considerando não apenas o que é tecnicamente possível, mas também as necessidades da população e as condições reais de funcionamento dos serviços públicos.

“Essa conexão permite que o conhecimento científico seja orientado por problemas reais e produza benefícios concretos para a população [...] No caso da IAra, o objetivo não é apenas entregar um sistema, mas transferir conhecimento, formar equipes e desenvolver capacidade própria para que a Prefeitura possa operar, avaliar e evoluir a solução com autonomia e responsabilidade”, conclui.

Próximos passos 

A IAra está sendo implantada de forma gradual. Atualmente, já está disponível para cidadãos com doenças crônicas em três postos de saúde: 

  • Posto de Saúde Rigoberto Romero: localizado no bairro Cidade 2000 
  • Posto de Saúde Vicentina Campos: localizado no bairro Parque Dois Irmãos 
  • Posto de Saúde Padre Hermano Mestrom: localizado no bairro Parque Araxá 

A expansão para novas unidades acontece progressivamente, acompanhada pelo treinamento dos Agentes Comunitários de Saúde.

A partir dessa expansão, um dos principais objetivos é entender como os usuários interagem com a ferramenta e quais funcionalidades realmente geram valor para a população. As informações obtidas nessa etapa serão utilizadas para aprimorar a usabilidade, o engajamento e os fluxos de atendimento.

Entre os desafios está ampliar a capacidade da IAra sem perder o controle sobre suas respostas e sobre os dados utilizados. A perspectiva dos pesquisadores é desenvolver assistentes cada vez mais especializados, com escopos bem definidos, fontes de informação adequadas e mecanismos de supervisão. 

No futuro, a tecnologia poderá ser expandida para outros públicos e serviços, sempre de acordo com as necessidades e regras da rede municipal de saúde.

Quem fez a IAra acontecer 

A equipe de pesquisadores da Universidade de Fortaleza responsável pelo desenvolvimento do programa contou com a participação de:  

  • Vasco Furtado, docente do Programa de Pós-Graduação em Informática Aplicada (PPGIA) da Unifor
     
  • Jorge Araújo, docente do PPGIA/Unifor
     
  • Elizabeth Sucupira, docente do PPGIA/Unifor

  • Gustavo Oliveira, pesquisador do Núcleo de Ciência de Dados e Inteligência Artificial (NCDIA) da Unifor

  • Larissa Vitória Nascimento, aluna de doutorado do PPGIA/Unifor

  • Elioenai Alves, aluno de doutorado PPGIA/Unifor

  • Gabriela Alexandrino, aluna de mestrado do PPGIA/Unifor

  • Ícaro Silva, aluno de doutorado do PPGIA/Unifor 

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