seg, 16 março 2026 12:44
Profissionais 50+: a força da geração prateada no mercado
Com mais experiência, maturidade e disposição para se reinventar, profissionais acima dos 50 anos estão conquistando espaço no mercado de trabalho e no ambiente acadêmico. Na Universidade de Fortaleza, histórias de estudantes sêniores revelam como a educação continuada amplia oportunidades e fortalece trajetórias.

Abram espaço para uma geração que segue produtiva, curiosa e disposta a aprender. Em um cenário em que a longevidade cresce e as trajetórias profissionais se tornam mais diversas, pessoas com mais de 50 anos têm redesenhado o próprio papel no mercado. Cada vez mais, elas chegam aos mais diferentes cursos universitários, seja para realizar sonhos antigos, recalcular a rota profissional ou simplesmente aprender coisas novas e vivenciar experiências.
Com o diploma, encontram um mercado de trabalho mais favorável a absorver esta força laboral, valorizando a experiência, visão estratégica e capacidade de adaptação. Para se ter uma ideia, o número de idosos ocupados no Brasil cresceu 68,9%, passando de 5,1 milhões em 2012 para 8,6 milhões em 2024 — um acréscimo de 3,5 milhões de pessoas, segundo um estudo da FGV.
Na prática, empresas têm ampliado a contratação de profissionais sêniores, reconhecendo o valor de décadas de atuação, repertório técnico e maturidade emocional. A empregabilidade aparece ligada à disposição de aprender e se adaptar ao longo da vida profissional, como destaca o especialista em aprendizagem contínua Conrado Schlochauer em entrevista à Carta Capital.
O cenário ainda dialoga diretamente com um estilo de vida que vem ganhando força entre pessoas acima dos 50 anos: o chamado NOLT (New Older Living Trend). A proposta rompe com estereótipos tradicionais sobre envelhecimento e apresenta uma nova perspectiva de maturidade. Abraça idosos mais ativos, conectados e abertos a reinventar caminhos pessoais e profissionais.
Nestas duas frentes — seja por novas oportunidades profissionais ou por experiências diversas —, a educação continuada vem ganhando protagonismo. Alunos com mais de 50 anos chegam à Universidade de Fortaleza (Unifor), vinculada à Fundação Edson Queiroz, com o desejo de se manter atualizado, aprender novas competências e acompanhar as transformações do mercado.
Para estimular ainda mais o acesso de cearenses nessa faixa etária ao ensino superior de qualidade, o programa Unifor 50+ oferece bolsas de estudo para pessoas com idade igual ou superior a 50 anos. Quem está na Universidade conta, a seguir, as experiências de mergulhar no mundo acadêmico neste momento da vida e mostra que, mais do que idade, o que define a relevância profissional é a capacidade de continuar aprendendo.
Formação continuada para ser um profissional de excelência
Foi na tentativa de permanecer relevante em um mundo que observa grandes mudanças em todas as áreas da sociedade que o administrador de empresas Edilson Botto decidiu se matricular no curso de Inteligência Artificial aos 55 anos. “Senti que era preciso dominar as ferramentas que estão moldando o futuro. Não se trata apenas de um título, mas de estar preparado para ser um profissional de excelência”, afirma o aluno, que está no 4º semestre da graduação EAD e se considera um “eterno aprendiz”.
Ele conta que fez a primeira graduação em Administração na Unifor e já conhecia a qualidade do ensino e a infraestrutura de excelência oferecidas pela instituição. Natural de Fortaleza, cresceu ouvindo que o conhecimento é a única coisa que ninguém tira de você, por isso sempre valorizou o estudo e a leitura.
“Como tenho essa fome por aprender sempre quis atuar em diferentes áreas, então já atuei no mercado financeiro, no setor industrial, no setor de educação, na área de logística e até no serviço público, onde coordenei programas de capacitação e fomento ao micro empreendedorismo”, conta.
Edilson também atua, desde 2010, com consultoria empresarial, mentoria e treinamento. “Apesar de toda essa experiência, eu sei que as realizações passadas não garantem o sucesso futuro e, por isso, estou sempre buscando evoluir. Aqui, na Unifor, tenho descoberto novas possibilidades. Atualmente, com apoio do Unifor Hub, estou desenvolvendo uma startup junto com colegas daqui. Graças ao ecossistema da Universidade de Fortaleza, estou iniciando no empreendedorismo”, celebra.
Na graduação, ele tem contado especialmente com o vasto acervo da Biblioteca Central e com o fácil acesso ao Parque Tecnológico (TEC Unifor) para uma formação completa. O desafio é gerir o tempo de estudo e de trabalho, além do esforço extra para compreender uma ou outra disciplina de cálculo.
“Quanto aos colegas mais jovens, a relação é excelente. Existe uma troca mútua onde aprendemos e compartilhamos todos os dias. Aliás, eles me tratam como se eu tivesse a mesma idade deles, e isso é muito bom, porque é assim que eu me sinto”, diz.
Edilson acredita que o etarismo ainda está muito presente, mas reconhece que, aos poucos, o mercado está gerando mais oportunidades porque percebe que os profissionais com mais de 50 anos estão se atualizando e adquirindo desenvoltura no uso da tecnologia. “Penso que as empresas que querem atingir maiores patamares de desempenho precisam aliar profissionais experientes e jovens, pois é dessa combinação que surgirão as inovações e os grandes resultados”, acrescenta.
Mas não são só os planos profissionais que movem Edilson na jornada universitária. O aluno brinca que sempre foi NOLT sem saber. “Penso que a idade cronológica é apenas uma variável, não um limite, então busco viver desenvolvendo todo o meu potencial. Por isso, cuido do corpo, da mente, das emoções e do espírito para evoluir em todos os aspectos. Tenho muitas ideias, projetos e planos que quero realizar e preciso estar 100% capaz”, explica. Ele diz que está na Unifor porque acredita que vai adquirir o conhecimento e construir as conexões que permitirão concretizar todos os seus objetivos.
Edilson conta que entrou no curso imaginando que utilizaria a Inteligência Artificial apenas como uma ferramenta para elevar seu desempenho como consultor e mentor, mas agora está vendo o empreendedorismo no setor de tecnologia como uma realidade cada vez mais próxima. “Já estou também mirando em fazer um mestrado na Unifor para, em breve, me tornar professor aqui”, planeja.
“Se você já passou dos 50, esqueça a sua idade e mantenha a fome de aprender, desenvolver-se e ser cada vez melhor, pois isso fará de você um profissional excepcional. E para profissionais assim, sempre haverá grandes oportunidades, pois o mercado até cria obstáculos para quem chegou à maturidade, mas, no final, o que vale mesmo é o resultado que o profissional entrega” — Edilson Botto, 55 anos, aluno do curso de Inteligência Artificial
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Aprender para se sentir mais produtiva
Mais de 30 anos depois de se formar em Educação Física na Unifor, Suely Crisóstomo da Costa decidiu se matricular no curso de Biomedicina. Havia tentado voltar à Universidade outras vezes para cursar Direito e Estética e Cosmética, mas acabou desistindo por questões pessoais.
“Decidi dar continuidade aos meus estudos porque acho fundamental me manter ativa”, afirma a aluna. Aos 57 anos, ela está convicta de que a idade não limita o aprendizado. Para ela, a terceira idade é um tempo de se cuidar e conquistar uma nova perspectiva de vida.
“Por isso, resolvi me dedicar aos estudos, o que é algo que me renova, apesar de todos os desafios. Eu acredito que se manter ativo seja o primeiro passo para obtenção de qualidade de vida”, diz Suely, que é mãe de três filhas e natural de Fortaleza. Ela diz que decidiu fazer da universidade um lugar onde se sentisse produtiva, pudesse se relacionar com outras pessoas e se movimentar. Estar ativa.
Neste momento, ela sente que vive uma espécie de recomeço, depois de uma vida inteira dedicada à Educação Física, das aulas de ginástica, pilates e natação às salas de aula da rede pública de ensino. “Acho a Unifor uma universidade muito preparada. Tem excelentes profissionais. É um lugar de muito acolhimento”, diz a aluna. Ela conta que chegou a buscar apoio psicopedagógico no Programa de Apoio Psicopedagógico (PAP) para se adaptar ao ritmo dos colegas mais jovens.
Para ela, os alunos sêniors têm pontos a seu favor para se adaptar à rotina profissional: maturidade, equilíbrio, poder de decisão e percepção da vida como um todo. Mas uma recolocação profissional não é necessariamente seu objetivo com esta nova graduação, embora cogite retornar ao mercado.
“É muito importante que eu esteja ativa e me sinta produtiva, embora seja uma rotina cansativa, né? Muitas vezes as pessoas perguntam: ‘mas para que você ainda vai fazer faculdade?’ Eu digo: ‘Vou fazer faculdade porque eu gosto de estudar, porque eu quero aprender mais, porque eu quero estar produzindo mais’”, conta.
Suely diz que estar no ambiente acadêmico lhe deu novos ânimos e que foi contagiada pela energia dos jovens alunos. Além disso, ela vê, na infraestrutura da Universidade de Fortaleza, possibilidades de crescimento não só profissional, mas também pessoal.
“Também tenho sentido acolhimento por parte dos professores. Eles compreendem muitas coisas da gente. Às vezes, temos um problema de saúde, uma coisa que não está muito bem. Eu acho que a flexibilidade nesse momento da vida é o mais importante. Não adianta pegar o aluno de mais de 50 anos e querer que seja igual a um menino de 19 anos. Não estamos mais preocupados só com a carreira, mas com o estilo de vida”, explica.
“Estou me fortalecendo para voltar a trabalhar, mas eu não quero voltar mais batendo ponto, com aquele horário fixo. Quero fazer trabalho autônomo. Quero trabalhar agora não mais para me sustentar somente, mas principalmente para eu me sentir produtiva” — Suely Crisóstomo, 57 anos, aluna do curso de Biomedicina e egressa do curso de Educação Física
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Acumular conhecimentos como um diferencial
Aos 55 anos, Eliane Nascimento Lemos Lima se formou no curso de Marketing Digital da Unifor. Colaboradora da instituição desde os anos 2000, ela, que já era formada em Gestão de Recursos Humanos, conta que se sentiu estimulada a seguir buscando aprender. Primeiro, se formou em Pedagogia. “Mais recentemente, e me adequando aos novos desafios dessa era tecnológica, me graduei também em Marketing Digital, ampliando meus conhecimentos e possibilitando para a instituição uma funcionária mais preparada para as dificuldades que o mercado exige”, acrescenta.
Eliane diz que sempre procurou se aperfeiçoar e fazer cursos de curta duração. “Em 2023, decidi estudar sobre algo inovador e que não conhecia, mas procurei ler e entender sobre o curso de Marketing Digital. Logo me interessei. No princípio, foi bem desafiador, apesar de ser um curso EAD. Talvez essa nova ferramenta de ensino à distância foi o que possibilitou o resgate da força do querer aprender depois de anos sem ser discente”, declara.
A egressa diz que se sentiu como no primeiro curso, sendo apresentada a muita coisa que não conhecia e a novos ciclos de amizades. Tudo com o desafio de conciliar trabalho, família e estudos. “A maioria dos colegas eram bem jovens, iniciando o ensino superior, porém tive a grata surpresa de conhecer alunos 50+ que vinham com as mesmas expectativas que as minhas. Foi um período bem interessante, onde tive que me adaptar ao ritmo acadêmico”, celebra.
Segundo ela, a integração com os mais jovens foi um dos pontos fortes. “Acredito também que minha experiência de vida e maturidade — com postura e comportamentos diferenciados, como a forma de ver e encarar os objetivos — tenham possibilitado aos mais jovens grandes ensinamentos e inquietudes, o que, de alguma forma, os incentivou a estudar mais e melhor”, acredita. Outro ponto primordial, para a egressa, foi a acolhida e disponibilidade dos professores, passando os conteúdos de forma bem didática e conectando com o dia-a-dia.
Eliane vê na chamada geração prateada, com mais de 50 anos, resiliência e fácil adaptação às condições externas. “Agora imagine pegar um ser humano com todas essas competências e adicionar as ferramentas tecnológicas que requerem rápido poder de resposta e adaptação. O que teremos é um profissional diferenciado e de inestimável valor de mercado, pois a vida atual é sinônimo de movimento ininterrupto”, pontua.
Ela defende que “velho” não significa ultrapassado ou mesmo obsoleto. “Talvez esteja muito mais para um profundo e estratégico conhecimento ímpar de vida, em que as cicatrizes da sobrevivência lhes conferem uma alta capacidade de tomada de decisão mais assertiva e consistente. Tudo isso lhes proporcionaram ser mais contidos e menos impetuosos, de forma a não cair nas armadilhas das escolhas fáceis e largas, que normalmente tangem para o fracasso e a derrota”, afirma. Essa geração, para ela, tem uma sede insaciável pela vida, sem se preocupar com a finitude. “Isso é o que nos estimula a não parar nunca”, garante.
Apesar das várias graduações, Eliane diz que não pensa em exercer uma nova profissão, mas sim possibilitar e ampliar as oportunidades. “Focar em novas áreas e estar preparada para o novo e instigante tempo, onde o mercado não abre espaço para os fracos, indecisos e receosos. Os profissionais modernos precisam dominar a informação em tempo real e não se deixar abater pela pressão do dia a dia. O mundo atual exige uma multiplicidade de conhecimentos e uma extrema capacidade de adaptação”, analisa.
Eliane diz que é um enorme prazer saber que sua geração não se dobra ao tempo e às intempéries que tentam te encostar e te parar. “Saber que agora somos mais e melhores e que podemos contribuir de forma efetiva e competente. Saber que sempre haverá algo a ser aprendido, mas que ao mesmo tempo somos imprescindíveis”, motiva.
“Toda essa experiência adquirida ao longo da vida agrega uma maturidade que nos faz comprometidos com as metas da empresa, desenvolvendo habilidades para enfrentar as mais diversas situações, sabendo lidar com as emoções e aprendendo a superar os percalços. Isso torna o profissional 50+ alguém que toma decisões mais seguras, criando um ambiente de trabalho estável, alguém colaborativo que está disposto e aberto para aprender novas tecnologias e se reinventar.” — Eliane Nascimento, 55 anos, egressa do curso de Marketing Digital
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Estudar pelo prazer de aprender
Maria Maryane Lima Parente já tinha mais de 60 anos quando se matriculou no curso de Cinema e Audiovisual da Unifor. Ela já tinha quatro graduações — Farmácia, Direito, Administração e Licenciatura em Ciências — e não estava em busca de uma nova profissão, mas tinha sede de aprender e produzir.
“Amo cinema desde sempre! Decidi beber da estrutura curricular, aprimorar habilidades técnicas, construir redes de contatos importantes com o meio estudantil e profissional da área, conhecer o mercado, trocar experiências”, conta a aluna.
Maryane nasceu em Fortaleza, onde criou os dois filhos que teve. Trabalhou como Oficial de Justiça do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), funcionária concursada da Caixa Econômica Federal e servidora do Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE), onde se aposentou. Depois de tudo isso, ela decidiu fazer o caminho de volta à universidade.
A jornada tem alguns desafios. “As dificuldades giram em torno dos aparatos tecnológicos. Sou da era analógica”, ela brinca. Se o choque geracional com colegas mais jovens poderia ser uma preocupação, ela conta que encontrou apenas acolhimento dos companheiros. “Eles me chamam carinhosamente de Mary, algumas mais íntimas de Mamy’s”, diz.
Por enquanto, ela vai comemorando as produções. Há pouco, concluiu um documentário. Teve três curtas selecionados para o Festival do Minuto e está tentando a seleção para o CinéFabrique. Paralelamente, vai estudando e se dedicando em aprender o máximo que pode enquanto viaja e valoriza experiências.
“Eu me sinto totalmente inserida no estilo de vida NOLT. Viajo bastante. Em dezembro fui para a África do Sul e amei. Neste ano, vou para o Egito, Jordânia e Israel”, planeja, apesar da preocupação com a guerra. Aposentada, Maryane diz que não está mesmo atrás de uma profissão ou remuneração, mas de realização.
“Estou fazendo o curso, e é muito bom eu dizer isso, estou estudando por prazer, por deleite. Se vier algum fruto em relação a algum retorno financeiro, isso para mim seria ótimo, mas não é bem isso. Eu estou atrás de participar, de aprender, de mostrar um pouco, de divertir pessoas, de incentivar” — Maria Maryane Lima, 62 anos, aluna do curso de Cinema e Audiovisual
Esta notícia está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), contribuindo para o ODS 4 – Educação de Qualidade e o ODS 8 – Trabalho Decente e Crescimento Econômico.
A Universidade de Fortaleza reafirma, assim, seu compromisso com a oferta de educação inclusiva, equitativa e de excelência, promovendo a formação de profissionais qualificados, preparados para impulsionar o desenvolvimento sustentável, a empregabilidade e o crescimento econômico responsável.