Tarifaço dos EUA: volta da taxação reacende tensões comerciais e pode redefinir relações econômicas com o Brasil

seg, 15 junho 2026 15:54

Tarifaço dos EUA: volta da taxação reacende tensões comerciais e pode redefinir relações econômicas com o Brasil

Novas tarifas de 25% anunciadas pelo governo estadunidense ampliam disputas comerciais, levantando questionamentos sobre concorrência desleal e pressionam setores da indústria brasileira


Em 2025, os EUA impuseram uma tarifa adicional de 10% sobre produtos brasileiros. Já em 2026, o governo de Donald Trump elevou a taxação em mais 40 pontos percentuais, fechando uma alíquota total de 50% para entrar no mercado norte-americano (Foto: Getty Images)
Em 2025, os EUA impuseram uma tarifa adicional de 10% sobre produtos brasileiros. Já em 2026, o governo de Donald Trump elevou a taxação em mais 40 pontos percentuais, fechando uma alíquota total de 50% para entrar no mercado norte-americano (Foto: Getty Images)

A retomada de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros pelo governo dos Estados Unidos voltou a colocar as relações comerciais entre os dois países no centro do debate econômico internacional. A medida faz parte de um pacote que também atinge outras nações e vem acompanhada de justificativas ligadas a questões trabalhistas, ambientais e ao mercado de serviços digitais.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), os Estados Unidos permanecem entre os principais parceiros comerciais do Brasil, sendo um dos maiores destinos das exportações nacionais. Diante desse cenário, especialistas avaliam que a nova rodada de tarifas pode trazer impactos para setores produtivos, investimentos e empregos, além de influenciar o posicionamento do país no comércio global.

Para compreender os efeitos da medida, professores da Universidade de Fortaleza, instituição mantida pela Fundação Edson Queiroz, analisam as motivações da decisão estadunidense e os possíveis reflexos para a economia brasileira.

Entre economia e política

Embora a justificativa oficial dos Estados Unidos esteja relacionada a supostas práticas de “concorrência desleal”, especialistas observam que a decisão também possui forte componente político.

Para o economista Marcelo Lamas, professor do curso de Ciências Econômicas da Unifor, o momento é marcado por um aumento das tensões diplomáticas entre os dois países. “Este é um momento marcado por trocas de posicionamentos que não contribuem para o fortalecimento da relação político-econômica entre Brasil e Estados Unidos”, destaca.

Segundo ele, a proximidade de processos eleitorais nos dois países torna as negociações mais sensíveis e favorece o uso de temas econômicos como instrumentos de discurso político. Entre os argumentos apresentados pelo governo norte-americano estão:

  • críticas ao sistema de pagamentos PIX,
  • questões relacionadas ao combate ao trabalho escravo,
  • preocupações com a competitividade de determinados setores brasileiros.

Na avaliação de Lamas, parte dessas justificativas ultrapassa o campo econômico. “Muitas das questões levantadas possuem caráter estrutural e tendem a ser melhor resolvidas por meio da cooperação e da negociação, e não por medidas punitivas”, destaca.

A professora do curso de Comércio Exterior e coordenadora do Núcleo de Práticas em Comércio Exterior (Nupex) da Unifor, Mônica Luz, também observa que o contexto geopolítico ajuda a explicar a retomada das tarifas.

Para ela, os Estados Unidos abriram uma investigação comercial e passaram a questionar políticas brasileiras ligadas ao comércio, aos serviços digitais e ao meio ambiente, alegando desmatamento. Para a especialista, é necessário analisar as justificativas apresentadas de forma crítica.

“O Brasil foi incluído em uma lista com cerca de 60 países, entre eles China, Índia, Japão e Coreia do Sul, o que revela um caráter mais geopolítico do que propriamente humanitário da acusação”, informa a docente.

Setores mais afetados e impactos na economia

Os efeitos das tarifas não devem atingir todos os setores da mesma forma. De acordo com Mônica, os segmentos mais expostos são justamente aqueles ligados à indústria de transformação. Entre os setores que podem enfrentar maiores dificuldades estão:

  • Aço e alumínio;
  • Calçados;
  • Indústria têxtil;
  • Carnes processadas;
  • Produtos manufaturados em geral.

Já as matérias-primas estratégicas para o mercado norte-americano, como café, carne e minérios, ficaram fora das medidas mais severas. “Quem transforma, quem agrega valor e quem gera empregos na indústria brasileira tende a sentir mais os efeitos dessas tarifas”, ressalta a professora Mônica.


As empresas brasileiras voltadas à exportação estão entre as mais afetadas pelas novas tarifas, especialmente nos setores de aço, alumínio, calçados, máquinas e têxteis. A medida pode reduzir as vendas para o mercado norte-americano e pressionar negativamente o crescimento do Produto Interno Bruto (Fotos: Getty Image)

Marcelo Lamas explica que parte do mercado já vinha se adaptando às barreiras impostas anteriormente pelos Estados Unidos, o que pode reduzir os impactos imediatos. “Hoje existe um entendimento maior sobre como essas tarifas afetam os custos e a competitividade dos produtos brasileiros no mercado norte-americano”, pondera. 

No médio prazo, empresas podem buscar alternativas para manter sua presença internacional, investindo em eficiência produtiva, redução de custos e abertura de novos mercados. Para o consumidor brasileiro, os efeitos tendem a ser indiretos. A medida não cria impostos sobre produtos vendidos no Brasil, mas pode afetar empregos, investimentos e a atividade econômica de setores exportadores.

Mônica Luz alerta que a perda de mercado por parte das empresas exportadoras pode gerar pressões sobre o câmbio e até contribuir para o aumento da inflação. “As tarifas afetam o consumidor de forma indireta, mas real. A incerteza econômica reduz investimentos e pode impactar renda e emprego”, ressalta.

Por outro lado, especialistas apontam que os consumidores norte-americanos também podem sentir os efeitos da medida, já que a elevação das tarifas costuma aumentar os custos de importação e pressionar preços nos Estados Unidos.

Diversificação de mercados ganha força

Além dos impactos econômicos imediatos, o tarifaço pode acelerar mudanças na estratégia comercial brasileira. Nos últimos anos, a China ampliou sua participação como principal destino das exportações brasileiras, enquanto os países do BRICS vêm fortalecendo suas relações econômicas.

Para Mônica Luz, a pressão exercida pelos Estados Unidos pode produzir um efeito contrário ao desejado por Washington. “A pressão americana pode acabar acelerando exatamente o que os EUA querem evitar: uma aproximação mais intensa do Brasil com a China”, reflete.

A especialista defende que o país aproveite o momento para ampliar sua presença em mercados da Ásia, África e Oriente Médio, além de avançar em negociações como o acordo entre Mercosul e União Europeia.


O BRICS, assim como outros blocos econômicos, são alternativas para fortalecer o comércio internacional com outros países (Foto: Getty Images)

Marcelo Lamas concorda que a diversificação comercial pode ser uma das principais respostas brasileiras. “O tarifaço acelera movimentos que já vinham ocorrendo no comércio internacional, como a busca por novos mercados e o fortalecimento de parcerias econômicas alternativas”, pontua.

Apesar do cenário de tensão, os especialistas avaliam que ainda existe espaço para negociação diplomática. O Brasil já acionou mecanismos internacionais e busca dialogar com o governo norte-americano para evitar o agravamento das medidas.

Segundo Mônica Luz, o desafio será encontrar equilíbrio entre eventuais concessões comerciais e a preservação da soberania nacional em áreas consideradas estratégicas, como os sistemas de pagamentos digitais.

Enquanto as negociações seguem em andamento, a principal expectativa é que os próximos meses definam tanto o futuro das exportações brasileiras para os Estados Unidos como também os rumos da inserção do Brasil em um cenário global cada vez mais marcado por disputas econômicas e geopolíticas.

Formação para um cenário global em transformação

Em um contexto marcado por disputas comerciais, mudanças geopolíticas e transformações constantes na economia mundial, a formação de profissionais preparados para interpretar cenários complexos torna-se cada vez mais importante

Na Unifor, estudantes dos cursos de Ciências Econômicas e de Comércio Exterior são estimulados a compreender os fenômenos econômicos de forma ampla, combinando conhecimento teórico, análise de dados e aproximação com desafios reais do mercado.

Segundo o professor Marcelo Lamas, a graduação em Ciências Econômicas oferece uma base sólida em áreas como história econômica, macroeconomia, microeconomia e finanças internacionais, além de disciplinas voltadas para análise quantitativa. “O aluno de Economia da Unifor é preparado para compreender os mecanismos econômicos em suas diferentes dimensões”, afirma.

O economista destaca que a formação permite ao estudante desenvolver competências para interpretar dados, estimar impactos e compreender fenômenos econômicos cada vez mais complexos, habilidades essenciais em um cenário marcado por disputas tarifárias, negociações internacionais e mudanças geopolíticas.

Já para a professora Mônica Luz, preparar profissionais para momentos de instabilidade exige ir além do ensino técnico e estimular a capacidade de análise estratégica. Espaços de prática com acompanhamento docente, como acontece no Núcleo de Práticas em Comércio Exterior (Nupex), são fundamentais para uma formação completa e de excelência.


“No Nupex, nossos alunos desenvolvem planos reais de internacionalização, analisam mercados, interpretam acordos multilaterais e constroem estratégias de diversificação. Quando um cenário como esse explode nas manchetes, eles já têm ferramentas para ler o que está por trás das tarifas e para ajudar empresas a navegar nessa turbulência”Mônica Luz, mestre em Comércio Exterior e coordenadora do Nupex da Unifor

Segundo ela, experiências práticas permitem que os estudantes compreendam os impactos de acontecimentos internacionais sobre empresas e mercados, desenvolvendo competências cada vez mais valorizadas pelo setor produtivo.

Além da preparação acadêmica, os alunos são incentivados a se aproximar da realidade do mercado, participando de atividades que conectam a universidade aos desafios enfrentados por empresas, governos e instituições. Para Marcelo Lamas, o diferencial está no desenvolvimento do raciocínio.


“Dessa forma, o estudante não desenvolve apenas conhecimento técnico, mas também a principal ferramenta do economista: o pensar econômico, ou seja, a capacidade de analisar problemas, interpretar cenários e propor soluções fundamentadas em evidências”Marcelo Lamas, doutor em Economia e docente do curso de Ciências Econômicas da Unifor

Diante de um ambiente internacional cada vez mais dinâmico e desafiador, a formação oferecida pela Unifor busca preparar profissionais capazes de compreender as relações entre economia, política e comércio exterior, contribuindo para decisões estratégicas e para o fortalecimento da competitividade brasileira no cenário global.

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Esta notícia está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), contribuindo para o alcance do ODS 4 – Educação de Qualidade. A Universidade de Fortaleza, assim, assegura a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, promovendo oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos.

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