seg, 26 janeiro 2026 15:02
Entrevista Nota 10: Dafne Morais e a sustentabilidade como competência-chave na administração
Docente do Programa de Pós-Graduação em Administração da Unifor fala sobre a conexão entre administração, sustentabilidade e formação profissional como destaque no mercado de trabalho atual

A sustentabilidade é um tema que tem se tornado cada vez mais presente nos mais diversos setores da sociedade, principalmente no mercado de trabalho. Segundo um relatório das Nações Unidas, até 2030, modelos de negócios ligados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU podem gerar 380 milhões de empregos e trazer oportunidades de até 12 trilhões de dólares.
Antes mesmo dos ODS, as diretrizes globais já apontavam para um caminho corporativo que vai além de metas puramente econômicas; é o que explica a administradora de empresas Dafne Oliveira Carlos de Morais. Com a chegada da agenda ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança) ao mercado financeiro, essa tendência só tem se fortalecido, sobretudo quando algumas crises globais, como a climática, se tornam cada vez mais presentes no cotidiano.
“Por isso, a agenda da sustentabilidade ganha ainda mais relevância e, quando falamos de gestão estratégica — voltada para o longo prazo, para a geração de vantagem competitiva e para a criação de valor compartilhado —, incorporá-la se torna essencial”, pontua a docente do Programa de Pós-Graduação em Administração (PPGA) e do Centro de Ciências da Comunicação e Gestão (CCG) da Universidade de Fortaleza — instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz.
Com experiência em pesquisa, docência e projetos de consultoria, Dafne desenvolve e orienta estudos na linha de Sustentabilidade, Empreendedorismo e Inovação. Já publicou mais de 60 artigos científicos, inclusive em periódicos A1, A2 e em congressos internacionais e nacionais.
É doutora em Administração de Empresas pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EASP), onde atuou como Supervisora do Programa de Iniciação à Pesquisa. Lá, pesquisou em projetos de centros de estudos, de sustentabilidade e de logística e supply chain, além de ter desenvolvido atividades de Assurance of Learning (AoL) e acreditação AACSB (Association to Advance Collegiate Schools of Business) no Centro de Desenvolvimento de Ensino e Aprendizagem (CEDEA).
Na Entrevista Nota 10 desta semana, Dafne fala sobre a conexão entre administração, sustentabilidade e formação profissional como destaque no mercado de trabalho atual, além de destacar os diferenciais da Escola de Administração da Unifor.
Confira na íntegra a seguir.
Entrevista Nota 10 — Hoje a sustentabilidade tem sido um tema muito presente em diversas áreas do conhecimento, e na administração não é diferente. De que maneira os ODS da Agenda 2023 da ONU e a ESG têm impactado na atuação administrativa, especialmente quando falamos de gestão estratégica? Como essas tendências têm reformulado a visão de mercado nesse campo profissional?
Dafne Morais — Sustentabilidade é um tema que está entre nós há bastante tempo. Mesmo antes dos ODS, os ODM (Objetivos de Desenvolvimento do Milênio) já apontavam, nos anos 2000, diretrizes globais para um caminho que vai além de metas puramente econômicas. No entanto, à medida que avançamos rumo a 2030, algumas crises globais se tornam cada vez mais presentes no nosso dia a dia, como a crise climática. Por isso, a agenda da sustentabilidade ganha ainda mais relevância e, quando falamos de gestão estratégica — voltada para o longo prazo, para a geração de vantagem competitiva e para a criação de valor compartilhado —, incorporá-la se torna essencial.
Uma pesquisa divulgada recentemente pelo World Economic Forum mostra que, nos próximos dez anos, cinco dos dez maiores riscos globais estarão na esfera ambiental, e outros dois na esfera social. Ou seja, sete dos dez principais riscos que devem ser considerados na visão estratégica das empresas estão diretamente ligados a questões socioambientais.
No caso da agenda ESG, mais conectada ao mercado financeiro, é possível observar uma reformulação importante: surgem novos indicadores a serem acompanhados, novos modelos de relatórios, novas formas de mensurar impactos e, principalmente, de preveni-los e evitá-los. Além disso, cresce a necessidade de repensar os negócios não apenas para reduzir a pegada de emissões, mas também para buscar a geração de impacto positivo.
Assim, quando vista de forma estratégica, a sustentabilidade tem potencial para reformular todas as grandes áreas da administração, como operações, marketing, finanças e recursos humanos, mesmo antes de considerarmos, ainda, os impactos das transformações tecnológicas.
Entrevista Nota 10 — As transformações advindas dessa nova perspectiva de sustentabilidade têm também afetado a demanda por algum tipo de perfil profissional na administração? Quais habilidades ou competências fazem um(a) administrador(a) se destacar nesse cenário?
Dafne Morais — Com certeza. Essas novas demandas já estão impactando o perfil esperado do(a) profissional de administração e essa tendência deve se intensificar. Cada vez mais, os administradores precisam desenvolver uma visão sistêmica e humana. A visão sistêmica é essencial para compreender os negócios dentro de um contexto mais amplo, considerando tanto a relação local x global quanto curto x longo prazo. Já a visão humana se torna indispensável para se conectar com múltiplos stakeholders, indo além dos públicos mais tradicionais, como investidores e consumidores, e incluindo atores, como comunidades locais, ONGs, cooperativas e universidades.
Nesse cenário, destacam-se competências como criatividade (para ir além dos meios tradicionais e do business as usual, buscando novas formas de gestão e novos modelos de negócio para realidades emergentes), empatia (para se colocar no lugar do outro e considerar impactos antes não percebidos ou priorizados) e resiliência (para lidar com riscos ainda desconhecidos e desafios inéditos), além de pensamento crítico e capacidade de atuar em contextos de incerteza.
Entrevista Nota 10 — Na sua visão, qual é o papel da pesquisa científica no desenvolvimento do mercado de administração tanto local quanto internacional? Como os frutos do trabalho acadêmico podem contribuir para a evolução dos processos e, especialmente, um futuro administrativo mais sustentável?
Dafne Morais — A pesquisa científica tem um papel fundamental no desenvolvimento do mercado de administração, local e internacional, porque ela produz evidências, testa soluções e ajuda a transformar boas práticas em conhecimento replicável. Em um cenário de mudanças rápidas, a pesquisa funciona como uma ponte entre teoria e realidade, apoiando decisões mais qualificadas, inovação e aumento de competitividade com responsabilidade.
Os frutos do trabalho acadêmico contribuem para a evolução dos processos ao gerar métodos, ferramentas e indicadores que aprimoram a gestão. Quando falamos em um futuro administrativo mais sustentável, a pesquisa pode incorporar de forma mais consistente as questões socioambientais nessa construção, além de propor novos modelos de negócio que não apenas reduzam impactos negativos, mas também ampliem resultados positivos para a sociedade. A pesquisa dá a oportunidade de criar, testar e propor alternativas para um mundo mais justo e sustentável. Essa, inclusive, é a motivação que me guia e que busco fortalecer em projetos desenvolvidos com colegas e orientandos.
Acredito que o trabalho acadêmico pode, e deve, gerar frutos que extrapolem o ambiente universitário, conectando cada vez mais impacto teórico e prático. Isso passa por ampliar as temáticas tradicionalmente investigadas para incorporar questões socioambientais, como já mencionado, mas também por adotar métodos mais próximos da realidade organizacional e com devolutivas úteis aos participantes, e também por fortalecer a disseminação dos resultados, alcançando diferentes ambientes, formatos e públicos.
Entrevista Nota 10 — A Universidade de Fortaleza conta com uma escola de Administração, que vai desde a graduação, passando por laboratórios de prática profissional, até as diferentes opções de pós-graduação na área. Qual a relevância de contar com uma infraestrutura completa como essa para uma formação profissional de excelência na área? Que diferenciais isso traz para a carreira dos estudantes?
Dafne Morais — Ter uma estrutura como a da Unifor favorece uma formação conectada ao lifelong learning, unindo graduação, prática profissional e pós-graduação em uma mesma jornada. Isso fortalece a conexão entre teoria e prática, aproxima o estudante dos desafios reais das organizações, ao mesmo tempo em que permite levar para a sala de aula os avanços mais recentes da pesquisa internacional, enriquecendo o aprendizado desde cedo e integrando desenvolvimento acadêmico e profissional.
Além disso, é extremamente importante destacar como a Unifor oferece um campus sustentável que amplia essa experiência com uma conexão com a natureza. Eu mesma, inúmeras vezes, busco fazer minhas leituras em diferentes espaços do campus, ouvindo os sons da natureza, observando as árvores. Isso além de estar em conexão direta com diversas ações sociais e uma imersão cultural diferenciada, com exposições e eventos. Isso contribui não só para a formação técnica, mas também para o desenvolvimento humano, alinhado com muitas das competências mencionadas anteriormente para um profissional para um futuro mais sustentável.
Entrevista Nota 10 — Na graduação em Administração da Unifor, a sustentabilidade já faz parte do processo de ensino e aprendizagem de que forma? Quais estratégias têm funcionado melhor para transformar os ODS da Agenda 2030 em prática na sala de aula?
Dafne Morais — Acredito que a sustentabilidade faz parte do processo de ensino e aprendizagem de forma transversal, aparecendo tanto nos conteúdos discutidos em sala quanto na forma como os estudantes são estimulados a analisar problemas reais, considerando os impactos sociais, ambientais e econômicos nas decisões de gestão.
Para transformar os ODS da Agenda 2030 em prática, estratégias que têm funcionado bem incluem o uso de cases no ensino, projetos aplicados e atividades que aproximam os alunos de desafios concretos do mercado e da sociedade. Além disso, metodologias mais ativas — com trabalho em equipe, pesquisa, debate e construção de soluções — ajudam a conectar os ODS às decisões estratégicas e mostram que sustentabilidade não é um tema “à parte”, mas um elemento central da gestão contemporânea.
Um exemplo que posso citar, desenvolvido no semestre passado, foi o COIL (Collaborative Online International Learning), no qual uma turma da disciplina de Responsabilidade Social e Ambiental analisou negócios sociais reais e elaborou propostas de indicadores sociais em trabalhos com interação entre alunos brasileiros e de múltiplas nacionalidades, em parceria com a Berlin School of Economics and Law (HWR Berlin).
Entrevista Nota 10 — O Programa de Pós-Graduação em Administração (PPGA) da Unifor deu início ao processo de acreditação internacional pela AACSB, selo de excelência concedido a menos de 6% das escolas de negócios no mundo. Na prática, o que isso muda para os alunos e para o programa? Como a internacionalização se torna um diferencial competitivo tanto para quem segue o caminho acadêmico quanto para quem atua no mercado?
Dafne Morais — A acreditação internacional da AACSB é um reconhecimento de excelência que reforça a qualidade do programa e da universidade em padrões globais de ensino, pesquisa e gestão acadêmica. Na prática, isso fortalece o programa ao incentivar processos contínuos de melhoria, maior rigor e alinhamento com boas práticas internacionais. Vale destacar que pouquíssimas escolas de negócios possuem esse selo no Brasil, e nenhuma é no Nordeste, o que evidencia ainda mais a relevância dessa conquista.
Para os estudantes, a acreditação amplia a visibilidade do diploma, fortalece a reputação do programa e abre ainda mais oportunidades de conexão com redes acadêmicas e profissionais internacionais. É um importante diferencial competitivo que proporciona acesso a um repertório global e capacidade de atuar em contextos multiculturais, além de parcerias, pesquisas e experiências de ponta que elevam tanto a trajetória acadêmica quanto a atuação no mercado.