Projeto Cuida Mulher: estudo investiga como alimentação e estilo de vida ajudam a prevenir o câncer de mama

ter, 8 setembro 2026 16:57

Projeto Cuida Mulher: estudo investiga como alimentação e estilo de vida ajudam a prevenir o câncer de mama

Estudo desenvolvido por alunos da Unifor investiga os hábitos das mulheres fortalezenses para mapear fatores de risco e orientar políticas públicas de saúde preventiva


A investigação busca entender como a alimentação pode influenciar quadros carcinogênicos em mulheres (Foto: Getty Images)
A investigação busca entender como a alimentação pode influenciar quadros carcinogênicos em mulheres (Foto: Getty Images)

Segundo o Boletim Epidemiológico sobre mortalidade por Neoplasias Malignas da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (Sesa), o câncer de mama ocupou o segundo lugar em óbitos prematuros no período de 2015 a 2024 entre mulheres de 30 a 69 anos. Os dados colocam esse quadro como a neoplasia com maior risco de mortalidade precoce no Estado.

É diante desse cenário que docentes e estudantes do curso de Nutrição e do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (PPGSC) da Universidade de Fortaleza — instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz —, conduzem o Projeto Cuida Mulher. A pesquisa busca traçar um diagnóstico sobre os hábitos e comportamentos de saúde das mulheres da capital cearense, identificando fatores que aumentam ou reduzem o risco de desenvolvimento do câncer feminino.

O surgimento da pesquisa

Embora fatores genéticos e hereditários desempenhem um papel relevante no surgimento do câncer de mama, grande parte do risco está associada a fatores modificáveis do estilo de vida, como:

  • alimentação,
  • peso corporal,
  • prática de atividade física,
  • consumo de bebidas alcoólicas.

A pesquisa toma como referência as recomendações internacionais da World Cancer Research Fund (WCRF) e do American Institute for Cancer Research (AICR), entidades globais que compilam evidências científicas para a prevenção da doença.

A coordenadora do projeto e professora do curso de Nutrição da Unifor, Priscila Paiva, explica que existe um descompasso entre a existência dessas diretrizes científicas e a sua aplicação prática no cotidiano da população. Ela diz que existem recomendações preconizadas por órgãos internacionais que, se seguidas, poderiam reduzir significativamente o risco de câncer.


“O crescimento nos números reflete que, ao passo que existem tais orientações, as pessoas têm pouco acesso a essas informações ou não sabem como implementá-las de forma prática no dia a dia. A pesquisa pretende avaliar a realidade das mulheres de Fortaleza, identificando quais comportamentos são realizados e o que precisamos fortalecer na atenção primária.”Priscila Paiva, docente do curso de Nutrição da Unifor e coordenadora do Projeto Cuida Mulher

Hábitos alimentares: o que protege e o que aumenta o risco

A relação entre a nutrição e a oncologia vai muito além da inclusão ou exclusão de itens isolados na dieta, ela diz respeito ao padrão alimentar construído ao longo da vida. Priscila Paiva detalha o impacto das escolhas cotidianas no desenvolvimento da doença, ressaltando que a prevenção envolve a construção de um padrão de vida saudável

Ela explica que uma alimentação pobre em fibras e rica em alimentos ultraprocessados, gorduras e açúcares contribui para o ganho de peso e o excesso de gordura corporal, que estão relacionados ao aumento do risco de diversos tipos de câncer.

“A WCRF recomenda que frutas, vegetais, feijões e outros leguminosos, além dos cereais integrais, constituam uma parte importante da alimentação habitual. Mais do que excluir ou incluir alimentos isoladamente, a prevenção está relacionada à adoção, ao longo da vida, de um conjunto de hábitos”, esclarece a professora.

  • Fatores de risco bem estabelecidos
    O consumo frequente de carnes processadas (como presunto, salsicha, linguiça e bacon) e o excesso de carne vermelha apresentam forte associação com o aumento do risco do câncer colorretal. Além disso, métodos de preparo que submetem a carne a altíssimas temperaturas (como grelhar ou fritar intensamente) podem gerar compostos potencialmente carcinogênicos.

    Padrões alimentares ricos em produtos ultraprocessados, gorduras e açúcares contribuem para o ganho de peso e o excesso de gordura corporal — condição diretamente ligada a diversos tipos de tumores, incluindo o de mama na pós-menopausa.

    Quanto às bebidas alcoólicas, a orientação científica é categórica: o consumo de qualquer quantidade pode elevar o risco de desenvolvimento de cânceres.
     
  • Fatores protetivos
    Uma alimentação predominantemente baseada em alimentos de origem vegetal — como frutas, vegetais, feijões, leguminosas e cereais integrais — fornecem fibras, vitaminas e compostos bioativos. Esses nutrientes auxiliam na manutenção do peso saudável, na proteção intestinal e na regulação metabólica.

Projeto Cuida Mulher: a radiografia da saúde feminina em Fortaleza 

Em andamento desde o segundo semestre de 2025, o Projeto Cuida Mulher aplica um check-list de saúde online adaptado da ferramenta de avaliação do AICR e da WCRF. O formulário investiga escolhas alimentares, nível de atividade física, tabagismo, consumo de álcool e exposição solar.

A meta é atingir resposta de 750 mulheres fortalezenses até outubro de 2026, quando serão divulgados os resultados preliminares do estudo, coincidindo com as ações de conscientização do Outubro Rosa. Os dados coletados pelo Projeto Cuida Mulher servirão de subsídio para intervenções diretas no sistema municipal de saúde.

“Após a finalização do estudo, faremos o levantamento dos hábitos das mulheres de Fortaleza para traçar diagnósticos, estratégias e ações voltadas para a incorporação de mudanças no estilo de vida no âmbito da atenção básica. A longo prazo, pretendemos ampliar na rede de atenção básica estratégias voltadas para a prevenção do câncer, além de fomentar políticas públicas municipais voltadas para essa pauta”, detalha a coordenadora Priscila Paiva.

A mestranda em Saúde Coletiva e nutricionista Fernanda Alencar é membro do projeto. Ela aponta que a pesquisa constitui a base de sua dissertação de mestrado e ressalta os desafios de alcançar um perfil amostral diversificado na capital cearense.

“Trabalhar com prevenção do câncer e fatores cotidianos como alimentação e tabagismo junta áreas fundamentais da saúde coletiva e da epidemiologia. Nosso maior desafio atual é alcançar as 750 participantes e mobilizar mulheres de diferentes condições socioeconômicas. Para isso, temos realizado ações de divulgação inclusive em Unidades Básicas de Saúde (UBS) de Fortaleza”, conta.


“A partir das respostas dessas mulheres, nós poderíamos levar [os resultados] para os gestores de saúde para que eles pudessem traçar políticas públicas que estejam em sintonia com a realidade de saúde da mulher fortalezense.” Fernanda Alencar, nutricionista e mestranda em Saúde Coletiva da Unifor

Integração acadêmica: da sala de aula ao impacto social

Além do avanço científico e do potencial para orientar políticas públicas na atenção básica, o Projeto Cuida Mulher desempenha papel formativo relevante, integrando alunos da graduação e da pós-graduação da Unifor.

Para o estudante do 7º semestre do curso de Nutrição, Gustavo Lopes, a vivência em projetos de iniciação científica e extensão enriquece a jornada acadêmica ao aproximar a teoria do cuidado com a comunidade.


“Está sendo uma experiência muito enriquecedora. O projeto permite que a gente aprofunde os conhecimentos e transforme o que aprendemos na sala de aula em informações acessíveis e práticas para a população. A pesquisa exige rigor técnico e busca por evidências atualizadas, mas nos ensina a ter a responsabilidade social de traduzir a ciência em promoção da saúde para a mulher.”Gustavo Lopes, aluno do curso de Nutrição da Unifor e membro do Projeto Cuida Mulher

“Muitas vezes, informações vitais sobre prevenção do câncer, nutrição e escolhas saudáveis não chegam à população de maneira simples e aplicável. Um dos maiores benefícios dessa iniciativa é facilitar esse acesso, ajudando as mulheres a compreenderem melhor como algumas escolhas do dia a dia podem contribuir para a redução de fatores de risco e a promoção da saúde”, explica Gustavo.

Quem pode participar da pesquisa?

A referida pesquisa pretende avaliar o check-list de saúde das mulheres de Fortaleza quanto à prevenção do câncer feminino e está sendo realizada de forma online. Para responder ao formulário do estudo, a participante deve preencher os seguintes critérios:

  • Ser do sexo feminino;
  • Ter idade entre 20 e 74 anos;
  • Residir na cidade de Fortaleza;
  • Não possuir diagnóstico anterior ou atual de câncer;
  • Não estar grávida nem em período de amamentação (devido às especificidades nutricionais e corporais dessas fases).

O critério de exclusão da pesquisa foi reformulado, portanto, mulheres vegetarianas e veganas podem participar normalmente, permitindo a avaliação comparativa de diferentes padrões alimentares. Após o preenchimento do formulário, é enviado para a participante um informativo com recomendações de prevenção do câncer de mama. 

 


Esta matéria está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, contribuindo para o alcance do ODS 3 – Saúde e Bem-Estar e do ODS 4 – Educação de Qualidade.  

Ao investigar fatores modificáveis do estilo de vida para reduzir o impacto das doenças não transmissíveis, a Universidade de Fortaleza reafirma, assim, o seu compromisso com a formação acadêmica pautada na investigação científica rigorosa, na ética e no retorno prático do conhecimento científico para a comunidade.

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