seg, 16 março 2026 14:53
Programa da Unifor amplia acesso à saúde bucal para crianças com deficiência
Programa de Atendimento Multidisciplinar ao Paciente Especial (PAMPE) reúne professores e estudantes de Odontologia em atendimentos humanizados que integram ensino, cuidado e inclusão

Doenças bucais podem representar um desafio ainda maior para crianças com condições como Transtorno do Espectro Autista (TEA), Síndrome de Down ou paralisia cerebral. Muitas vezes, esses pacientes encontram dificuldades para acessar atendimentos odontológicos especializados e adaptados às suas necessidades.
Na Universidade de Fortaleza (Unifor), da Fundação Edson Queiroz, uma iniciativa busca mudar essa realidade: o Programa de Atendimento Multidisciplinar ao Paciente Especial (PAMPE), que oferece acompanhamento odontológico humanizado e integra ensino, pesquisa e extensão no cuidado com pacientes atípicos.
O programa é coordenado pela odontopediatra Grace Sampaio Teles da Rocha, professora do curso de Odontologia da Unifor, e surgiu a partir de experiências acadêmicas e profissionais da docente com o atendimento a crianças com deficiência e que possuem necessidades específicas. Segundo ela, a ideia começou a se concretizar no final da década de 1990, quando decidiu dar continuidade, no Ceará, a estudos e práticas que já havia desenvolvido durante sua formação no Rio de Janeiro.
Grace explica que o envolvimento dela com o atendimento a pacientes com necessidades especiais começou ainda durante sua formação, quando participou da implantação do Projeto AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) em Odontopediatria, uma iniciativa interdisciplinar pioneira no Brasil.
Ao retornar ao Ceará e ingressar na Universidade, ela decidiu dar continuidade ao trabalho. Diante da necessidade dos pacientes atendidos no Hospital São José na época, criou, por volta de 1998, a Clínica de Atendimento Multidisciplinar ao Paciente Especial (CAMPE), que, em 2000, passou a funcionar como um programa contínuo denominado Programa de Atendimento Multidisciplinar ao Paciente Especial, o PAMPE.
Cuidado humanizado e formação prática
Atualmente, o PAMPE passou a oferecer atendimento a pacientes com diferentes condições atípicas, sempre com acompanhamento contínuo e participação ativa dos estudantes. De acordo com a professora, o funcionamento do projeto também tem um importante papel pedagógico.
“Os atendimentos ocorrem com alunos voluntários, onde seguimos um sistema de tutoria, no qual estudantes dos semestres iniciais trabalham em trio com colegas mais avançados. Assim, eles aprendem gradualmente, desde o manuseio de materiais até o atendimento clínico”, afirma.
O cuidado com os pacientes envolve diferentes etapas, começando por uma avaliação detalhada do histórico de saúde. Em seguida, dependendo do comportamento da criança, o atendimento pode começar em um ambiente preparado para acolhimento e adaptação. A professora Grace destaca que a Universidade implantou, recentemente, uma sala sensorial para apoiar esse processo.
“Essa sala tem como objetivo ajudar na organização sensorial da criança, promovendo relaxamento e preparando o paciente para o atendimento clínico. Em alguns casos, também realizamos procedimentos simples ali mesmo, como aplicação de flúor e instrução de higiene oral”, explica.
Além do atendimento odontológico, o programa também se apoia na integração com outras áreas da saúde. Ao longo dos anos, o PAMPE contou com a colaboração de profissionais como fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e psicólogos, reforçando o caráter multidisciplinar do cuidado. Grace destaca que essa articulação amplia as possibilidades de acompanhamento e melhora a comunicação entre profissionais que já atendem as crianças em outros serviços.
“São muitas histórias de impacto na vida das famílias, das crianças e também pedagogicamente. Os alunos se envolvem. Recebemos pacientes de diferentes regiões do estado. Com o tempo, alunos formados levaram esse conhecimento para o interior, ampliando o acesso ao cuidado. O impacto ocorre em duas frentes: social e pedagógica. O aluno aprende não apenas a tratar, mas a buscar o caminho do conhecimento para lidar com esses pacientes” — Grace Sampaio, odontopediatra, professora do curso de Odontologia e coordenadora do PAMPE
As famílias chegam ao programa de diferentes formas: por encaminhamento de profissionais de saúde, por indicação de instituições ou por procura direta da comunidade. Segundo a professora, muitos pacientes também chegam por meio de parcerias com serviços públicos de saúde. “Atendo bebês prematuros, sindrômicos e com doenças raras no Hospital Geral de Fortaleza, e muitos desses pacientes são encaminhados para a Unifor, onde temos uma infraestrutura que permite um acompanhamento mais completo”, relata.
Experiências que transformam
Ao longo dos anos, o impacto do PAMPE tem sido significativo tanto para os pacientes quanto para os estudantes envolvidos. A vivência prática, o contato com diferentes realidades e o cuidado humanizado contribuem para ampliar o olhar dos futuros profissionais da saúde.
A estudante de Odontologia da Unifor, Juliana Madeiro, conheceu o programa ainda nos primeiros semestres do curso. Segundo ela, a possibilidade de ingressar no projeto desde cedo foi um dos principais fatores que despertaram seu interesse na graduação.
“Desde que entrei no curso, a Odontopediatria sempre esteve entre as áreas que mais me despertaram interesse. Sabendo que a Odontologia é, muitas vezes, a área da saúde que mais desperta medo nas pessoas, inclusive nas crianças, eu sempre quis estar muito bem preparada para lidar com esse público”, explica a aluna.
Outro fator que reforçou sua motivação foi a convivência próxima com crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Juliana conta que tem uma prima autista e que, ao longo da vida escolar, conviveu com muitas crianças com essa condição. Essa experiência despertou nela o desejo de compreender melhor as necessidades desse público e contribuir para um atendimento mais acolhedor.
“Atuar nos atendimentos do PAMPE foi uma experiência simplesmente transformadora. Além do desenvolvimento profissional, por começar a conhecer técnicas e abordagens antes mesmo de ter a clínica infantil na graduação, acredito que a maior transformação tenha acontecido no âmbito pessoal.” — Juliana Madeiro, aluna do curso de Odontologia da Unifor
Durante os atendimentos, a estudante também aprendeu a importância da escuta ativa junto aos pacientes e às famílias. Muitas vezes, segundo ela, os responsáveis chegam ao atendimento enfrentando desafios e precisam de acolhimento. Nesse contexto, uma das orientações marcantes recebidas da professora Grace Sampaio foi a necessidade de estar plenamente presente no momento do atendimento.
“A professora Grace sempre nos orientou que, ao entrar em um atendimento, precisávamos deixar nossos problemas pessoais do lado de fora. Naquele momento, não éramos apenas estudantes; éramos profissionais responsáveis por cuidar de alguém. Era preciso estar presente de verdade, viver aquele momento com atenção e dedicação”, lembra.
Outro aspecto destacado pela estudante é a evolução dos pacientes ao longo do acompanhamento. Ela explica que muitas crianças chegam ao atendimento com medo ou insegurança diante do ambiente clínico, mas, com o tempo, passam a desenvolver confiança na equipe. Acompanhar esse processo, segundo Juliana, é uma das experiências mais gratificantes do projeto.
Equipe de estudantes que compõem o PAMPE (Foto: Arquivo pessoal)
O trabalho no programa também exige criatividade e capacidade de adaptação. Nem sempre as abordagens tradicionais funcionam para todos os pacientes, o que leva os estudantes a buscarem estratégias diferentes para tornar o atendimento mais confortável e eficaz.
Ao refletir sobre os principais aprendizados da experiência no programa, a estudante destaca o desenvolvimento da resiliência e da capacidade de lidar com situações desafiadoras. Segundo ela, a vivência mostrou que nem sempre os atendimentos acontecem como planejado e que é necessário ter flexibilidade e sensibilidade para compreender as necessidades de cada paciente.
“Durante o projeto, comecei a entender melhor que tipo de profissional eu queria me tornar: uma profissional que domina a técnica, mas que também é humana, sensível e respeita o tempo e as limitações de cada paciente”, ressalta.
Além da prática clínica, Juliana também passou a colaborar na organização do projeto, auxiliando colegas durante os atendimentos e contribuindo com atividades administrativas. Essa participação ampliou seu contato com aspectos de gestão e organização do serviço, complementando sua formação.
Prestes a concluir a graduação, a estudante afirma que encerra sua participação no projeto com a certeza de que o trabalho continuará gerando impacto positivo na formação de novos estudantes e na vida de muitas famílias.
“Ao longo dessa trajetória, também tive a oportunidade de conhecer pessoas incríveis, que levarei para a vida toda. Colegas extremamente competentes, dedicadas e humanas, que hoje fazem parte da coordenação do PAMPE junto a mim e à professora Grace. No final deste ano, eu me formo, mas saio com a tranquilidade de saber que o projeto continuará em ótimas mãos”, enfatiza a futura odontóloga.
Esta notícia está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), especialmente aos ODS 3 – Saúde e Bem-Estar e 4 – Educação de Qualidade.
Nesse contexto, a Universidade de Fortaleza contribui para a promoção da saúde, da qualidade de vida e do bem-estar coletivo, aliada ao compromisso com uma educação inclusiva, equitativa e de qualidade, com oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos.